Plano – Brasiliando: sociedade, política e cultura

O Plano de Convergência sobre o Brasil fornece, ao mesmo tempo, o sentido subjetivo e o sentido objetivo do projeto do Ateliê de Humanidades. Com ele, buscamos, por um lado, responder ao espaço-tempo onde são concebidos a reflexão e o pensar experimentais que nos constituem. Por outro lado, almejamos afirmar uma práxis que, partindo de uma investigação histórico-sistemática da formação nacional e civilizacional do Brasil – em seu triplo aspecto cultural, social e político – realize uma interpretação do que nos acontece, vista como resposta à múltipla crise por nós vivida. Crises que devem ser entendidas em suas ambivalências próprias, como sinais de anomia ou de criação, de esgotamento ou de renovação, de perigo ou de oportunidade.

Para tanto, orientamo-nos em investigações inter- e transdisciplinares, tendo por horizonte dialogar e integrar o estilhaçado campo de estudos sobre o Brasil, que é empreendido hoje, de forma muito profícua e especializada, por diversas áreas: a história-historiografia, a sociologia, a economia, a ciência política, a antropologia, a filosofia e as letras. Para entrar nessa seara, organizamos nossos estudos e pesquisas em quatro segmentos:

Nosso primeiro segmento está voltado às questões relativas à formação histórica brasileira, nacional e civilizacional. Sua delimitação temporal percorre nossa própria história, desde séculos anteriores à colonização e estendendo-se até o século XXI. É certo que se trata, aqui, de uma das vertentes de pesquisa mais antigas e profícuas no país e fora dele (com os brasilianistas), que remonta aos esforços de interpretação da “realidade nacional” em tempos de Império, passando pelo período heroico dos “intérpretes” e dos movimentos culturais do início do século XX, até o processo de constituição e formação das ciências sociais brasileiras dos anos 1940 e 1950 em diante. Além das abordagens clássicas, dialogamos e reunimos também todos os estudos e pesquisas, de orientação empírica ou teórica, que tenham como objeto o desenvolvimento econômico, social, cultural, intelectual e institucional brasileiro: história econômica, sociologia histórica, história comparada, sociologia das instituições, pensamento social brasileiro, crítica literária, etc.

Investigamos não apenas a dimensão histórica (socioeconômica, institucional e cultural) da formação brasileira, como também a dimensão sócio-ideacional de constituição de uma intelligentsia (nativa ou estrangeira) voltada à interpretação do desenvolvimento histórico e de seu devir efetivo, desejado ou orientado. Como bem estabelecido, como resultado de contribuições dos campos do pensamento social brasileiro, da crítica literária, da histórias das ideias e dos conceitos e da sociologia dos intelectuais – interface que reúne, dentre várias outras, contribuições profícuas como as de Luís Werneck Vianna, Maria Alice Rezende de Carvalho, André Botelho, Antonio Brasil, Christian Lynch, João Marcelo Ehlert Maia, João Cézar de Castro Rocha e Luiz Costa Lima -, opera-se, aí, entre o intérprete e o interpretado, um círculo hermenêutico com uma efetividade histórica na “brasilianização” de ontem assim como na de hoje, repercutindo tanto na autorreflexão sobre o que (social e culturalmente) somos, quanto na constituição de uma cultura política e de instituições nacionais e políticas públicas.

Tal esforço de história socioeconômica, cultural e política parece-nos, ao mesmo tempo, antigo, necessário e urgente. Isso porque, como bem sabido, a experiência da intelectualidade em nossas terras está em permanente tensão com o solo nativo. Oscilante entre uma realidade nativa, uma imposta e outra enxertada, aquilo que podemos chamar de “brasilidade” constitui-se numa conjugação improvável e desejada, mas raramente harmônica e evidente. Neste sentido, importa-nos investigar a formação e consolidação das interpretações do Brasil e, sobretudo, a das ciências sociais brasileiras. No tocante às ciências sociais, importa-nos não apenas pesquisar sua história, mas também seu desenvolvimento contemporâneo, marcado por acentuada profissionalização, especialização e pluralidade. Grande atenção oferecemos, neste sentido, à evolução da pesquisa teórica (sociológica, antropológica, política e filosófica) “no Brasil, do Brasil e/ou à brasileira” (para usarmos o insight linguístico de Carlos Eduardo Sell), incluindo aí o pensamento (ou teoria, como o quer Christian Lynch) social e político brasileiro.

