Fios do Tempo. Cuidado coletivo: compartilhar a vida, reconstruir o conviver – Natasha Helsinger

Há algumas semanas, lançamos o projeto Cuidado Coletivo, que é uma iniciativa do movimento convivialista com apoio do Ateliê de Humanidades. O Cuidado Coletivo é composto por psicólogos e psicanalistas que oferecem atendimento virtual gratuito aos que sofrem perdas e dores decorrentes do impacto da Covid-19.

Como membro do Cuidado Coletivo, Natasha Helsinger traz suas reflexões sobre o papel da psicanálise em nossa sociedade e a importância da constituição de redes de trocas, alianças, escutas e cuidados que lidem com os traumas da pandemia, seus desamparos e desalentos, a fim de reconstruir nossos laços de vida e convivência.

Convidamos todos a conhecer e participar do projeto. Para mais informações ou ingressar em um grupo, acesse a página do Cuidado Coletivo: https://ateliedehumanidades.com/grupo-cuidado-coletivo/

André Magnelli
Fios do Tempo, 22 de agosto de 2021



Cuidado coletivo:
compartilhar a vida, reconstruir o conviver

A psicanálise e o social

Como Freud nos ensinou, desde seu livro Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921/1976), a psicologia individual é, desde sempre, social. Isso evidencia que não podemos pensar o sujeito fora do campo da alteridade –  como se fosse uma mônada solipsista -; e que a experiência da alteridade e da intersubjetividade é uma preocupação da psicanálise. Mais do que isso: a psicanálise, desde o tempo de Freud, se viu implicada na experiência do mal-estar (Freud, 1930/1974).

Inclusive, não podemos esquecer o impacto que a experiência da Primeira Guerra Mundial produziu na vida de Freud e, sobretudo, na construção da psicanálise. Ao perceber que em “tempos de paz” havia um  interdito de matar e em “tempos de guerra” havia um imperativo de matar, a crença de Freud (1915/1974) pela civilização caiu por terra, porque ficou evidente que era possível, nas ditas maiores representações da civilização europeia, exercer uma grande barbárie (Birman, 2000).

Essa reviravolta, incrementada pelos sonhos dos traumas de guerra, levaram Freud (1920/1976) a enunciar um “para além do princípio do prazer”, marcado pela dualidade das pulsões, entre pulsão de vida e  pulsão de morte. Com isso, a experiência do desamparo ganhou um outro estatuto no texto freudiano, levando a uma maior ênfase na alteridade como sendo crucial para a sobrevivência psíquica do sujeito. Isto ilustra como os acontecimentos, inclusive sociais, políticos e traumáticos, sempre concerniram à psicanálise e estão na base da sua construção teórica e clínica. 

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Cuidar dos traumas: um ato político 

Como aponta Joel Birman (2020), a comunidade psicanalítica é convocada hoje a pensar os efeitos de subjetivação produzidos pelo trauma da pandemia, não apenas em um âmbito individual (dos consultórios particulares), mas também no da experiência coletiva como um todo. Inclusive, acreditamos que a experiência psicanalítica nos dá recursos para pensar algumas bases cruciais deste contexto. Isso porque a psicanálise trabalhou, de forma irrevogável, com as ideias e experiências de luto, de trauma e de desamparo, enfim, com as problemáticas próprias à finitude.  

É claro que todos nós, seres humanos e cidadãos, estamos, em maior ou menor medida, lidando com essas experiências, mas entendemos que os/as profissionais de saúde que estão na linha de frente do COVID-19 estão vivendo isso, minuto a minuto, em uma radicalidade que nos convoca a compartilhar com eles um espaço de escuta.

Não se trata aqui da redução da psicanálise a um discurso técnico e psicoterapêutico, pois isso caminharia até mesmo em uma espécie de despolitização da psicanálise, pois, sob esse viés, o sujeito seria reduzido à categoria de indivíduo, desatrelada do campo social (Birman, 2010). Entendemos nosso projeto do grupo de suporte e reflexão Cuidado Coletivo como um ato político, ou ainda, como um ato que sustenta a dimensão política da psicanálise, o que nos parece crucial para que esta mantenha seu compromisso com a  experiência democrática, ainda mais diante do horror que estamos vivendo.  

Não podemos esquecer, inclusive, que a pandemia escancarou e intensificou a desigualdade social, com uma distinção entre as vidas que são vistas como dignas de luto e as vidas vistas como descartáveis (Butler, 2009/2016). Afinal, alguns ficaram muito mais expostos à morte, por não terem o privilégio de  trabalhar de casa e fazer o isolamento social. Este é o caso inclusive de profissionais e agentes de saúde, bem como, coveiros/as. Muitos de nós, psicanalistas, tivemos a possibilidade de atender de casa, o que também nos convoca, na responsabilidade social, de estarmos juntos e dividir um espaço de troca e de escuta com aqueles que tiveram de se expor a maiores perigos para cumprir com suas responsabilidades profissionais e pessoais.

Luto coletivo: uma rede de compartilhamento e escuta

Como defende Butler (2009/2016), em Quadros de Guerra – que vidas são passível de luto?, o luto só é possível como experiência coletiva. Pois prantear uma perda significa que essa perda tenha sido legitimada socialmente como tal. O luto, nesse sentido, nunca é individual.

Além disso, a  autora nos mostra que há uma regulação normativa da comoção social frente a perdas, isto é, certas vidas, quando perdidas, não são dignas de luto, são invisíveis, não podem ser choradas, nem enlutadas. O que impede que elas possam viver um luto público, deixando marcas terríveis para as vidas individuais e para o laço social. Desse modo, nos parece importante, também, criar redes de trocas e escutas onde o luto possa ser elaborado como luto coletivo. O grupo Cuidado Coletivo se propõe a ser um passo importante rumo a esta direção. 

Construir convivialidades pelo cuidado coletivo

Como dissemos, a distribuição desigual da exposição à violência e à morte é uma das marcas da sociedade neoliberal que, por sua vez, hierarquiza as vidas que são dignas de luto, distinguindo-as daquelas que não são (Butler, 2009/2016). E como nos mostra Judith Butler (2015/2018), a interdependência é a marca de nossa ética de existência, pois uma vida supõe a outra para sobreviver. Nesse sentido, o  reconhecimento da interdependência rompe com a diretriz neoliberal da autossuficiência, abrindo um horizonte ético crucial: “uma vez que a vida é entendida como igualmente valiosa e  interdependente, certas formulações éticas resultam daí” (BUTLER, 2015/2018, p. 50). 

É neste sentido que entendemos a relação indissociável do grupo Cuidado Coletivo com o projeto do Movimento Convivialista que vêm trabalhando arduamente para a construção de convivialidades que coloquem em xeque o modelo neoliberal. Sabemos que esse modelo, como mostrou Michel Foucault, inaugura o “empresário de si mesmo” como um paradigma individualista da performance, onde o outro não importa, só servindo como objeto (de consumo, de gozo ou, ainda, de violência).

Nesse sentido, acreditamos que a psicanálise tem um papel crucial na tessitura de alianças (Butler, 2015/2018) e na construção de convivialidades, que superem o modelo do empresário de si mesmo e sua necropolítica que hierarquiza vidas e reproduz desamparos. Até mesmo porque a própria psicanálise nos ensina que, sem alteridade, o desamparo vira desalento (Birman, 2012), onde o registro do outro não se apresenta. Desse modo, a  psicanálise precisa não apenas se colocar como uma alteridade para essas pessoas nesse momento, como também se pôr em contato com as alteridades, o que é possibilitado por nosso grupo de suporte e reflexão. 

Referências

BIRMAN, J. Mal-estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de subjetivação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

_______. Governabilidade, força e sublimação: Freud e a filosofia política. Psicologia USP, São Paulo, julho/setembro, 2010, 21(3), 531-556. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/pusp/v21n3/v21n3a05.pdf–?. Acesso em 15 dez. 2018.

_______. O sujeito na contemporaneidade: espaço, dor e desalento na atualidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.

_______. O trauma da pandemia do coronavirus: suas dimensões políticas, sociais, econômicas, ecológicas, culturais, éticas e científicas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2020.

BUTLER, J. Quadros de Guerra: quando a vida é passível de luto?. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016. [Texto originalmente publicado em 2009].

_______. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performática de assembleia (2015). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

FREUD, S. Reflexões para os tempos de guerra e morte (1915). Rio de Janeiro: Imago, 1974. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 14).

_______. Para além do princípio do prazer (1920). Rio de Janeiro: Imago, 1976. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 18).

_______. Psicologia das massas e análise do eu (1921). Rio de Janeiro: Imago, 1976. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 18).

_______. O mal-estar na civilização (1930). Rio de Janeiro: Imago, 1974. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 21).

Natasha Mello Helsinger é psicanalista, Graduada em Psicologia (PUC-Rio), Mestre e Doutora em Teoria Psicanalítica (UFRJ), membro do Instituto de Estudos da Complexidade (IEC) e do Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos (Ebep-Rio). Autora do livro: “O que é comprimido hoje? A psicanálise em crise” (Editora Appris, 2019).

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por Anders Noren

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