Fios do Tempo/Pontos de Leitura. Duas formações, uma história: esboço de uma primeira aproximação interpretativa – por Marcos Lacerda

Publicamos hoje simultaneamente no Fios do Tempo e no Pontos de Leitura do Ateliê de Humanidades a resenha de Marcos Lacerda sobre o livro de Luís Augusto Fischer “Duas formações, uma história: das ideias fora do lugar ao perspectivismo ameríndio” (Arquipélago, 2021), que lançamos na semana passada em uma conversa virtual com a presença do próprio autor.

Neste texto, Marcos Lacerda apresenta, com sua costumeira clareza e erudição cultural, os principais agumentos do livro, o que serve de convite para ler a importante contribuição de Fischer para a renovação do nosso olhar sobre a história da literatura e do país.

A. M.
Fios do Tempo/Pontos de leitura, 22 de outubro de 2021



Duas formações, uma história:
esboço de uma primeira aproximação interpretativa

Luís Augusto Fischer é escritor, crítico e ensaísta de grande relevo no campo cultural brasileiro. Vem publicando artigos, ensaios e livros sobre a literatura, canção popular, entre outros temas. Tem se esmerado em análises que se situam entre o processo social e as formas artísticas, na melhor tradição do pensamento brasileiro que tem, entre seus nomes principais, gente do peso de Antonio Candido ou Roberto Schwarz, entre outros. É autor dos livros “Literatura brasileira: modos de usar” (2007); “Machado e Borges: e outros ensaios sobre Machado de Assis” (2008); e artigos como “Em busca do narrador: traços do pensamento do jovem Schwarz” (2007); “Formação hoje: uma hipótese analítica, alguns pontos cegos e seu vigor” (2009); “A formação vista desde o Sertão” (2011), entre outros.

Um dos seus temas centrais têm sido uma forte crítica ao que considera um centralismo excessivo no Modernismo de 22 como mediador da modernização da vida cultural, artística e intelectual do país. Em uma série de leituras correntes, embora já há tempos relativizadas, o modernismo de 22 seria o acontecimento-chave da modernização das artes e da literatura no Brasil, o momento em que o país ousou se sintonizar, a seu modo, com suas idiossincrasias de ex-colônia, com o espírito do mundo.

As justificativas são muitas. Não só a excelência estética das obras de Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Raul Bopp, para ficar apenas em alguns dos paulistas da famosa semana. Mas a própria cidade de São Paulo é uma boa justificativa. Metrópole moderna desvinculada do inconciente colonial, sem a mediação do filtro do Rio, então capital do país, nossa eterna capital de província, São Paulo seria o locus adequado para a expressão da nova sensibilidade artística do mundo. A ambiência desconjuntada, com as dissonâncias e heterogeneidades da paisagem de uma nova metrópole, sem as amenidades litorâneas das antigas capitais do país, se encontravam de forma insuspeita com o espírito da época, com as vanguardas modernistas europeias, com o desenvolvimento inclusive de uma nova mentalidade citadina, como bem o apontou um sociólogo como Georg Simmel, num ensaio formidável, sobre a Berlim que despontava no início do século XX, e que tinha muitas proximidades com São Paulo, como o veio a demonstrar posteriormente Nicolau Sevcenko, em “Orfeu Extático na metrópole”.

Mas como entender, por exemplo, um escritor como Machado de Assis, no século XIX brasileiro, num país independente e ainda escravocrata, com a estranha condição de única monarquia constitucional em meio às repúblicas latinoamericanas? Seria uma anomalia, algo fora de lugar naquele contexto? E Guimarães Rosa, posteriormente, com a sua alta literatura na ambiência do Sertão, portanto, longe das formas de sensibilidade de metrópoles modernas como São Paulo? E toda uma literatura escrita no período imediatamente anterior à famosa Semana de Arte Moderna e que não poucas vezes são nomeadas pelo discutível termo “pré-modernista”? E o que dizer de criações literárias supranacionais, que atravessam países, mantendo no entando algum núcleo de sentido, ou alguma característica comum, como por exemplo a literatura gauchesca, que se situa num espaço indefinido, fronteiriço, entre Brasil, Argentina e Uruguai?  E se não tivéssemos como único parâmetro do sentido da literatura moderna brasileira a urbanização acelerada, o nascer repentino de uma metrópole do século XX como a capital paulistana? E se pensássemos de uma outra maneira o sentido da relação entre processo social e formas artísticas no país sem ter que passar pelo filtro paulistano e, também, como veremos adiante, sem ter que passar pelo parâmetro do Ocidente europeu como démarche inescapável do sentido da modernidade das formas artísticas na literatura?

São algumas das principais questões apresentadas por Fischer no seu livro.

