(Re)Pensando a Secularização: o mitológico, o teológico e o político

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As religiões têm sofrido, como as demais esferas da vida, grandes transformações desde o último quarto do século XX. Em um movimento irônico que se assemelha àquele das democracias modernas, pode-se vê-las, a depender da perspectiva pela qual as olhemos, em uma ressurreição vitoriosa, em uma perseverança incontornável ou em uma crise terminal.

Por um lado, vemos ocorrer desde 1980, como diz Gilles Kepel, uma espécie de “revanche de Deus”; ou, como diagnostica Peter Berger, uma “dessecularização do mundo” e um “reencantamento da modernidade”. Para alguns intérpretes, diante de uma propagada crise e frustração com as promessas da modernidade em que se disseminam anomia, ausência de sentido e mal-estar, estaria ocorrendo um retorno do religioso enquanto fonte de sentido e norma – ou sua incontornável afirmação antropologicamente enraizada no humano. Outros analistas, por outro lado, recusam-se a pensar de tal modo e atribuem uma confusão a tais teses, ocorrida por um erro de perspectiva e por uma falta de conceituação adequada. “Não, não estamos em uma ressurreição do religioso”, dizem-nos alguns discípulos de Max Weber armados do sutil conceitual do clássico: “na verdade, a atual guerra dos deuses é uma manifestação da secularização do Estado e do insuprimível politeísmo de valores de nosso tempo”. Outros, mais enfáticos, como Marcel Gauchet, afirmam sem titubear: “estamos diante de um último suspiro terminal da saída das religiões com o advento das democracias plenamente autônomas”. Outros, por fim, postos no campo radical, mudam a direção do olhar, dizendo que: “sim, as religiões deixam de ser objetos de profunda fé, mas é porque teriam se tornado, ao fim e ao cabo, aquilo que sempre foram – empreendimentos de interesses e ideologias -, estando nós bem longe hoje de seu fim, pois trata-se agora da consagração de um monoteísmo bem profano – o do Deus Capital, com seu templo mundial, o Tudo-Mercado”.

Não faltam querelas acerca disso: estaremos, hoje, vivendo em um mundo desencantado ou reencantado? Estaremos entregues a um desamparo liberador de uma humanidade doravante sem deuses ou será que, no fundo, jamais fomos desencantados e nunca iremos deixar de fazer reverência a um deus? Ora, não será um fato que sempre estamos a encantar nosso jardim, apesar de eventualmente nos voltarmos contra “as religiões”, “as crenças”, “os mitos” e “as mistificações“ do lado de fora, postos no campo inimigo? Ainda que aceitemos tal posição, não deveríamos considerar que, apesar de todas as manifestações de fé e de fervor altruísta, ou de intolerância e de violência sagrada supressoras do outro, não mais podemos pensar da mesma forma que um homem ou uma mulher medievais, posto que nosso modo de crer mudou radicalmente? Independente das vertiginosas dúvidas sobre nosso tempo, uma coisa é, porém, certa: tais interpelações exigem-nos (re)pensar a secularização.

Eis que o Ateliê de Humanidades se encontra defronte de mais um campo de estudos estilhaçado e pulverizado entre as ciências humanas, a filosofia e, agora, a teologia, voltado ao estudo e à pesquisa das religiões em todas as suas dimensões e todos os seus aspectos.

O Plano de Convergência se segmenta em 4 movimentos articulados.

Primeiramente, propomo-nos uma investigação histórica da(s) religião(ões) na modernidade, fazendo convergir duas vias que normalmente se desconsideram entre si e que têm uma problemática em comum – a da relação entre Religião & Modernidade -: a saber, a tese sociológica da secularização, de um lado, e a investigação histórico-filosófica do teológico-político, de outro. Num segundo segmento, apresentamo-nos dispostos a um esforço de síntese teórica, que reúne tentativas dispersas nas diferentes disciplinas de humanidades, mas que o faz sem perder de vista a necessidade de conciliação entre tal empresa de uma teoria geral do mito e da religião com uma investigação histórica dos fenômenos mitológicos e religiosos.

Ao passo que os dois primeiros segmentos empreendem pesquisas teóricas e históricas, o terceiro e o quarto buscam, por sua vez, responder de dois modos ao tempo presente: primeiramente, descrevendo, explicando e compreendendo o que acontece com as religiões no mundo e no Brasil hoje; em seguida, construindo uma atitude intelectual que responda a tais dinâmicas de um ponto de vista normativo, apta por assumir uma abertura ao pluralismo e à diversidade das religiões, ao mesmo tempo que imunizada contra uma recaída no relativismo e no cinismo, sempre omissos diante das barbáries potenciais ou existentes, a começar por aquelas presentes em nós mesmos.

* Imagem: Releitura do Nascimento de Vênus de Sandro Botticelli. Composição via Deep dream.

Em breve será disponibilizado aqui o delineamento completo do Plano.


Projetos em Andamento:

Metamorfoses do Teológico-Político: entre a história da religião, a teoria política e os desafios do presente

Além dos Muros dos Terreiros: Relacionalidade, Corporificação e Cuidado na Ética do Candomblé

Para quê (teo)poetas? Figuras de uma abertura ficcional das hermenêuticas teológicas


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