Aos esforços historiográficos, acrescentamos um segundo segmento, que, com uma ênfase mais sincrônica do que diacrônica, é mais propriamente antropossociológico. Aqui, retomamos, no contexto de algumas áreas clássicas das ciências sociais – como as antropologias e sociologias das religiões, da política, do direito, da família, dentre outras -, problemas formativos e contemporâneos da sociedade brasileira: as transformações da família, as formas e dinâmicas brasileiras das religiões, o advento da democratização estatal, social e cultural, a dinâmica das instituições políticas, burocráticas e judiciárias, etc.

Nesse ponto, o Ateliê assume um compromisso mais efetivo com as questões do presente histórico. Compromisso mediatizado pelo tempo da reflexão, o tempo do pensamento, mas ainda assim atento às oscilações da vida social brasileira em seu sentido amplo. Configura-se aqui uma série de eixos temáticos que circunscrevemos no interior de cada uma das grandes áreas citadas, com destaque para as transformações no âmbito do Estado brasileiro e de suas principais instituições articuladas entre si e com as tendências de desenvolvimento histórico e sociais globais.

Dessa forma, tocamos, em forte diálogo com o Plano “Mutações da Democracia”, a pesquisa sobre o desenvolvimento da Democracia e a crise contemporânea que a atravessa. Aqui, detemo-nos na trajetória e no presente brasileiro, que, conectado certamente ao processo histórico da modernidade europeia e manifestando-se, em certo sentido, como forma particular de uma crise globalizada de nosso tempo, possui sua singularidade no tocante à cidadania, à esfera pública, à sociedade civil, à cultura política e, enfim, à forma do Estado-Nacional.

Estreitamente vinculado, tocamos igualmente o tema do Direito no Brasil e da esfera jurídica. A articulação das temáticas do Direito, da Democracia e do Político lança luz sobre tópicos contemporâneos, como, por exemplo, o processo de imbricação do Direito e da Política em relação com as tendências de caráter sociológico universais de autonomização da esfera jurídica, assim como a questão da crise de legitimidade que nossas instituições políticas hoje experimentam.

Do mesmo modo, o Plano abriga, em diálogo com o Plano “(Re)Pensando a Secularização”, questões relativas às religiões no Brasil, no tocante às suas vias, formações, lógicas e dinâmicas próprias, mas também tratando de seus desdobramentos, algumas vezes conflituosos e perigosos sociopoliticamente, na reconfiguração da atividade política, das instituições sociais e das dinâmicas culturais contemporâneas.

Dado que, no Brasil, a crise civilizacional é ao mesmo tempo uma crise das formas de expressão e de produção cultural, entendida amplamente no sentido de atrofia, esgotamento e ruptura iminente com expressões artísticas e intelectuais tradicionais, em suas manifestações institucionais e não institucionais, cumpre delimitar o terceiro segmento do Plano como circunscrito à dimensão cultural, desdobrando em uma dupla crise: cultural-educacional e estético-epistêmica.

A. Aqui, questões verticais, concernentes apenas ao segmento de cultura brasileira, e transversais, concernentes a esse segmento e a outros, se tocam. Com efeito, o problema da crise cultural, em seus aspectos institucionais, pareiam com questões análogas do Plano de “Humanismo,  Pragmatismo e Complexidade”, tais como a investigação sobre as particularidades do desenvolvimento das Instituições de Ensino no Brasil em relação com o mesmo processo globalmente (estudo de história comparada) e o estudo das formas e a natureza da crise espiritual que acomete a Educação e Formação nacionais, institucional e não-institucional.

