Fios do Tempo: Combate-contra ou combate-entre? Um filme que não acertou as horas com o século 21- por Aldo Tavares

Como era de se esperar, Marighella, filme dirigido por Wagner Moura, gerou suas comoções, entre repúdios da direita e catarses de esquerda. Para além da questão sobre a qualidade ou não da obra cinematográfica, como podemos refletir sobre a concepção de poder e de combate político presente na figura do guerrilheiro?

Em seu retorno ao Fios do Tempo (que sejam bem vindas suas forças vitais, meu amigo), Aldo Tavares reflete criticamente sobre Marighella trazendo suas contribuições filosóficas a respeito do conceito de poder como representação. Muito diferente do “combate-contra”, expresso pela luta armada, Aldo nos propõe acertar as horas com o século XXI compreendendo, com Nietzsche, que o que se trata de empreender é um “combate-entre” avesso aos dualismos, esteticamente maleável e, por isso, politicamente eficaz.

Desejo uma excelente leitura.

A. M.
Fios do Tempo, 27 de novembro de 2021



Combate-contra ou combate-entre?
Um filme que não acertou as horas com o século 21

Marighella, o combate-contra

À esquerda da escrivaninha, minha estante acolhe juntos, não sem propósito, Albert Camus e Jean-Paul Sartre. Nesse mosaico de livros, O Homem Revoltado e O Existencialismo é Humanismo ladeiam-se, pois, ao se escolher homem revolucionário, escolhe-se a humanidade inteira, ainda que o combate pensado pelos dois filósofos seja bem diferente: para Camus, a revolta é sem armas e, para Sartre, luta-se armado. Diante dessa oposição, subentendem-se dois combates, um deles: o combate-contra.

Uma vez armado, evidencia-se o contra e, com efeito, a (ex)posição hostil do inimigo, quer dizer, o outro é visto segundo sua representação. O combate-contra deixa à mostra a violência; Camus, porém, condenou a violência revolucionária, menos a violência sob circunstâncias extremas, como o esforço francês na guerra, mas a violência revolucionária, a mesma que empurra a história em direção ao que se deseja, trai a si mesma, pois tal violência senhora uma pulsão de verdade que destrói a própria liberdade, concebendo esta como ato que, ao se escolher, escolhe o Outro. Para Albert Camus, o conflito entre justiça e liberdade exige reequilíbrio constante, moderação política, a aceitação e a adesão àquilo que mais nos limita: nossa humanidade. “Viver e deixar viver para criar o que somos”, disse Camus; todavia, por causa de suas críticas ao ato revolucionário violento, Sartre repudiou O Homem Revoltado. A partir de suas páginas, deixam de ser amigos.

O combate-contra impõe o dualismo com a seguinte pergunta: de que lado você está? Nessa própria indagação, o (ab)soluto no mundo sensível brutaliza a própria vida, diga-se. Porque não admite o movimento, o combate-contra fecha-se em si mesmo com toda sua força orgânica. Em Crítica e Clínica, Gilles Deleuze escreve que o combate rejeita a guerra, pois esta não tem o propósito de conquistar a alma. A guerra é aniquilamento, e – eu acrescento – ela deixa o peso do ressentimento, o mesmo peso pensado por Friedrich Nietzsche em Genealogia da Moral. O combate-contra não conquista a alma, o mais profundo.

Permitamos que o conceito combate-contra projete esta imagem cinematográfica, qual seja, a do filme Marighella, onde a luta revolucionária reduz a palavra ao estado bruto, ao estado de coisa, ao estado de objeto binário. Preso ao modelo fixo de poder  – modelo, aliás, a que Nietzsche fugiu  –, o revolucionário só consegue ver o poder como força maniqueísta, isto é, como combate-contra, o que faz de Marighella um cego, pois, ao não ler o poder nas (entre)linhas, a representação é verdade.

Em razão de o Exército ter se infiltrado na estrutura revolucionária, o corpo de Marighella, aos 58 anos, tomba na alameda Casa Branca, nos Jardins, São Paulo, em 1969, saindo de cena o representante baiano do combate-contra no último ano da década de 1960, década em que Jean Lacroix e Robert Kanters tecem elogios a um filósofo que declararia em 28 de junho de 1984 “sou simplesmente nietzscheano”, ele: Paul-Michel Foucault. Se Marighella herdou do marxismo ortodoxo uma leitura binária do poder, o surgimento de Foucault nos anos 1960 significa retomar a concepção de poder deixada por Nietzsche, filósofo a que se refere em Microfísica do Poder como “o filósofo do poder”. Quando se trata de poder, é Nietzsche, e não o Karl Marx de A Ideologia Alemã, que nos ensina, visto que Assim falou Zaratustra, obra literário-filosófica, nega o combate-contra, representado pela fábula do leão. Escreve Deleuze em Crítica e Clínica: “Zaratustra, o livro dos símbolos, livro combatente por excelência” por expressar o combate-entre. A tática de o Exército se infiltrar nas paredes sólidas da ALN só atesta a forma de um poder fino, sutil, delicado, feito com a arte da representação, portanto, porque sua natureza é a de um esteta, o poder é combate-entre.  

Infiltrado na Klan, o combate-entre

Em 2018, o Oscar de melhor roteiro adaptado destina-se a Infiltrado na Klan, do renomado diretor Spike Lee. Em 2019, Green Book, do diretor Peter Farreley, recebe o Oscar por melhor filme. Em 2020, criado pelo diretor Bong Joon-ho, o melhor filme é Parasita. Por fim, em 2021, o Oscar de melhor ator coadjuvante vai para Judas e o Messias Negro, do diretor Shaka King. O que há entre essas quatro obras cinematográficas? Embora em graus diferentes, elas apresentam em comum uma forma de combate que desconhecemos no filme do diretor Wagner Moura, que deveria estar em cartaz no Brasil desde 2019.

Enquanto nos últimos anos a indústria cinematográfica de Hollywood nos apresenta imagens do combate-entre, Wagner Moura nos encarcera atrás de grades maniqueístas da história, não se liberta da luta político-binária, é como se ainda vivêssemos sob o olhar do narrador de Germinal, obra literária de Émile Zola, criada em 1885. Mais: é como se ainda só assistíssemos às imagens de Metrópolis, do diretor Fritz Lang, ignorando, por conseguinte, que as máquinas semióticas se atualizaram na película Ela, de Spike Jonze, e isso em 2013, não parando de se atualizar até este segundo. Nesse sentido, e só nesse sentido – afinal, considero e respeito muito a importância biográfica de Marighella –, o filme de Wagner Moura não passa de um constrangedor atraso intelectual, pois o poder não é o que a sua arte nos apresenta, não é combate-contra.

Nietzsche nos apresenta o poder na condição perturbadora do neutro e, como nietzscheano que é, Foucault também o apresenta como neutro ao escrever em Vigiar e Punir o termo panóptico, posto que, ao se situar entre o centro e a circunferência do dispositivo (o edifício), o olhar do poder vê os prisioneiros, mas o poder não é visto, estando, portanto, no espaço intermediário, isto é, no espaço neutro ou no espaço-entre.

No livro Foucault, Gilles Deleuze escreve para muito além dos clichês binários a que submeteram Foucault nas graduações de Filosofia, de Sociologia e de História, permitindo surgir o filósofo, à moda (?) Nietzsche, que pensa o poder enquanto forçaentre e, como tal, o combate é estética do neutro. Ora, sejamos óbvios: porque neutro, o poder neutraliza, obstruindo qualquer conflito, qualquer combate-contra. Os traidores sempre deixam seus amigos desarmados porquanto não são visíveis e não são ocultos, pois se movem entre, ou seja, não sendo nem visível, nem oculto, eles fluem na zona exceção. Assim, como combate Menor, como combate-entre, os traidores, os de Marighella, neste caso, são extensões imperceptíveis do Exército e, por ser poder Menor, microfísico, representam a força perturbante do paradoxo, visto que seus rostos estão dentro ao mesmo tempo que estão fora.

O pior inimigo e o maior perigo da guerrilha, a infiltração. Leiamos a palavra; pois, afinal, se não a lemos, não vemos a realidade, posto que a palavra pensada amplia o mundo visível. Do latim philtrum, a palavra “filtro” tem como primeiro significado “beberagem para despertar o amor”, o que evidencia “o não conflito, a não oposição” e, por conseguinte, “a identificação”. Filtrar o objeto incomum, portanto, tem o sentido de familiarizá-lo, deixando-o perto, melhor, fazendo-o parte do destino de Marighella. Por apresentar sabor, cor e cheiro “estranhos”, filtra-se a água, o que permite, então, por ela ser agora familiar, sua passagem “insípida-incolor-indolor”. Infiltrar-se é ação de um corpo que não se pode incomum ou não se pode estranho, por isso o meio poroso ou o entre purifica sua estranheza. O Exército é esse corpo estranho que não se pode estranho no combate Menor, não se pode estranho no combate microfísico, é quando o rosto do DOPS, deixando de ser estranho, expressa toda familiaridade no rosto de dois amigos de Marighella. O traidor, porém, nunca se infiltra porque ele é o já infiltrado que se apresenta como o puro amigo. Uma vez purificadas as impurezas do inimigo, o rosto do traidor, sem ser inimigo, sem ser amigo, neutraliza por ser neutro.       

A história da guerrilha brasileira é a história da arte da infiltração, força estética que o poder exerce de forma neutra, natural. Só para registrar dois exemplos: quem guiava o carro de Prestes e de Olga era a “camarada” Helena Kruger, infiltrada pelo capital britânico. No Araguaia, o próprio Exército vendia armas aos guerrilheiros por meio de militares infiltrados como homens simples do campo. Se o pior inimigo e o maior perigo da guerrilha chama-se infiltração, Carlos Marighella não (des)cobriu os infiltrados, seus “puros amigos”.

Leio este fragmento da página 150 de Crítica e Clínica: “o combate-entre é o processo pelo qual uma força se enriquece ao se apossar de outras forças somando-se a elas num novo conjunto, num devir”. Compreendo ser esta a diferença entre Marighella e Infiltrado na Klan, qual seja, deleuziana, ainda que tal combate tenha sido pensado, há mais de vinte século, por Platão em A República. O filme de Wagner Moura ainda não acertou as horas com o século 21.

Aldo Tavares é livre-pesquisador do Ateliê de Humanidades, professor de filosofia e pesquisador na pós-graduação em filosofia da UERJ, onde pesquisa sobre a criança em Platão e em Nietzsche.


Observação de edição: o artigo foi editado após a publicação por decisão do editor para evitar julgamentos equivocados oriundos de uma referência a um elemento chave da histórica encenado no filme. O autor utiliza o conceito filosófico de traição, desenvolvido a partir de sua análise do poder como representação, referindo-se aos frades dominicanos. Para evitar querelas em torno de sentido do uso do termo, que poderia ser feito como forma de imputação histórica acusando-os de “traidores”, decidiu-se retirar a referida passagem. A. M.



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por Anders Noren

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