Fios do Tempo. A coragem de ideias fortes: uma homenagem a Luiz Pinguelli Rosa – por André Magnelli

Preparando-me para a palestra que farei próxima semana no Coloquio 100 años de Pablo González Casanova com a presença dos colegas Jaime Preciado Coronado e Jaime Torres Guillén, organizada pelo Centro Universitario de Ciencias Sociales y Humanidades da Universidad de Guadalajara, México, lembrei-me de que havia escrito há muito tempo uma resenha sobre o livro “As novas ciências e as humanidades: da academia à política” (publicado em espanhol em 2004 e em português pela Boitempo em 2006), de González Casanova. Procurando na caixa de e-mail, infelizmente não a encontrei (o que não é grave pois estou a escrever um texto novo sobre Casanova com o benefício da maturidade). Mas achei outra resenha, da qual não me lembrava, escrita no mesmo contexto de uma disciplina de teoria política contemporânea, em 02 de julho de 2008, sobre o livro Tecnociências e Humanidades: novos paradigmas, velhas questões, do engenheiro Luiz Pinguelli Rosa.

Luiz Pinguelli Rosa foi professor titular e depois emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Era conhecido como notório especialista na área de energia, tendo sido presidente da Eletrobrás e atuou também no Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) e no Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. Em 03 de março de 2022, ele partiu aos 80 anos. Quando soube da notícia, quis fazer uma homenagem mas a falta de tempo e os caminhos da vida não permitiram. Eu havia sido bem surpreendido, junto com outros como o filósofo Franklin Trein (UFRJ) (com quem estava em diálogo na época), pela publicação de Tecnociências e Humanidades por Pinguelli, um projeto de três volumes; isso porque se mostrou aí uma face epistemológica desconhecida do engenheiro especialista em energia e que circulava bem pelas instituições de Estado e os circuitos políticos.

Como uma homenagem atrasada, publico hoje esta resenha tal como escrita aos 26 anos (exceto com uma correção de digitação e algumas quebras de parágrafo). Espero que assim contribua um pouco para a retomada do caminho proposto neste projeto inacabado (não veio à luz o terceiro volume), que tinha a audácia de articular a reflexão epistemológica com uma intenção política orientada para um desenvolvimento nacional consciente dos desafios do século. Parece-me que é nisso que deve se inspirar o retorno a uma “grande política” após a vertiginosa queda que vivenciamos desde então. Mesmo que não concorde com tudo que aí está, tenho muito apreço pela coragem de ideias fortes que nele se apresenta.

A. M.
Fios do Tempo, 13 de maio de 2022



A coragem de ideias fortes:
uma homenagem a Luiz Pinguelli Rosa

02 de julho de 2008

Rosa, Luiz Pinguelli. Tecnociências e humanidades: novos paradigmas, velhas questões.
V. 1: O determinismo newtoniano na visão de mundo moderna. São Paulo: Paz e Terra, 2005.

Este livro do Prof. Luiz Pinguelli pode ser qualificado como um daqueles raros livros que somente podem ser frutos de poucas mentes, mas que, por isso mesmo, devem ser lidos por todos. É um alento lê-lo diante do cenário intelectual, social e político contemporâneo. Seu poder de síntese teórica e de articulação de problemáticas das mais variadas áreas do saber e da prática contrasta soberbamente com a tendência entorpecente de fragmentação do conhecimento e da conseqüente perda de compreensão do sentido da existência social e política do homem contemporâneo. Como muitos dizem e redizem, vivemos numa época dos fins (ou, em outra, dos pós): fim da história, da modernidade, da razão, da ciência, da teoria, da política, do socialismo, da moral, etc; podendo-se seguir ou ordenar a série conforme o gosto do pensador “crítico”.

O campo das ciências humanas, as chamadas “humanidades”, vive intensamente estas crises como uma das áreas de saber das mais contagiadas e contaminadas por este espírito apocalíptico. Não só se perde, mas também, o que é pior, defende-se a perda de visão da totalidade. As defesas do particular, do local, do plural, da incerteza, da abertura, da imprevisibilidade, da criatividade pela desordem e da censura à intenção de organizar são das mais constantes “palavras-de-ordem” vigentes. Contra as facilidades destas tomadas de posição muitas vezes excessivamente espontâneas, devemos ler o livro Tecnociências e humanidades: novos paradigmas, velhas questões. Nele, antes de tudo, poderemos nos deixar instruir pelo objetivo central do autor, evidenciado no subtítulo do livro, que é o de mostrar que muitos dos problemas atuais das humanidades e das tecnociências possuem raízes sócio-históricas e filosóficas profundas, que nos põem questões desde há muito embaraçosas, e que, por isso, faz-se necessário restabelecer a gênese das mesmas, vindo do passado para o presente, a fim de melhor entender o surgimento dos paradigmas hoje vigentes e também os resultados possíveis do porvir.

As ciências humanas atuais, mesmo sem o saber, ao utilizarem o vocabulário acima esboçado, reproduzem uma enxurrada de idéias que foram retiradas por contrabando dos problemas originados no campo das ciências da natureza e das tecnociências. De forma estranha, recorrentemente nas humanidades são defendidas idéias pretensamente novas, como sendo peculiares ao próprio campo e muitas vezes como nascidas de parto recente, e isso é feito contra as ciências da natureza e seu pretenso positivismo, determinismo e mecanicismo, tidas como caracterizadas pela busca de leis gerais e abstratas. No entanto, e aqui se encontra a parte esquecida deste efeito retórico, o vocabulário utilizado foi fruto de inúmeras rupturas com o paradigma determinista newtoniano realizadas em áreas das ciências da natureza, tais como: na física, com as teorias da termodinâmica, do eletromagnetismo, da relatividade e da mecânica quântica; na biologia, com a biologia molecular, a engenharia genética, a teoria da mente, a ecologia e a etologia (não sendo estas duas últimas referidas pelo autor); no campo da matemática, com os modelos computacionais e cibernéticos e a teoria do caos determinista; e enfim, na interseção entre biologia e física, com a biotecnologia e a engenharia genética.

O autor, num projeto de louvável fôlego e invejável poder de síntese, percorre por todas estas vertentes da ciência contemporânea (nascida em finais do século XIX e em pleno desenvolvimento no limiar do século XXI, período este denominado pelo autor como o do “fim do milênio”). E neste percurso ele busca a confirmação de suas teses principais: 1º) a física forneceu o paradigma dominante para as teorias epistemológicas mais influentes da modernidade, tanto nas ciências da natureza quanto nas humanidades, incluindo nestas o marxismo e a teoria econômica liberal; o paradigma é identificado com o determinismo newtoniano, que trazia consigo a idéia de previsibilidade; 2º) em substituição ao determinismo newtoniano, está em gestação um novo paradigma geral na ciência, ainda que o determinismo sobreviva como paradigma em algumas ciências, principalmente a economia em sua vertente neoliberal; neste novo paradigma em formação a biologia passa a possuir importância talvez maior do que a da física, com as chamadas teorias da complexidade.

Na verificação destas teses, Pinguelli encontra-se munido do método do materialismo histórico, recusando-se a percorrer o desenvolvimento da ciência num plano autônomo, buscando estabelecer a relação de influência mútua entre contexto histórico (social, econômico e político) e pensamento científico, entre visão de mundo dominante e ciência. E aqui se encontra grande parte de sua potência analítica e ética: ele se recusa a separar reflexões do campo da filosofia da ciência e da epistemologia daquelas da teoria social e política e, o que é ainda mais importante, da prática política. Da epistemologia chega-se à política e daí se faz o caminho de retorno, percorrendo todas as mediações necessárias para a compreensão do processo histórico concreto. Neste esforço de compreensão histórica e crítica, nos termos do próprio autor, ele tem como um de seus objetivos maiores o de mostrar que as “duas culturas”, as das humanidades e as das ciências naturais, podem relacionar-se entre si por meio de uma linguagem comum, ancorada na tradição intelectual Ocidental, herdada dos gregos e do Iluminismo e atualizada ou transformada pelas teorias contemporâneas. Ora, “esta herança deve ser criticada e revisada, combatida e revolucionada, mas jamais ignorada, seja em nome do cientificismo instrumentalista, seja em nome do anticientifismo por vezes associado ao pós-modernismo” (p.43).

As tecnociências e as humanidades não só podem como devem ser pensadas de forma unificada, e isso certamente numa visão crítica, tal como a do pós-modernismo, mas também de forma racional. Isto porque, segundo ele, a “posição aparentemente radical do relativismo”, que é às vezes identificado ao pensamento pós-moderno, ao se associar a um ceticismo em relação à racionalidade e, “portanto à capacidade humana de compreender o mundo”, acaba por abrigar em seu seio um núcleo conservador, que leva o relativismo anticientífico a tornar-se uma prática anti-humanista, seja por ação, seja por omissão.

Isto posto, Luiz Pinguelli propõe-nos, no último capítulo de seu livro, uma retomada da discussão da crise do marxismo e, a partir dela, da reconsideração do socialismo enquanto utopia norteadora de projetos de um outro mundo possível. Segundo ele, a crise do marxismo é uma crise do socialismo e da esquerda, que, por sua vez, está imbricada com a crise do capitalismo e com a crítica aos valores da modernidade, valores esses que incluem o determinismo e a previsibilidade enquanto norteadores de visão e ação no mundo. A crítica à modernidade incorre na afirmação do “mundo descontrolado” (conforme a representação de Giddens). Nesta crítica, acaba-se por cair numa adequação, mesmo que involuntária, com o sistema dominante vigente. E inclusive, esquece-se que mesmo diante da grande imprevisibilidade do mundo, as empresas transnacionais não são impedidas de possuírem dispositivos e técnicas de controle sobre os seus mercados. O ceticismo político afirmado na incapacidade de controle do mundo deixa o mercado à mercê de suas forças, ou melhor, deixa-o nem tanto em um funcionamento auto-regulado (tal como preconizado pelas teorias neoliberais) mas muito mais na regulação controlada pelas organizações transnacionais e suas redes, detentoras de instrumentais obtidos de saberes das tecnociências. Citando Miliband, Pinguelli afirma que o pós-marxismo e o pós-modernismo têm servido, independentemente de suas intenções, para fortalecer um retrocesso, pois enfatizam tão-somente objetivos parciais, localizados, fragmentários e específicos em oposição às perspectivas universais e totalizadoras (e assim, poderíamos acrescentar, o esforço de universalização é deixado a serviço das “forças do mercado”).

Diante desta situação, a esquerda deve resistir ao canto da sereia, e ao invés de propor uma resignação diante da ordem vigente após o fim do “socialismo realmente existente”, deve repensar a política de tal forma a lutar por um socialismo democrático que combine utopia com resistência, racionalidade com ética. E aqui o marxismo continua a ter toda a sua força, sendo a doutrina política que pode articular as “duas culturas”, as humanidades e as tecnociências, a partir de uma visão totalizadora que constitua uma práxis social global. A crise estrutural do capitalismo em voga reacende a idéia de um socialismo factível. Mas isto na condição do marxismo se livrar de sua tendência ao paradigma determinista newtoniano, readquirindo novas formas de pensar a realidade. Deve-se abandonar o socialismo do marxismo-leninismo e conceber o socialismo democrático com a conciliação de democracia política, igualitarismo social e socialização econômica.

A busca destes objetivos passa pela crítica ao capitalismo, em seus três aspectos principais: 1) crítica à hegemonia mundial dos EUA; 2) crítica ao enfraquecimento dos Estados Nacionais diante da globalização neoliberal e do Império; e 3) crítica à questão do desenvolvimento econômico desvinculado da pobreza, propondo-se em seu lugar a articulação de economia e ética. É um imperativo moral estabelecer metas para melhorar as condições econômicas e sociais de todos e eliminar a pobreza. E isso com ou sem socialismo. É necessário construir formas de resistência à barbárie e, para isso, eliminar a oposição comum dentro do marxismo entre objetivos imediatos táticos e objetivos estratégicos globais. Os dois revem ser realizados.

O socialismo deixa de ser, para Pinguelli, uma vez visto fora do determinismo newtoniano, um ato final consumado, devendo ser visto enquanto “um processo de transformação da ordem social”. Seja ele, para usar as metáforas do autor, um socialismo adiabático (ie, lento e reversível, sem esquentar o ambiente), ou socialismo assintótico (só se completaria num tempo infinito, ie, nunca), o mais importante é tê-lo como meta. As alternativas que devem ser encontradas para a realização do socialismo têm que ser globais, assim como são globais os efeitos das contradições do capitalismo mundial: degradação do meio ambiente, aumento da desigualdade social, da pobreza e da exclusão social, instauração de uma sociedade mundial da segurança e de uma ideologia da ameaça permanente, etc. O crescimento da pobreza e da miséria contrasta com o exuberante poderio tecnológico das grandes empresas transnacionais. E sendo assim, não há como, para Pinguelli, optar pela terceira via. Ao contrário, deve-se inverter a sua proposta: “devemos admitir como um dos mundos logicamente possíveis, embora fora da realidade hoje, o recuo do neoliberalismo e o resgate do socialismo em moldes mais democráticos do que o socialismo real que existiu” (p.398). Isto quer dizer que se deve resistir pela e através da utopia. Utopia e resistência são as formas de construir um mundo alternativo.

É restauradora a proposta de Pinguelli, e todo o percurso analítico e histórico por ele realizado ao longo do livro leva ao seu projeto político a clareza de seus pressupostos e a iminência de sua necessidade. Este livro é para ser lido por todos, para que ao menos se desconstrua o consenso vigente nas diversas dimensões da sociedade contemporânea, que, normalmente, na melhor das hipóteses, isto é, na existência de pensamento crítico, o que se encontra é o exercício da crítica com resignação, resultado da associação da fragmentação de visão de mundo com o encantamento com as facilidades do consumo (ou, indiretamente, pela incorporação do estilo de vida vinculado diretamente com a socialização numa sociedade de consumo).

Para encerrar a resenha, vale a nota: termina o livro, mas a obra do autor vai além. O presente livro é apenas um do projeto de pelo menos três volumes. Se aqui foi tratado o tema do “determinismo newtoniano na visão de mundo moderno”, esperaremos nos próximos volumes o desfile analítico e político do autor ao longo dos temas: “revoluções científicas pós-newtonianas, incerteza e pós modernismo” [livro publicado em 2006] e “ciência, tecnologia e sociedade no limiar do século XXI” [livro que não veio a público]. Enquanto esperamos pelos próximos livros, leiamos atentamente o presente volume, isto pois para que entendamos o processo histórico de dois séculos de pensamento Ocidental e, no fim, compreendamos os impasses e sucessos do governo Lula, tão bem esboçados na pequena observação do autor no final do livro.

É idealizador, realizador e diretor da instituição de livre estudo, pesquisa, escrita e formação Ateliê de Humanidades (ateliedehumanidades.com). 
Sociólogo, professor, editor e empreendedor público. É co-coordenador do Ateliê de Humanidades Editorial, do Cadernos do Ateliê e do podcast República de Ideias. É editor da tribuna Fios do Tempo: análises do  presente. Pesquisa na interface de teoria social, tecnociências & sociedade, sociologia histórica do político, teoria antropológica, ética, filosofia política e retórica.



Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial


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