Tais proposições passam necessariamente pelo estudo da história da cultura e da educação no Brasil, mas também pelas teorias pedagógicas que influenciaram a conformação do nosso sistema educacional.  Cabem aqui, inicialmente, aquelas teorias e processos majoritários, que presidiram a formação cultural brasileira, como os encontrados nas instituições estatais e públicas constituídas a partir de Vargas e nos grandes movimentos sociais educacionais, como o da Escola Nova, que, tendo sido liderado por intelectuais (Anísio Teixeira e Fernando de Azevedo) formados no humanismo ibérico e orientados pelo pragmatismo americano e pela sociologia educacional republicana francesa, participaram diretamente da institucionalização  educacional e teorização pedagógica. Mas incluímos também aqueles que tiveram um alcance menor e não influenciaram tanto a direção dos fatos, tais como a educação e pedagogia anarquistas e germanistas.

Por outro lado, nos colocamos na linha de frente do resgate de uma tradição de crítica cultural brasileira senão esquecida ou desconhecida, ao menos pouco referenciada, que pretendeu fazer da fusão entre a sociologia da cultura, a crítica filosófica e a crítica da cultura uma sociologia crítico-filosófica da cultura que encontrou seu modo de expressão preferencial na forma ensaio: Roberto Schwarz, Sergio Paulo Rouanet, José Guilherme Merquior, Edmundo Campos Coelho dentre outros. Nem sociologia da cultura, nem filosofia social, nem crítica literária strictu sensu, eis uma outra via de apreensão e tratamentos dos dilemas da cultura nacional. Esse resgate é duplo: da forma, como maturação da forma-ensaio, e da história, com estudos e pesquisas que tenham por objeto essa verdadeira tradição.

B. Diagnosticamos hoje também, em diálogo com o Plano “Estética, Artes e Afetos”, uma crise estética que, por um lado, assume contornos idiossincráticos imanentes às esferas da música, do cinema, da literatura, e, por outro lado, é uma expressão de época ou etapa histórica. É o período do esgotamento das formas artísticas criadas no passado e da sensibilidade que lhe era próxima, sem que algo novo venha a tomar seu lugar, cujo sintoma é a exploração exaustiva de símbolos e movimentos pretéritos, seja na forma da nostalgia e devoção, seja naquela do pastiche e da ironia. Nesse sentido, nos voltamos para os movimentos nacionais na pintura, na literatura, no cinema, na música, nas artes plásticas e na poesia, a fim de identificar de maneira imanente suas dinâmicas e significados sociais, culturais e políticos. Ao mesmo tempo, a pesquisa nesses domínios configura uma aposta na sua potencialidade epistemológica, isto é, na capacidade que tem as artes e a literatura em geral em desvelar o caráter social de uma época, mas, para alguns de nós, em uma perspectiva particular, a saber a da teoria crítica de matriz alemã, e/ou a da teoria do político francesa.

O que pretendemos aqui é reatar o fio que une crítica social e crítica cultural, o que significa em outras palavras analisar as produções não apenas a partir da sociabilidade que elas sustentam, da reprodução das identidades sociais que elas ajudam a perpetuar, do prazer e do entretenimento que elas causam, mas sobretudo a partir da emancipação social que elas seriam capazes de gerar. Um movimento crítico que põe em suspenso a si mesmo, e inquiri-se nos termos da sua forma e das suas ideias.

É o que nos conduz ao quarto e último segmento, onde voltamo-nos para as formas culturais não apenas pelo viés da crise, mas também tendo em vista o que há ou pode haver de potencial para construção de um ideal civilizacional.