A elas segue uma outra, decisiva. Como se constituíram os parâmetros considerados mais adequados, no âmbito da crítica literária, para se valorar obras, estabelecer nexos de sentido entre movimentos artísticos, mostrar a aparição de estilos e gêneros literários, em suma, construir uma história da literatura brasileira ou feita no Brasil? Existem duas ideias-mestras, conceitos-chaves, parâmetros críticos modeladores do que se fez de melhor na história da literatura no país. São eles o conceito de “Formação”, a partir da obra de Antonio Candido; e o conceito de “ideias fora do lugar”, a partir da obra de Roberto Schwarz. Antes deles, no entanto, temos um conjunto de estudos que podemos nomear como “modelo tradicional” que, a seu modo, atravessam os outros dois modelos: formativo e “ideias fora do lugar”. O autor apresenta os três modelos, como modo de delinear os contornos da sua crítica e a possibilidade de constituição de um novo modelo que, sem negar de todo, não tenha como único parâmetro de análise e valoração astística e literária o modernismo de 22 centrado na famosa Semana de Arte Moderna. Vamos a eles primeiramente.

As características do modelo tradicional

O livro “Duas formações, uma história: das ideias fora do lugar ao perspectivismo ameríndio” (Arquipélago, 2021) sugere a criação de um novo modelo de análise para se criar uma nova história da literatura feita no Brasil, tendo como base dois polos: um, vinculado à obra de Machado Assis e ao regime da plantation; outro, associado à obra de Guimarães Rosa, e ao Sertão. Ambos pensados como movimentações do espírito, da letra e da vida social de longa duração, atravessando séculos e gerando também encontros, atritos e tensões que, por sua vez, constituíram várias outras formas artísticas de excelência, inclusive fora do horizonte mais convencional do que se entende por literatura, como podemos ver, por exemplo, na canção popular.  De todo modo, entre os dois polos, há muitas movimentações do espírito e da cultura do país.

Claro que, para isso, o autor precisou fazer, e o fez com grande maestria e senso de medida, uma gênese das histórias da história da literatura brasileira, a fim de mostrar seus principais elementos, evidenciar suas falhas e, a partir daí, sugerir possíveis contrapontos que vão, calmamente, delineando os elementos do novo modelo. Isso se dá especialmente no 2º capítulo “Crítica a alguns modelos de história da literatura”, ficando o 1º  capítulo concentrado na própria pertinência de se fazer algo como uma história da literatura, ainda mais, uma história da literatura, inicialmente, de âmbito nacional, ou ao menos vinculada à língua portuguesa, como ainda é a nossa. Não vamos aqui nos ater a este primeiro capítulo, não por não ter relevância para a construção do quadro analítico proposto pelo livro, mas por corrermos o risco de levar a nossa reflexão, sabidamente restrita ao conceitos dos modelos de análise que serão objeto da crítica, a temas muito mais amplos, como os que perpassam as ondas hegemônicas das teses do relativismo pós-moderno, as vagas de “desconstrucionismo” e as viradas identitárias, que parecem renegar a possibilidade de criações do espírito mais arrojadas, com senso de totalidade, capacidade sistêmica e desvinculadas de posições normativas e ideológicas que, quase sempre, resvalam em dogmatismos, ou na moralização do argumento e da análise.

Para nós, nos parece muito claro que o desestímulo à construção de modelos de análise mais ambiciosos e pujantes, como é o caso deste livro e de outras propostas com a mesma pretensão, se justifica menos pelo problema em si, pelo tema em causa, do que por injunções das cristas da onda do mercado e do horizonte reduzido das corporações transnacionais que, ao fim e ao cabo, dinamizam o mercado de ideias onde vicejam as vagas desconstrucionistas, relativistas e identitárias. Dito isso, seguimos.

Uma das maneiras de sintetizarmos a crítica aos modelos de história da literatura, tal qual proposto pelo autor, é começarmos pelo “modelo tradicional” e por algumas das suas principais características limitantes que vão, posteriormente, atravessar modelos poderosos, e com ampla validade heurística, como são os casos dos modelos da formação e das ideias fora do lugar.

A primeira característica problemática é a ilusão da completude. Aquela que pressupõe a possibilidade de fazermos uma genealogia histórica a respeito da literatura brasileira em sua totalidade, sem se ater a conceitos capazes de alguma síntese em meio à heterogeneidade de autores, livros, gêneros, temas. Não é possível. Seria mais adequado criar conceitos capazes de apontar momentos decisivos, quem o sabe, constituição de sistemas, em suma, conceitos moduladores capazes de alguma síntese, ainda que precária e provisória.

A segunda, a linearidade. Ela aposta numa relação de sucessão cronológica e causal natural entre movimentos artísticos, gêneros, alterações na estrutura narrativa e assim por diante. Como se as coisas de realizassem dessa maneira, com uma lógica causal já dada e determinada, como se não houvesse heterogeneidades entre as formas de romance e não fosse possível ver exemplares de um determinado período, por exemplo, o “romantismo” em um outro período, caracterizado como “modernismo”, por exemplo. A linearidade acaba por desconsiderar dinâmicas que não correspondem a uma linha facilmente delimitada de sucessão entre gêneros, escolas, temáticas e assim por diante. Daí que ela acaba por transformar em ortodoxia, o que está no âmbito da doxa, ou melhor, em necessário o que é do domínio do arbitrário, contribuindo assim para a naturalização pré-reflexiva do discurso dos vencedores num determinado momento histórico.

Veja o caso do tropicalismo. Se nos atermos ao discurso dos seus ideólogos, fica a impressão de que a vitória deste movimento artístico no campo cultural, intelectual e artístico brasileiro foi uma necessidade histórica, precisava ter sido assim, e os outros vários atores sociais na disputa, como os diversos movimentos da esquerda cultural, com destaque para CPCs, o Teatro Opinião, a figura de Edu Lobo, fossem meros passadistas, panfletários, incapazes de ter compreendido o “espírito do tempo” e o sentido das vanguardas formais, como teria sido capaz de compreender o tropicalismo. Pura falácia. Mas é assim que se dá com relação à internalização da lógica da linearidade. O que é do âmbito da disputa, do arbitrário, o que ainda está em aberto, é congelado e um determinado ator social passa a ser considerado o único relevante, com a sua hegemonia sendo justificada e legitimada por todos.

Pois bem. Se segue a essas características, a do Francocentrismo, uma tendência a colocar como forma de regulação da criticidade em relação à literatura brasileira a perspectiva da ruptura, do confronto, da novidade, em suma, tudo aquilo que compõe em grande medida o espírito de vanguarda. Assim, a forma mais adequada de atribuir valoração e, com isso, distinguir uma obra relevante, de outra irrelevante, seria o nível de ruptura formal que a obra realiza, a sua originalidade e novidade no campo literário. A ruptura fica sendo o conceito modelador da história da literatura, e passa a ordenar a relação entre as obras artísticas, e a constituição de estilos, gêneros e movimentações artísticas.

Ilusão de completude, linearidade e francocentrismo são acompanhadas de mais uma das características do modelo tradicional: o essencialismo. O pressuposto de que é possível avaliar obras literárias a partir do seu vínculo com determinadas ideias de nação. Assim, no caso brasileiro, autores que teriam “antecipado” ou se apercebido dos temas nacionais, no período colonial, são mais valorados do que autores que, supostamente, estariam ainda presos aos modelos europeus. Ao essencialismo se associa a fethicização de categorias advindas dos centros de produção da crítica. Existem muitos exemplos possíveis, e o leitor deve saber bem do que se trata. Arcadismo, Romantismo, Simbolismo ou, mais especialmente para o autor deste livro, “Modernismo”. O termo passa a ser balizador de um conjunto heterogêneo de obras e passa, ao mesmo tempo, a colocar sob a sua batuta obras imediatamente anteriores e também posteriores. Assim, se criam termos como “pré-modernista”, ou “regionalista”, no sentido de serem obras supostamente menos inventivas, formalmente arrojadas e instigantes do que as obras denominadas como “modernistas”.

Que o eventual leitor não se canse, temos ainda mais características a ser descritas. Elas são de grande relevo para o entedimento deste livro, porque antecipam um conjunto de críticas que vai ser melhor esmiuçadas posteriormente. Temos o Unitarismo/Centralização, o Isolamento, e a Urbanofilia. Vamos a elas, de forma um pouco mais breve.

O Unitarismo/Centralização prevê que existe um polo, ou como se costumava chamar, um “centro cultural” de onde adviria as novidades, os processos de ruptura, as inovações formais mais importantes da vida cultural, artística, estética ou intelectual do país. Assim, até um determinado momento, se considerava o Rio de Janeiro, como a capital cultural do país, e se via a cidade como o locus mais significativo para se pensar as tramas sociais, econômicas, políticas e culturais do Brasil. Até hoje se vê escrito algo assim, com relação a esta cidade. Capital do Brasil ainda no período colonial, depois capital do Império e também do período republicano, até os anos 60, com a criação de Brasília, no centro geográfico do país. Mas o Rio foi sucedido por São Paulo, como centro hegêmonico da vida cultural, das tramas estéticas, da produção intelectual. E isso muito por São Paulo ser, de fato, uma situação muito nova e originalíssima no país, como metrópole moderna do século XX, desplugada do inconsciente colonial, e sem ter que passar pelas mediações e filtros de capitais de províncias como o Rio de Janeiro, ou mesmo Salvador. Por ter sido também o locus de movimentações artísticas de forte teor vanguardista, com criações de excelência, como o modernismo de 22, o concretismo e, também, o tropicalismo que, para Caetano Veloso, seu principal teórico e conceituador, não poderia existir se não houvesse no Brasil uma cidade como São Paulo. Basta lembrar que o papel do tropicalismo, segundo diz o autor em Verdade Tropical, seria o de “matar o carnaval carioca”, no sentido de fazer o carnaval do Rio perder a hegemonia como centro propulsor do sentido da brasilidade. E, para isso, seria necessário usar o carnaval elétrico e pop da Bahia, com o impulso de vanguarda formal radicalmente cosmopolita de São Paulo. Faz sentido. Mas mesmo neste caso, a lógica unitarista e centralizadora tem lá seus problemas, porque acaba por situar a excelência estética, artística, intelectual em apenas um lugar.

E, claro, nosso autor sabe muito bem disso, muito mais do que podemos saber, e o descreve bem. Vale mencionar o trecho, ainda que longo, porque nele se antecipa o modelo que se verá proposto neste livro

Não se poderia querer, claro, que o centro de uma moda como, digamos, o modernismo, fosse descrita como localizada em Porto Alegre, ou em Belém do Pará, porque isso não corresponderia a fatos sólidos; o que sim se poderia querer era, quando menos, uma narrativa atenta para as alternativas que conviveram com os estilos dominantes, por exemplo as várias modalidades de modernização antiparnasiana que existiam no Brasil – prestigiando a alternativa simbolista, ou o tema rural (…) Uma história realmente diferente, porém, precisaria ir além do reconhecimento dessa convivência – precisaria reconhecer as séries, as formações, as linhagens provinciais, as eventuais sinergias supranacionais verificáveis em partes do país, apenas eventualmente convergentes com alguma moda da corte ou de São Paulo
(Fischer, 2021, p.102)

Veremos posteriormente, mas a sugestão de se trabalhar, por exemplo, com “eventuais sinergias supranacionais em partes verificáveis do país” será tratada mais adiante quando aparecer um conceito muito importante para o livro, o conceito de “comarca”, a partir do crítico uruguaio Angel Rama. Por aqui continuemos, agora com o Isolamento. Ele se aproxima e muito da crítica à característica anterior e, também, antecipa o conceito de “comarca”. O problema do isolamento é uma constante na história da literatura brasileira ao desconsiderar a relação da nossa literatura, primeiro, com Portugal e, mesmo, os países de língua portuguesa; segundo, com os outros países de experiência colonial parecida, como o caso dos EUA e dos países da América espanhola; terceiro, em relação aos próprios países da América Latina, em que temos exemplares concretos de aproximações substanciais, que nos permitiriam pensar em unidades supranacionais, caso por exemplo, da literatura gauchesca, que atravessa Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai.

Ao isolamento segue a Urbanofilia que tem lá suas aproximações com o “Francocentrismo”. Trata-se de uma perspectiva que atribui ao ambiente urbano, especialmente da metrópole moderna, o lugar de maior complexidade e valoração da escrita literária, no sentido de que será, irremediavelmente, na cidade que aparecerão experimentações formais mais vigorosas, e criações literárias de maior relevo. Também a cidade conjuga uma perspectiva da arte de cunho mais vanguardista. Arte, cidade, inovação formal, experimentalismo arrojado e qualidade estética e literária seriam parte de uma mesma equação, o que faria com que a criação artísticas em outras ambiências, por exemplo, no “campo”, nos ambientes rurais, e tantos outros, devesse ser vista como exemplar de arte passadista, conformista, tradicional, antiquada, em suma, no limite, irrelevante. Muito do mito do modernismo da semana de arte de 22 como centro da renovação das artes e da literatura no país vai vir dessa concepção das coisas.

O modelo formativo: o conceito de formação em Antonio Candido

Um dos conceitos mais importantes do livro é o de formação, constituído por Antonio Candido, um dos autores mais celebrados por Fischer, como referencial fundamental para uma história da literatura feita no Brasil, ao lado de Roberto Schwarz, ao menos na formação do nosso autor.

Existem três elementos que demarcam a trama do conceito de formação. O primeiro, a existência de um sistema dinâmico que envolve leitor, obra e público, denotando aqui a importância da recepção como traço fundamental do conceito; a sedimentação, a partir da constituição deste sistema dinâmico, de uma tradição ancorada nele; e, por fim, e não menos importante, a tomada de consciência da existência de uma literatura própria, atenta ao espírito do mundo, ao mesmo tempo em que capaz de se saber parte de uma realidade nacional, digamos assim.

A tomada de consciência é um ponto fundamental e teria sido ela que permitiu ver em Machado de Assis, especialmente no Machado da fase ensaística, o ponto de convergência dos três elementos. Ponto de convergência que se afirma com a tomada de consciência. Daí a importância de um texto como “Instinto de nacionalidade”, como exemplar do processo. As virtudes do modelo são muito variadas, e conhecida por muitos de nós. O próprio autor as exalta e mostra a importância do modelo para um dos seus livros mais interessantes, que trata da relação possível entre Machado de Assis, Borges e Edgar Alan Poe, agrupando Brasil, Argentina e EUA, três experimentos históricos mais ou menos equivalentes, por conta do passado colonial comum. Mas há também limitações. E são as limitações que importam para que se possa dar o passo adiante.

As limitações acompanham o conjunto de características apontadas mais acima sobre o modelo tradicional, mas incluem também nelas o alvo central deste livro e de muitas das reflexões do autor desde sempre: a hegemonia do modernismo da semana de 22 como démarche central para se pensar o todo da literatura brasileira.

Podemos agrupá-las da seguinte maneira: ele teria concentrado as suas análises numa perspectiva unitária/centralista, ligada ao modernismo-centrismo, ancorada num comparatismo impreciso e, por fim, deixado em aberto o problema da completude da formação.

 A perspectiva unitária/centralista já foi apresentada mais acima, entre uma das características do modelo tradicional, e vincula a sua análise a uma concepção de Brasil muito concentrada nas capitais culturais do país, que seriam o centro de irradiação e estruturação da vida social e cultural, advindo daí a concentração da análise, por exemplo, no Rio de Janeiro, a princípio, então capital do Império. A ela se liga um sujeito oculto, ou ocultado, vá saber, da análise: a centralidade do modernismo de 22 como o verdadeiro momento decisivo de constituição de um sistema literário vigoroso, cosmopolita, com atenção ao mundo desenvolvido, ao mesmo tempo que empenhado em um projeto de nação. A pergunta a se fazer: qual projeto de nação? A partir de onde? Concentrado ou pluralista? E por aí vai. Claro que, seguindo as perspectivas do autor, trata-se no fundo de uma perspectiva centrista, que se constitui a partir de São Paulo e do modernismo de 22 e que acaba por derrapar em certas coisas, como por exemplo, no uso possível do comparativismo como método.

Por que não incluir na comparação, para se tentar entender a formação do sistema literário no Brasil, países que tiveram experiências comuns com ele, como a Argentina e os EUA, por exemplo? Países que se equivalem em relação às dimensões territoriais? E mais, por que não pensar a literatura brasileira como parte da literatura em língua portuguesa, como fazem muitos dos literatos da América hispânica? No mais, e agora chegamos a um último elemento de limitação do modelo de formação, será que o processo de formação se encerrou? Teria ele sido um gesto inaugural de cosmopolitismo, antiprovincianismo, concentrado na semana de 22 e no campo intelectual paulistano? O que havia antes dele teria sido uma preparação para a sua chegada algo triunfal? E depois, o que aconteceu – e tem acontecido – seria mera reverberação, melhorada ou piorada, do momento decisivo do modernismo da semana de 22?

O modelo crítico: as ideias fora do lugar de Roberto Schwarz

O segundo modelo principal do livro é o que se associa ao conceito de “ideias fora do lugar”, ou melhor, e isso faz uma diferença imensa, à constatação como fato social de que, no debate de ideias no Brasil, é frequente uma perspectiva que pressupõe que as ideias estão fora do lugar, de que há desencontros, desarranjos, entre os ideais da modernidade e as vanguardas do pensamento com relação à realidade social do país. E de que isso teria, a seu modo, uma dimensão mais generalizante, como se fosse um modo de ser das ideias e da vida cultural do país, algo que fica mais claro em um texto como “Nacional por subtração”, também de Roberto Schwarz, que pensa a “contradição” liberalismo e escravidão da segunda metade do século XIX como apenas uma das possibilidades de se tratar do insight.

Mas o texto em que a tese tem a sua origem é homônimo ao tema, se chama, como sabe o bem informado leitor, “Ideias fora do lugar” e tem como demarcação de fato o debate de ideias da segunda metade do século XIX no país, uma certa perspectiva sobre a estruturação social do Brasil no período, advinda da perspectiva de Caio Prado Júnior, e culminando nos estudos a respeito da forma do romance de Machado de Assis, e a presença de certa “volubilidade do narrador” como a descrever em forma artística as contradições na dimensão social. Machado de Assis, claro, escritor situado na segunda metade do século XIX e parte do início do século XX. Neste sentido, há uma demarcação precisa do lugar do conceito na obra de Schwarz, e denotar esta demarcação precisa é fundamental para a tese de Fischer.

As “ideias fora do lugar”, embora podendo se estender, como o tenta fazer o próprio Schwarz, em grande medida dependeriam da polarização liberalismo/escravidão e, também, da concepção a respeito da estruturação social do Brasil na segunda metade do século XIX, sociedade agro-exportadora, dividida em latifúndios, com produção voltada ao mercado exterior, como denota o termo, claro está, “agro-exportadora”. Mas, e se as coisas não estivessem sido assim, e se a forma de organização da sociedade brasileira de então não fosse como o faz crer a tese de Schwarz, uma economia agro-exportadora dividida em latifúndios? E se tivéssemos um forte mercado interno, como organização social complexa, com diferentes tipos de ocupação profissional e, mesmo no caso da escravidão, um amplo processo de mestiçagem, de feição popular, e um sistema de alforria, o que não diminui em nada, é mister dizer, os horrores do sistema escravocrata?

E mais, e se a sensação de inadequação, que demarca a tese das “ideias fora do lugar”, viesse não da polarização “liberalismo” versus “escravidão”, mas da presença de uma monarquia constitucional não só singular em relação aos outros países latinoamericanos, como por si só singular, com a presença do chamado “poder moderador” e de modelos do Antigo regime em pleno século de revolução burguesa de extração liberal?

Vejamos a coisa mais de perto. As relações sociais seriam bem mais complexas do que a polarização “Senhor de engenho” e “escravos”, denotando a heterogeneidade da formação social, com um amplo conjunto de tipos profissionais que não necessariamente tinham vínculos com a dicotomia mencionada. Ainda mais, teríamos um mercado interno forte, e nossa produção, complexa e heterogênea, teria como destino menos o mercado externo do que o mercado interno, com uma diferença significativa na porcentagem entre os dois mercados.

Exagerando um pouco, ou muito, poderíamos até dizer que teríamos algo como a constituição de uma “força burguesa”, que teria sido retesado, aliás, com a vinda da corte portuguesa, no período das guerras napoleônicas, recuando algumas décadas aqui no tempo. Daí que a inadequação poderia vir daí, a princípio. Uma sociedade emergente, criando um mercado interno próprio, com heterogeneidade de ocupações profissionais, com produção relativamente autônoma, se vê diante de uma corte com algo de aristocrata, formada por uma elite estacionada na lógica da monarquia portuguesa de então. Talvez a principal tensão viesse daí, que resultou, não à toa, em uma série de guerras “separatistas”, no período da regência, mas também um poucos antes. Guerras que colocavam em xeque o predomínio da corte e da então capital do Império.

É como se a interpretação do país como agro-exportador em sua totalidade fosse uma estratégia analítica que vai conduzir à novidade do século XX que seria São Paulo, a metrópole moderna industrial justamente desplugada do inconsciente colonial; algo que é análogo também no que diz respeito à produção literária, como se tudo que viesse antes do advento de São Paulo como metrópole modernista, chamemos assim, fosse menor, provinciano, devedor da mentalidade de cópia da colônia, com exceção, claro está, de Machado de Assis, o mestre na periferia do capitalismo

Em resumo, bem resumido, existem três elementos que compõem a pertinácia e a relevância das teses das ideias fora do lugar. O conceito de “forma objetiva” como maneira de localizar bem o objeto de análise, sem recair em abstrações excessivamente idealistas. A tomada de consciência a respeito da relação dependente entre o nacional e o global, a periferia e o centro, por extensão, o particular e o universal, como visadas que compõe um mesmo sistema, numa perspectiva dialética. Por fim, a visada que permite pensar a relação entre forma literária e dinâmicas sociais. Não é pouco.

Mas existem também um conjunto significativo de limitações. O contexto parece restrito, por exemplo, ao ambiente da plantation a partir do Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX e a partir da obra de Machado de Assis, objeto mais constante nas reflexões de Schwarz. Os personagens histórico-sociais acabam por ser pouco expressivos a respeito do que seria o Brasil na época: senhores de engenho, escravos e agregados, tendo o favor como mediação social quase universal. Onde entrariam tropeiros, comerciantes de cidades interioranas, pequenos e médios produtores, cavaleiros, vaqueiros, caboclos? Justamente os tipos sociais que vão aparecer na literatura tida como menor, na literatura do âmbito rural, pampeira, supranacional, do campo, ou num tom pejorativo “regionalista”.

Esta aspecto é muito importante. Porque é aqui que vai situar o polo do Sertão, como démarche fundamental do novo modelo de análise proposto

A redução aos três tipos sociais significaria no fundo, como já deve ter observado o leitor atento, a uma visada problemática sobre o Brasil, que vem da formação ligada a Caio Prado Júnior, o Brasil visto como unicamente, ou predominantemente, agro-exportador, voltado para o mercado externo.

Existem ainda aspectos, aliás, que se aproximam das limitações do modelo da formação. O primeiro, bem expressivo, é da completude. As teses das ideias fora do lugar teriam se estendido para além do período de sua gênese, digamos assim, a segunda metade do século XIX? Ou pelo contrário, teriam atravessado o século XX através de momentos decisivos do pensamento e da cultura brasileira, abarcando modernismo, concretismo, período que agrupa Cinema Novo, CPCs e tropicalismo?

Fica a sensação de que os momentos mais importantes da vida cultural do país são aqueles em que há uma tomada de consciência do problema das ideias fora do lugar e que se revelariam, justamente, nestes “momentos decisivos”. Será mesmo?

Não haveria, ainda mais, uma superestimação do momento de escrita do próprio ensaio, que compõe este quadro de criações do pensamento e das artes fortíssimas, que envolvem CPCs, tropicalismo, teatro opinião, teatro oficina, cinema novo, concretismo, o próprio marxismo heterodoxo da USP e assim por diante?

O novo modelo de análise

Tendo passado pelos modelos tradicional, formativo e crítico, além de evidenciado o papel da hegemonia do modernismo de 22 como uma espécie de sujeito oculto, ou ocultado, do processo, podemos enfim delinear os contornos do que seria o novo modelo de análise proposto pelo autor. É claro que, na apresentação das limitações dos modelos tradicional, formativo e crítico (das “ideias fora do lugar”), já vão ficando evidenciados os principais elementos da sugestão do novo modelo, como vimos em especial nas propostas de análises supranacionais, na crítica à urbanofilia, nos limites da centralização/unitarismo do conceito de formação, na redução da tese das ideias fora do lugar ao ambiente da plantation e assim por diante.

Mas a fim de ordenar e sistematizar melhor o que foi apresentado até aqui, vejamos os elementos principais do modelo hegemônico (tradicional, formativo e crítico) e os principais contrapontos a este modelo, no novo modelo de análise. Vamos primeiro ao hegemônico.

O primeiro aspecto é a sua concentração no Estado-Nação e, ao lado disso, em um centro propulsor, uma capital cultural que lideraria os processos de transformação, e de tensão, tanto na dimensão social quanto na própria forma artística. O segundo, é a relação do país como Estado-Nação, com uma capital cultural definida, com a Europa Ocidental. A Europa Ocidental é, assim, o locus privilegiado nas análises comparativas, o único horizonte possível. O terceiro é uma perspectiva que pensa a literatura exclusivamente através da forma escrita e impressa, deixando de lado outras formas que poderiam ser também vinculadas à história da literatura.

O quarto, por fim, é a perspectiva que atribui à metrópole moderna, ou modernista, o lugar exclusivo da invenção formal, da excelência artística e estética. Estes quatro elementos, em alguma medida, atravessam os modelos tradicional, formativo e crítico.

A eles, o autor contrapõe outros quatro elementos. O primeiro contraponto se dá em relação à centralidade no Estado-Nação, pois ele propõe a possibilidade de se pensar em comparações de ordem supranacional, tendo em vista aliás que se constituiu em algumas regiões brasileiras, especialmente o Rio Grande do Sul, uma literatura que se mistura à Argentina e Uruguai, como se fosse parte de uma mesma ambiência cultural, atravessando assim Estados-Nações. O conceito de “comarca” herdado do crítico uruguaio Angel Rama serve aqui como parâmetro principal. E podemos lembrar do trecho do livro mencionado mais acima, a respeito das eventuais sinergias suprancionais que se pode verificar em diferentes manifestações literárias feitas no Brasil.

O segundo sugere a construção de análises que não tenham como única referência e horizonte o Ocidente europeu e que levem em consideração experiências históricas aproximadas, especialmente no caso do novo mundo, podendo assim analisar relações possíveis, com aproximações e diferenciações, entre Brasil, Argentina e EUA, como faz o próprio autor, na sua análise das obras de Machado de Assis, pelo Brasil, Jorge Luis Borges, pela Argentina e Edgar Alan Poe, pelos EUA. Ou mesmo o uso de conceitos como os de árvore e onda, extraídos do crítico dos EUA Franco Moretti. Árvore, como associado ao Estado-Nação; onda, associada ao que atravessa os Estados-Nações, e se insere no circuito do mercado mundial. Ainda aqui não tendo como única baliza o Ocidente europeu.

O terceiro elemento de contraponto é o que apresenta a necessidade de se vincular formas artísticas à história da literatura que, a princípio, podem ser externas a ela, como a literatura infanto-juvenil, a crônica, roteiros de cinema ou telenovela, e, especialmente a canção popular, que tem papel decisivo na formação da sensibilidade poética e literária no Brasil. É notável o papel dos artistas da canção no desenvolvimento do que eu gosto de chamar de uma espécie de educação sentimental para o povo brasileiro. Ainda mais, é notável a excelência poética e literária que têm nossos grandes artistas da canção, entre eles Chico Buarque, Caetano Veloso, Dorival Caymmi, Noel Rosa ou Vitor Ramil, para ficar entre alguns dos reconhecidamente maiores entre os maiores.

Por fim, o quarto contraponto é o que pede para se colocar em suspenso a primazia da metrópole moderna como único foco de excelência artística, invenção formal e qualidade literária. É necessário fazer um deslocamento, e trazer para o centro o que foi e é produzido, por exemplo, numa ambiência ampla nominada como “Sertão”, que abrange vastas áreas de produção literária que não convergem necessariamente com as ambiências urbanas e metropolitanas, como nos casos dos pampas gaúchos, do pantanal matogrossense, da região supranacional da Amazônia, ou de áreas consideradas de âmbito “regional”, ou “regionalista”, como no caso do vasto e heterogêneo nordeste brasileiro.

Temos assim elementos que demarcam o modelo hegemônico da história da literatura brasileira, como a centralidade no Estado-Nação, na Europa Ocidental, no texto escrito e impresso, na metrópole moderna e modernista; e elementos que aparecem como contrapontos, tais como os arranjos supranacionais; o horizonte de comparação no novo mundo; a ampliação do repertório da literatura para a canção popular, a crônica, a literatura infanto-juvenil, os roteiros; e, por fim, a ampliação das áreas geográficas de excelência artistíca e valoração estética no Sertão, como ambiência para além da metrópole moderna e do meio urbano.

Mas não há necessariamente uma negação do modelo hegemônico em todos os seus aspectos. Não se trata disso. O autor propõe uma ampliação, outras possibilidades, que possam trazer mais complexidade para se constituir um novo modelo de análise para uma renovação da história da literatura brasileira. Por conta disso que ele mantém como possibilidade os modelos formativos e críticos, ou seja, a tese da formação e das ideias fora do lugar. Mas exige, no entanto, como modo de estabelecer o novo modelo de análise o abandono do modernismo de 22 como baliza de conceituação e mediação crítica geral para se pensar a literatura brasileira. É como se este modelo já tivesse se esgotado, e como se a sua presença fosse mais perniciosa do que benéfica para uma boa crítica da literatura. Não poucas vezes parece que o modernismo de 22 é uma espécie de “ideia” fora do “lugar”, ou seja, como se seu conjunto de criações, perspectivas, análises e concepções sobre Brasil não correspondesse à realidade social, histórica, geográfica e estética do país.

São estes contrapontos, ao lado da crítica à hegemonia do modernismo de 22 como mediação quase universal da história da literatura brasileira, que vão permitir a construção de um novo modelo que, diga-se de passagem, retém aspectos positivos dos modelos formativos e críticos. Além dos quatro elementos contrapostos ao modelo hegemônico, ou a partir deles, este novo modelo se constrói através de dois polos. Machado de Assis e a plantation como um dos polos formativos; Guimarães Rosa e o Sertão como o outro polo formativo. Ambos de longa duração, que atravessam a vida cultural do país desde muito séculos. E, entre eles, há também uma série de tensões que geram encontros não poucas vezes dissonantes, tensos, em que se pode destacar, a meu ver, o modernismo (centrado ou não em 22), o tropicalismo (a que eu incluiria Cinema Novo, CPCs, Edu Lobo e assim por diante) e o concretismo (tanta na crítica quanto na poética). Claro está, também a ampla e, por muitas razões, formidável literatura supranacional, com destaque para o que se fez, se faz e ainda se está por fazer nos pampas, como literatura gauchesca, atravessando horizontes e que não perdeu, como aliás o autor neste livro, por muitas razões supreendente, o cavalo e a distância.

Pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Sociologia – UFPel e livre-pesquisador do Ateliê de Humanidades. Doutorado em Sociologia pelo IESP/UERJ (2011-2015). Foi Diretor do Centro da Música da Funarte / Ministério da Cultura, responsável pelas políticas públicas para a música no Brasil, entre maio de 2015 e março de 2017. Atua na coordenação e curadoria da coleção Caderno Ultramares, da OCA Editorial de Portugal, ao lado do crítico e editor Sérgio Cohn. Autor de “A sociedade das tecnociências: Introdução à obra de Hermínio Martins” (Ateliê de Humanidades, 2020) e organizador, com André Magnelli, de “Sociologia das tecnociências contemporâneas” (Ateliê de Humanidades, 2020). 





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por Anders Noren

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