Pontos de Leitura. Byung-Chul Han (1959- ): o que escreveu e qual o percurso?

Hoje começa nosso curso sobre o filósofo coreano Byung-Chul Han, que é um dos melhores intérpretes atuais sobre o que ocorre com nossas sociedades. Neste contexto, trazemos um Pontos de Leitura que apresenta a obra de Han, dispondo cronologicamente cada livro (de 1996 a 2020), com breves comentários de André Magnelli. Assim os interessados podem ter uma visão de conjunto da obra e ao mesmo tempo perceber qual percurso realizou o seu pensamento.

Desejamos um excelente achado!



Byung-Chul Han (1959- ):
o que escreveu e
qual o percurso?

1996
Heideggers Herz. Zum Begriff der Stimmung bei Martin Heidegger [O coração de Heidegger. O conceito de tonalidade afetiva em Martin Heidegger]

1999
Martin Heidegger

Infelizmente estes dois livros são pouco acessíveis ao público (e a mim), não possuindo também descrições de capa disponíveis na rede. O fato é que não foi um acaso que as primeiras obras de Han versaram sobre Heidegger. Elas mostram o quanto o pensamento de Byung-Chul Han se constrói a partir do fenomenólogo alemão. Uma leitura atenta da obra de Han revela facilmente esta influência, e parece-me certo de que um estudo aprofundado esclarece a forma como Heidegger repercute nas finas análises de Han sobre a morte, o vazio, a negatividade e a alteridade, bem como sobre a fenomenologia dos sentimentos e afetos nas sociedades em que, segundo Han, se “perde o Ser”.

1999
Todesarten. Philosophische Untersuchungen zum Tod [Tipos de Morte: investigações filosóficas sobre a morte].

Este livro sobre os tipos de morte inaugura um tema recorrente no pensamento de Han: a experiência e a consciência da morte em sua relação com a condição humana. Aqui, o filósofo coreano faz uma leitura própria de diversos autores, não apenas de Heidegger, obviamente, mas também de Adorno, Derrida, Levinas, Kafka e Handke, a fim de traçar, passo a passo, a variação caleidoscópica da morte. Para ele, como um bom heideggeriano, é pela gravidade da morte que as coisas são reordenadas e é estabelecido o sentido. Por isso, como será uma recorrente em sua obra, precisamos ouvir a linguagem da morte no que está a nos dizer sobre nossa finitude, morte que sempre fala e provoca através da vida. Quando a escutamos, tornamo-nos capazes de metamorfosear nossa consciência atuando sobre a percepção, o viver, a escrita, o nome e a experiência do estar-juntos. Na morada humana, a morte desdobra espaços habitáveis para o ser humano, em sua condição de ente finito e mortal.

2002
Morte e alteridade

No ano de 2002 Han publica dois livros que armam seu quadro de interpretação das sociedades modernas. Em Morte e alteridade, publicado recentemente pela editora Vozes, ele transpõe a discussão mais filosófica, feita no livro anterior, para uma primeira interpretação das sociedades contemporâneas. Recorrendo à fenomenologia e à literatura, Han faz uma crítica da estética e ética da sobrevivência e do centramento no eu, para, a partir daí, começar a pautar temas que atravessarão sua obra: solidão, eros, violência, alteridade etc. Além disso, ele traz uma forma de “ser para a morte” orientada pela sabedoria budista, onde a consciência da própria finitude conduz à serenidade e à amabilidade.

2002
Filosofia do Zenbudismo

Neste livro sobre o zenbudismo, que é uma forma de  budismo mahãyãna de origem chinesa e orientada para a meditação, Han traz uma comparação entre diversas filosofias à luz do budismo zen, com reflexões sobre o nada, a morte, a amabilidade etc. Juntamente com Morte e Alteridade, este livro revela o quadro intelectual a partir do qual Han pensa a condição humana e constrói sua interpretação crítica das sociedades modernas. O objetivo do estudo é explicitado no livro: “O presente estudo se desenvolve por meio de comparações. A filosofia de Platão, Leibniz, Fichte, Schopenhauer, Nietzsche e Heidegger, entre outros, é confrontada com os pontos de vista filosóficos do zenbudismo. É empregada aqui a comparação como um método que desbrava sentidos”.

2005
O que é o poder?

Este livro pode ser considerado um marco de abertura de nova fase de reflexão, pois aqui Han introduz a problemática que abrirá o horizonte de interpretação das nossas sociedades contemporâneas: o que é o poder e qual sua relação com a violência, a luta, a dominação etc. Ele analisa o conceito em todas as suas facetas – lógica, semântica, metafísica, política e ética – debatendo com os diversos teóricos clássicos e contemporâneos. O texto presente na capa vale ser citado: “Ainda existe em relação ao conceito de poder um caos teórico. Opõe-se à evidência do seu fenômeno uma obscuridade completa de seu conceito. Para alguns, significa opressão. Para outros, um elemento construtivo da comunicação. As representações jurídica, política e sociológica do poder se contrapõem umas às outras de maneira irreconciliável. O poder é ora associado à liberdade, ora à coerção. Para uns, baseia-se na ação conjunta. Para outros, tem relação com a luta. Os primeiros marcam uma diferença forte entre poder e violência. Para outros, a violência não é outra coisa senão uma forma intensiva de poder. Ele ora é associado com o direito, ora com o arbítrio. Tendo em vista essa confusão teórica, é preciso encontrar um conceito móvel que possa unificar as representações divergentes. A ser formulada fica também uma forma fundamental de poder que, pelo deslocamento de elementos estruturais internos, gere diferentes formas de aparência. Este livro se orienta por essa diretriz teórica. Desse modo, poderá ser chamado poder qualquer poder que se baseie no fato de não sabermos muito bem do que se trata”.

2005
Hegel und die Macht. Ein Versuch über die Freundlichkeit [Hegel e poder. Uma tentativa de gentileza]

Este livro sobre o conceito de poder em Hegel revela o segundo grande filósofo por trás do pensamento de Byung-Chul Han, ao lado de Heidegger: Hegel (poderíamos incluir, como terceira influência clássica, Nietzsche). A constante crítica da sociedade positiva, a valorização da negatividade como motor do espírito e a crítica da “dialética da liberdade” em nossas sociedades são todas apropriações criativas da filosofia hegeliana. Sobre este livro, a apresentação de capa da publicação alemã vale ser traduzida: “O pensamento de Hegel testemunha uma profunda consciência do poder. Muito antes de Nietzsche, Hegel já tinha pensado muito enfaticamente no poder. Ele é provavelmente o primeiro teórico do poder. O poder forma a camada profunda do pensamento de Hegel. Flui através do funcionamento interno do seu sistema. Ao mesmo tempo, a exploração de Han da teoria do poder é uma introdução muito vívida ao pensamento de Hegel, expondo as suas espirais ocultas. Hegel descreve teoricamente figuras básicas do seu pensamento tais como espírito, Deus, lei, conceito, liberdade, verdade ou poder da beleza. Por exemplo, ele explica de forma viva como a religião é um fenômeno de poder. Assim, a sua filosofia da religião apresenta-se como uma fenomenologia tensa do poder. Na “Ciência da lógica” ele desdobra uma lógica de poder que é suficientemente atual para descrever com precisão vários processos de poder da atualidade. O presente estudo também tem uma abordagem crítica de Hegel. Torna visíveis fenômenos que iludem completamente a lógica do poder. É feita referência a uma amabilidade que brilha através da ausência de poder”.

2005
Hiperculturalidade: cultura e globalização

Neste pequeno ensaio menos conhecido, publicado recentemente pela Vozes, Han desenvolve o conceito de cultura e uma crítica da globalização, expondo sua perspectiva de uma filosofia da diferença contrária ao processo de homogeneização subjacente aos discursos do multiculturalismo e defensora da diferença como geradora de cultura. É um tema que será constante nos livros ulteriores. Apresentação de capa: “A globalização é um processo complexo. Não faz desaparecer simplesmente a diversidade de signos, representações, figuras, temperos e cheiros. A produção da unidade ou da monotonia do igual não é algo característico nem da natureza nem da cultura. À economia da evolução, que opera, vale dizer, também na cultura, pertence, ao contrário, a geração da diferença. A globalização segue um caminho dialetal, fazendo surgir dialetos. É problemática a ideia de uma diversidade cultural orientada pela proteção de espécies que só poderia ser alcançada por cercados artificiais. Seria infrutífera a pluralidade museológica ou etnográfica. À vivacidade de um processo de troca cultural pertence a proliferação, mas também o desaparecimento de determinadas formas de vida.”

2007 (republicado em 2017)
O bom entretenimento: uma desconstrução da história da paixão ocidental

Neste livro, republicado em 2a edição em 20017, Han desenvolve uma análise sobre o entretenimento em nossas sociedades da positividade, do consumo e da performance; e busca recuperar, contra sua funcionalização, uma reflexão positiva sobre o bom e belo entretenimento. Seu esforço de “desconstrução da paixão na história do Ocidente” é uma forma criativa de releitura da clássica tese de Denis de Rougemont sobre O amor e o Ocidente. Na sua crítica das paixões, ele estabelece as linhas de reflexão sobre conceitos centrais para sua visão crítica, como os de jogo, de brincadeira, de belo e de luxo. O prefácio à nova edição vale ser citado: “A história do Ocidente é uma história da paixão; o desempenho é a nova fórmula da paixão. Ela surge novamente como uma corruptora do jogo. […] Se o tempo da paixão deve ser de fato superado, haverá não apenas o bom entretenimento, mas também o belo entretenimento; a saber, o entretenimento por meio do belo. Sim, haverá novamente JOGO”.

2007
Abwesen: Zur Kultur und Philosophie des Fernen Ostens [Ausente: Sobre a cultura e a filosofia do Extremo Oriente]

Após o Bom Entretenimento, Han traz dois livros que mostram sua influência oriental: Ausente e O Aroma do Tempo. No primeiro, ele desenvolve uma reflexão sobre uma figura difícil de ser pensada no Ocidente: o estrangeiro, o Outro. Por causa do centramento no mesmo e no eu, o Ocidente padece de patologias que serão analisados ao longo da obra posterior. O Oriente pode trazer uma experiência do não-eu, que deixa ao mesmo tempo um espaço para um estrangeiro não conformável, não assimilável. A cura pela gentileza é algo que a cultura do ausente possibilita despertar. Apresentação de capa em alemão: “No Ocidente, o estrangeiro há muito tempo tem sido objeto de exclusão ou apropriação violenta. Não estava presente dentro de si mesmo. E hoje? O estrangeiro ainda existe? No momento, as pessoas gostam de acreditar que todos são de alguma forma como os outros. Desta forma, o estrangeiro desaparece novamente do interior do próprio. Talvez não fosse uma desvantagem acreditar que existe realmente um país “onde alguém que diz ‘eu’ afunda rapidamente na terra”. É uma cura para manter um espaço livre para o estrangeiro. Isso também seria um sinal de gentileza. O presente livro apresenta uma cultura estrangeira, uma cultura de ausência, que parecerá bastante maravilhosa para os habitantes da cultura ocidental, que está orientada para a essência”.

2009
Duft der Zeit: Ein philosophischer Essay zur Kunst des Verweilens (Aroma do Tempo: Um ensaio filosófico sobre a arte de permanecer)

Em Aroma do tempo, Han aprofunda a mesma temática, só que agora abordando uma dimensão específica: a experiência da temporalidade. Dialogando com as teorias da “aceleração”, ele critica uma abordagem centrada apenas na velocidade para trazer uma experiência qualitativa do tempo, apta a pensar as patologias da experiência contemporânea, aprisionada em uma visão estreita de vita ativa, contra a qual recupera um tema central de sua obra: o valor da vita contemplativa. Apresentação de capa alemã: “Em muitos casos, as patologias da vida moderna têm sido descritas como patologias da experiência do tempo, mais recentemente como aceleração. O filósofo Byung-Chul Han mostra em seu ensaio que estas análises deixam escapar o verdadeiro problema. A sensação de que tudo está acelerando é apenas um dos sintomas de um distúrbio mais profundo na percepção do tempo, que ele chama de “discronia”. A tão discutida teoria da aceleração – de acordo com sua provocante tese – não vê a crise em tempo real. Até a obscurece. Han descreve os fenômenos patológicos da discronia e sugere uma prática de tempo que leva a uma possível cura. Em uma emocionante viagem histórica através do tempo, o ensaio mostra que a absolutização da vita ativa leva a uma perda de tempo e de mundo, de significado e duração, começando nos tempos modernos e terminando na sociedade ativa de hoje, que degrada o homem para um trabalhador, para trabalhadores animais. Não se trata de estratégias de desaceleração, mas apenas uma revitalização contemporânea de uma vita contemplativa, uma arte de habitar, é capaz de equilibrar a vita ativa e, após o fim das grandes narrativas, de reconquistar o mundo e o tempo. Um tempo que, no sentido de Proust, exala uma fragrância de tempo cumprido”.

2010
Sociedade do cansaço

É em 2010 que Byung-Chul Han, que não gosta de aparecer e é avesso ao estrelato, se torna um best seller alemão e mundial com Sociedade do cansaço. Nele são apresentadas de forma sintética suas teses sobre a sociedade neuronal, da performance e do esgotamento. E são aprofundadas suas concepções sobre o tédio, o cansaço, o poder-não-fazer etc. Apresentação da capa: “Os efeitos colaterais do discurso motivacional, o mercado de palestras e livros motivacionais está crescendo desde o início do século XXI e não mostra sinais de desaquecimento. Religiões tradicionais estão perdendo adeptos para novas igrejas que trocam o discurso do pecado pelo encorajamento e autoajuda. As instituições políticas e empresariais mudaram o sistema de punição, hierarquia e combate ao concorrente pelas positividades do estímulo, eficiência e reconhecimento social pela superação das próprias limitações. Byung-Chul Han mostra que a sociedade disciplinar e repressora do século XX descrita por Michel Foucault perde espaço para uma nova forma de organização coercitiva: a violência neuronal. As pessoas se cobram cada vez mais para apresentar resultados – tornando elas mesmas vigilantes e carrascas de suas ações. Em uma época onde poderíamos trabalhar menos e ganhar mais, a ideologia da positividade opera uma inversão perversa: nos submetemos a trabalhar mais e a receber menos. Essa onda do ‘eu consigo’ e do ‘yes, we can’ tem gerado um aumento significativo de doenças como depressão, transtornos de personalidade, síndromes como hiperatividade e burnout. Este livro transcende o campo filosófico e pode ajudar educadores, psicólogos e gestores a entender os novos problemas do século XXI”.

2011
Shanzhai 山寨 – Dekonstruktion auf Chinesisch

Este pequeno livro, ainda não traduzido para o português, faz um trabalho de desconstrução do neologismo Shanzhai, muito utilizado ideologicamente na cultura chinesa contemporânea; contra este uso, ele se apropria do termo para desenvolver uma filosofia da diferença instrutiva para o Ocidente. Apresentação da capa em alemão: “Shanzhai é o neologismo chinês para as falsificações. Agora também há expressões como xanzhaiismo, cultura xanzhai ou espírito xanzhai. Shanzhai agora cobre todas as áreas da vida na China. Há livros de shanzhai, um Prêmio Nobel de shanzhai, filmes de shanzhai, deputados de shanzhai e estrelas de shanzhai. A partir deste fenômeno genuinamente chinês, Byung-Chul Han desconstrói o conceito ocidental do original e redefine a arte, a criação e a criatividade. Han acaba por formular aqui um modelo de existência e pensamento que parece milagroso para o Ocidente: ‘Em chinês clássico, o original é chamado zhen-ji (30495;36321;). Literalmente, significa o “traço real”. É um traço especial, pois não corre em nenhum caminho teleológico. E não há nenhuma promessa inerente a ela. Também não há nada de enigmático ou kerigmático ligado a ele. Além disso, ela não se condensa em uma presença clara e unificada. Ao contrário, ela desconstrói a ideia do original, que encarna uma presença e identidade inconfundíveis, imutáveis, em si mesmas, descansando. Processualidade e diferenciação lhe conferem uma força centrífuga desconstrutiva. Ela não permite uma obra de arte autônoma, autocontida, que tenha uma forma final e que evitasse qualquer mudança. Sua diferença para si mesma não lhe permite chegar a uma paralisação na qual teria sua forma final. Desta forma, ela sempre permite que ela se desvie de si mesma. A ideia chinesa do original como um traço (ji, 36321;) mostra a estrutura do “traço de memória” de Freud, que está sujeito a constante rearranjo e reescrita. Não uma criação única, mas o processo sem fim, não a identidade final, mas a constante transformação determina a ideia chinesa do original. A mudança, entretanto, não ocorre dentro de uma alma da subjetividade de um artista. O traço o apaga em favor de um processo que não permite um assentamento essencialista”.

2011
Topologia da violência

Topologia da Violência é um livro chave de Byung-Chul Han, que apresenta sistematicamente sua teoria macrofísica e microfísica da violência, articulando para tanto diversos ângulos de análise: político, psíquico, metafísico etc. Do ponto de vista histórico, ele mostra como o acontecimento da violência se transformou desde a mudança da decapitação (sociedade pré-moderna da soberania e do sangue) para a deformação (sociedade moderna da disciplina) até chegar à depressão (sociedade atual do desempenho e do cansaço). Com forte diálogo com autores clássicos e contemporâneos, tendo em Carl Schmitt e Michel Foucault interlocutores privilegiados, Han busca recuperar uma reflexão da violência que permita pensar nossa “dialética da liberdade”, desencadeadora de uma autoexploração feita em nome da liberdade.

2012
A sociedade da transparência

Sociedade da transparência é um livro de síntese das teses de Han a partir de um eixo: o da ideologia da transparência e suas repercussões sobre os mais diversos aspectos da vida contemporânea. Neste livro, em diálogo com autores como Walter Benjamin, Hannah Arendt, Giorgio Agamben, Richard Sennett, Michel Foucault etc., Han defende a forte tese de que nossas sociedades de controle pelo desempenho são sociedades pornográficas e da desconfiança. Apresentação de capa: “Nos dias atuais não há mote que domine mais o discurso público do que o tema da transparência. Ele é evocado enfaticamente e conjugado sobretudo com o tema da liberdade de informação. A sociedade da transparência é uma sociedade da desconfiança (Misstrauen) e da suspeita (Verdacht), que se baseia no controle em virtude do desaparecimento da confiança. A forte e intensa exigência por transparência aponta justamente para o fato de que o fundamento moral da sociedade se tornou frágil, que valores morais como sinceridade ou honestidade estão perdendo cada vez mais significado”.

2012
A agonia de eros

Vindo logo depois de Sociedade da transparência, Agonia de eros está em forte interlocução: a sociedade pronográfica, sociedade narcistista-depressiva, é a sociedade que põe eros em agonia. Neste ensaio, Han retoma o sentido socrático-platônico de eros como uma resposta às patologias sociais e individuais de nossas sociedades contemporâneas, pois permite retomar o sendo do não-transparente, do invisível, do outro, do retraimento e do mistério. Apresentação da capa: “O Eros se aplica, em sentido enfático, ao outro, que não pode ser abarcado pelo regime do eu. No inferno do igual, que iguala cada vez mais a sociedade atual, não mais nos encontramos, portanto, com a experiência erótica, que pressupõe a transcendência, a radical singularidade do outro. O terror da imanência, que transforma tudo em objeto de consumo, destrói a cupidez erótica. O outro que eu desejo e que me fascina é sem-lugar; ele se retrai à linguagem do igual. O desaparecimento do outro é um sinal da sociedade que vai se tornando cada vez mais narcisista; a sociedade, esgotada a partir de si, não consegue se libertar para o outro. É uma sociedade sem eros.”

2013
Bitte Augen schließen. Auf der Suche nach einer anderen Zeit (Por favor, feche seus olhos. Em busca de outro tempo).

Por favor, feche seus olhos: em busca de outro tempo é um ensaio de vida filosófica escrito por Byung-Chul Han. Retoma-se aqui a questão da experiência da temporalidade, tratada em livros como Aroma do Tempo e Ausente, desenvolvidas sempre em relação ao tempo homogêneo e pornográfico da produção digital-consumista. Há outro tempo a ser experimentado, um tempo do outro, associável ao durável ou ao ausente. Este texto persegue uma questão, presente em Agonia de eros, a respeito de por que nos superficializamos e não encontramos mais hoje uma conclusão. Assim, como é dito na capa do livro em alemão, em nossas sociedades, “fechar os olhos não é o fim do dia, mas apenas um sintoma de exaustão”.

2013
Digitale Rationalität und das Ende des kommunikativen Handelns [A racionalidade digital e o fim da ação comunicativa]

Em vários de seus ensaios, Byung-Chul Han tangenciou o problema da democracia e da destruição do espaço público. Neste ensaio, Racionalidade digital e o fim da ação comunicativa, Han aborda a questão de frente, aprofundando a análise das transformações decorrentes da virada digital decorrente das tecnologias de informação e “conhecimento”. Ele faz isso em diálogo com a teoria do agir comunicativo de Habermas, propondo a possibilidade de advento de novas formas de democracia, nem comunicativa, nem direta. Apresentação da capa em alemão: “Hoje, a Internet não se manifesta como um espaço público, como um espaço de ação comum e comunicativa. Ao contrário, ela está se desintegrando em espaços privados e de exposição do self. A virada digital questiona radicalmente a teoria de ação comunicativa de Habermas. Não há discurso nos blogs e nas mídias sociais, eles não formam nenhuma esfera pública, na verdade até impedem a formação de uma comunidade no sentido enfático. Com “Racionalidade Digital e o Fim da Ação Comunicativa”, Byung-Chul Han aborda precisamente esta interface entre a esfera pública e a subjetividade, entre a comunidade e a opinião, e fornece uma interpretação das mudanças sociais que é ao mesmo tempo surpreendente e convincente: ele não se detém em uma mera descrição das circunstâncias, mas abre uma visão das possibilidades e oportunidades que se encontram neste desenvolvimento, as possibilidades de uma profunda revolta. A desintegração do espaço público é interpretada como uma crise da democracia. Mas esta desintegração não exigiria simplesmente uma forma completamente diferente de democracia, que prescindisse da esfera pública, sem ação comunicativa, sem “nós”? Não seria possível imaginar uma forma de democracia enxameada que revisasse e renovasse radicalmente a forma anterior de democracia, a democracia representativa, e que também fosse além da democracia direta comum?”.

2013
No enxame: perspectivas sobre o digital

Na esteira do livro anterior, No enxame: perspectivas sobre o digital é um ensaio, já publicado em português pela Vozes, onde Han desenvolve de forma aprofundada sua análise do mundo digital. A metáfora do enxame é utilizada para pensar a lógica de poder e a ação da sociedade em que vivemos, geradora de diversas patologias individuais, sociais e políticas. A sociedade dos dados desenvolve uma lógica autodestrutiva: a do dataísmo (neologismo que une dadaísmo + dados). Apresentação da capa: “Arrastamo-nos por trás da mídia digital, que, aquém da decisão consciente, transforma decisivamente nosso comportamento, nossa percepção, nossa sensação, nosso pensamento, nossa vida em conjunto. Um enxame digital! Embriagamos-nos hoje em dia da mídia digital, sem que possamos avaliar inteiramente as consequências dessa embriaguez. Essa cegueira e a estupidez simultânea a ela constituem a crise atual”.

2014
Psicopolítica: neoliberalismo e as técnicas de poder

Psicopolítica: neoliberalismo e as técnicas de poder, mais um best seller, pode ser lido como um livro de síntese das teses desenvolvidas pelo autor nos livros anteriores, só que agora sintetizadas como uma análise das sociedades neoliberais. Ele expõe a técnica de dominação e poder do regime neoliberal, criticando a ideia de biopolítica de Foucault, a fim de mostrar como a psique atua contemporaneamente como uma autêntica força produtiva. As análises psicopolíticas de Han são apresentadas aqui em todas as suas facetas, como expressões de uma sociedade que promete a liberdade gerando alienação.

2015
A Salvação do Belo

A salvação do belo é um livro a ser lido juntamente com Agonia de eros e Bom entretenimento, pois todos eles, juntamente com seus livros sobre a experiência do tempo, reúnem não apenas um diagnóstico das crises contemporâneas como também uma visão regeneradora: antes, refletiu-se sobre o tempo e o amor, agora, sobre o belo. Apresentação da capa: “A beleza encontra-se hoje em uma situação paradoxal. De um lado, se propaga de modo inflacionário: é exercido em toda parte um culto da beleza. De outro lado, ela perde sua transcendência, entregando-se à imanência do consumo: ela constitui o lado estético do capital. A experiência do negativo diante do belo, assim como diante da sublimidade ou do choque, cede lugar completamente ao gosto culinário, ao like, à curtida. Trata-se, em última análise, de uma pornografização do belo. Em seu novo livro, Byung-Chul Han reflete sobre o belo na era digital. Esse ensaio invoca e evoca as formas do belo que se manifestam como verdade, como desastre ou como sedução. São exploradas também as dimensões do belo que fundariam uma ética ou política do belo. Esta é uma leitura estimulante e reveladora e um diagnóstico lúcido da atualidade.”

2016
Die Austreibung des Anderen: Gesellschaft, Wahrnehmung und Kommunikation heute [A Expulsão do Outro: sociedade, percepção e comunicação hoje]

A expulsão do outro desenvolve teses anteriores sobre como a sociedade da performance e da pornografia tende a expulsar o outro. Isso é feito aqui pela análise de uma tríade: sociedade, percepção e comunicação. Apresentação de capa em alemão: “O tempo em que havia o Outro acabou. O Outro como amigo, o Outro como inferno, o Outro como segredo, o Outro como sedução, o Outro como Eros desaparecem. Ele cede lugar ao mesmo. A proliferação do mesmo hoje constitui as mudanças patológicas que afligem o corpo social. Ela se apresenta como crescimento. Não é a alienação, a privação, a proibição, a repressão, mas o excesso de comunicação, o excesso de informação, o excesso de produção e o excesso de consumo que a tornam doente. Não a repressão pelo outro, mas a depressão pelo mesmo é o sinal dos tempos de hoje. O novo ensaio de Byung-Chul Hans traça a violência dos mesmos nos fenômenos como medo, globalização e terrorismo que caracterizam a sociedade contemporânea”.

2016
Close-Up in Unschärfe [Close-up em indefinição]

Este é um livro mais autobiográfico de Byung-Chul Han, baseado em sua experiência de produção e direção de um longa metragem. Apresentação da capa em alemão: “Em agosto de 2016 fiz um longa-metragem, uma intensa história de amor. Eu escrevi o roteiro, dirigi e também fiquei atrás da câmera. Maravilhosas atrizes do Berliner Volksbühne como Margarita Breitkreiz e Lilith Stangenberg atuaram para mim. Eles me fizeram feliz. Durante as filmagens houve eventos, coincidências e encontros que me fizeram feliz. Mesmo os adereços me deram momentos de felicidade, por exemplo, o belo piano de 150 anos de idade. Durante o intervalo da filmagem, no meio da noite, eu toquei Goldberg Variations nele. [..] 3 semanas em agosto de 2016 foram os dias mais felizes da minha vida. Depois do longa-metragem, renasci como ator, como erótico. É sobre isso que vou falar neste livro”.

2018
Lob der Erde: Eine Reise in den Garten [Louvor da terra: Uma viagem para o jardim]

Louvor da terra: uma viagem para o jardim é mais um belo livro de Byung-Chul Han que possui elementos autobiográficos. Depois de A salvação do belo e Agonia de Eros, encontramos um Han que se dedica, na prática, à beleza da terra e da natureza, cultivando seu jardim, refletindo sobre as estações e o sentido do tempo, em diálogo com romances e filósofos. Durante 3 anos, Han cultivou seu jardim em Berlim, que nomeou Bi-Won (coreano: jardim secreto). Trecho de apresentação da capa em alemão: “Quanto mais tempo ele fica lá, mais respeito ele tem pela beleza da terra. Ele experimenta o que significa cuidado e que o jardim, na verdade cada planta, tem sua própria consciência de tempo. Ele aprende novamente a maravilhar-se com a terra, com sua estranheza, com sua singularidade. A filosofia de Han do jardim é uma declaração de amor à terra e à natureza e um chamado à humanidade para cuidar dela”. Enfim, um livro a ser traduzido urgentemente em tempos de devastação.

2019
Kapitalismus und Todestrieb: Essays und Interviews [Capitalismo e pulsão de morte: ensaios e entrevistas]

Os últimos três ensaios de Han publicados desde 2019 ainda esperam tradução para o português. O primeiro deles, Capitalismo e pulsão de morte, tem um título que fala por si mesmo. Precisamos reformular nossa visão de história e “desenvolvimento”, sob pena de metástase. Apresentação da capa em alemão é clara, basta citá-la: “O que hoje chamamos de crescimento é de fato um tumor, uma proliferação carcinomatosa que destrói o organismo social. Com uma vitalidade inexplicável e mortífera, estes tumores se metástase e proliferam infinitamente. Em determinado momento, a produção não é mais produtiva, mas destrutiva. O capitalismo já passou há muito tempo por este ponto crítico. Suas forças destrutivas produzem não apenas catástrofes ecológicas ou sociais, mas também mentais. Os efeitos devastadores do capitalismo sugerem a suposição de uma pulsão de morte. Depois que Sigmund Freud estava inicialmente relutante em introduzir a pulsão de morte, ele confessou que “não podia pensar o contrário” porque a ideia da pulsão de morte tinha ganho tal poder sobre ele. Entretanto, pensar no capitalismo também parece ser impossível sem o pressuposto da pulsão de morte”.

2019
Vom Verschwinden der Rituale: Eine Topologie der Gegenwart [O desaparecimento dos rituais: uma topologia do presente]

Depois de Capitalismo e pulsão de morte, Han escreve uma topologia do presente aprofundando um tema que já estava implícita ou explicitamente presente nos ensaios anteriores: o do desaparecimento dos rituais. Pensar o ritual é fundamental para compreendermos outras experiências de temporalidade do que as de nossas sociedades da performance e do digital; pensar o ritual é também uma forma de retomar o sentido do jogo, da festa, do lúdico, das virtudes, de todas estas experiências avessas à homogeneização espaço-temporal da condição humana. É assim que esta reflexão sobre o ritual pode ser feita para pensar o aparente paradoxo de uma brutalização decorrente dos processos de “moralização” dos costumes e de “autentização” dos indivíduos. Apresentação da capa em alemão: “Hoje estamos sendo moralizados incessantemente. Ao mesmo tempo, porém, a sociedade está se tornando brutalizada. A polidez desaparece. O culto da autenticidade os desconsidera. As belas maneiras estão se tornando cada vez mais raras. Também a este respeito, somos hostis a formar. Parece que a moralidade não exclui a brutalização da sociedade. A moralidade é sem forma. Poder-se-ia até dizer que quanto mais moralizante é uma sociedade, mais rude ela é. Contra esta moralidade sem forma, uma ética de belas formas é defensável”.

2020
Palliativgesellschaft: Schmerz heute [Sociedade paliativa: a dor hoje]

Por fim, no último ensaio de Han, “A sociedade paliativa: a dor hoje”, este “fenomenólogo das emoções e dos sentimentos humanos” no mundo contemporâneo reflete sobre como (não) lidamos com a dor e o sofrimento hoje. A apresentação da capa em alemão é bem feita: “Hoje há uma algofobia por toda parte, um medo generalizado da dor. Qualquer condição dolorosa é evitada. A dor do amor também é suspeita. A tolerância à dor diminui rapidamente. A algofobia resulta em um anestésico permanente. Como em seu ensaio Sociedade do cansaço, a análise de Han se baseia em uma mudança de paradigma fundamental em nossa sociedade. A psicologia também acompanha este desenvolvimento, passando da psicologia negativa como a psicologia do sofrimento para a psicologia positiva, que trata do bem-estar, da felicidade e do otimismo. O ensaio mostra como a algofobia se estende para o domínio social. Cada vez menos espaço é dado a conflitos e controvérsias que podem levar a disputas dolorosas. A algofobia também afeta a política. A pressão para se conformar e a pressão para o consenso estão aumentando. Uma pós-democracia está se espalhando. É uma democracia paliativa. O ensaio inclui eventos atuais como a crise dos opiáceos nos EUA ou a pandemia de corona em sua análise. Diante da pandemia, a sociedade paliativa prova ser uma sociedade de sobrevivência”.


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