Ainda que o movimento modernista dos anos 1920 tenha se orientado pela afirmação de uma identidade, estética ou estilo nacional, sintetizado algumas vezes de forma sedutora, como na antropofagia de Oswald de Andrade, parece-nos, diante da crise cultural contemporânea, que recaímos cronicamente na armadilha diagnosticada por Euclides da Cunha, a de um país voltado de costas para o interior e de frente para a Europa.

Voltar-se atentamente para o País como um todo, sobretudo o interior, sem virar as costas ao que vem de fora, é uma demanda que nos parece permanente e, hoje, urgente e oportuna. Movimentos culturais e intelectuais brasileiros (estéticos, populares, religiosos, etc.) podem ser vistos não como meros fatos históricos a serem estudados por especialistas,mas sim como tendo significado enquanto estilos de pensamento e formas de vida, ou mesmo, como autênticas propostas civilizacionais. Diante de um tempo, como o século XXI, em que se abre o horizonte de alternativas civilizacionais que sejam, ao mesmo tempo, universalistas e pluralistas, podemos buscar em manifestações culturais, estéticas, religiosas e intelectuais brasileiras um potencial de universalidade que esteja além de um ufanismo ingênuo ou de um eurocentrismo caduco.

Com isso, é possível abrir caminho para pensar quais as virtudes (e riscos evidentemente) de um processo de “brasilianização”, enquanto enriquecimento dos referenciais modernos até então vigentes, ou, no limite, um projeto civilizatório específico. Aqui, (re)surgem questões como as da antropofagia, da mestiçagem, da dialética da malandragem, do sincretismo, do equilíbrio instável dos opostos, dentre outras.

Em conclusão e síntese, podemos dizer que o Plano condensa um emaranhado de questões com alta complexidade e amplitude. Todas as questões elencadas acima consideram aspectos teóricos gerais que pautam – ou deveriam pautar – os grandes debates acadêmicos, e, do mesmo modo, os aspectos histórico-empíricos que regem a vida pública nacional, e que reclamam reflexões e elucidações a respeito de uma pergunta a agitar as cabeças: Que Brasil é este, no que veio a ser ao longo dos séculos e no que se transformou hoje, no início do século XXI?

Tendo como objetivos muito gerais uma compreensão aprofundada do Brasil contemporâneo, partimos de quatro problemas ou questões que orientam o estudo e a pesquisa no interior do Ateliê:

  • a questão da natureza da formação histórico-social brasileira no século XXI, o que inclui o estudo e a pesquisa sobre seu desenvolvimento histórico, a sua localização no contexto do sistema internacional – que inclui o capitalismo mas também outras dinâmicas – e suas particularidades estruturais, em diálogo tanto com estudos clássicos quanto com a mais recente interpretação e historiografia;
  • a questão da crise cultural e da produção cultural em seu duplo aspecto, educacional e estético-epistêmico: (a) Crise educacional tanto no aspecto institucional, tal como se configura nas Instituições Acadêmicas, e não-institucional, tal como deveria se configurar nos movimentos da arte popular e de vanguarda; (b) e crise estética, tomada como fator da experiência brasileira, que caracteriza as marcações históricas dos críticos da cultura e de arte no Brasil contemporâneo, apontando, de maneira singular, para a articulação entre crítica social e crítica cultural na tradição da teoria crítica de matriz alemã.
  • a formação da democracia brasileira e das instituições políticas, burocráticas e judiciárias, bem como da autonomização e reconfiguração das esferas social e política, por meio de um estudo sincrônico e diacrônico das instituições sociais do Brasil do século XXI, a fim de entender as formas da crise sócio-política que nos acomete, e que está subjacente como hipótese.
  • pensar o Brasil por meio de seu desenvolvimento histórico, assim como de suas feições mais profundas – aquilo que alguns chamam de “Brasil profundo” -, voltando-se a estudos e investigações históricas sobre expressões culturais e populares, debruçando-se sobre toda a expressividade presente nas artes, na arquitetura, na canção, no cinema, nas religiosidades, na poesia e na literatura existentes nestes trópicos.

 

Site no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: