Fios do Tempo. Não é possível apagar o fogo com combustível: o racismo e a discriminação sempre matam – por Adrián Scribano

As lutas contra o racismo e a discriminação não apagarão o fogo lançando mais combustível no ódio. Isso seria apenas aumentar a pira da tanatologia contemporânea. Ao invés, cabe-nos lembrar, com Martin Luther King e outros, que o caminho da luta contra o racismo e pela liberdade pode ser trilhado pelo amor e a esperança.

O Fios do tempo traz hoje, como preparativo para o Painel internacional Racismos e discriminações, que se realizá nesta terça-feira (amanhã) às 16h no Brasil (https://www.youtube.com/watch?v=b39duT8lX84&feature=youtu.be), a tradução deste brevíssimo, mas incisivo, texto do sociólogo argentino Adrian Scribano (diretor do Centro de Investigaciones y Estudios Sociológicos (CIES) | Universidade de Buenos Aires).

Desejamos uma excelente leitura, ou escuta!

A. M.
Fios do Tempo, 24 de agosto de 2020





Não é possível apagar
o fogo com combustível:
o racismo e a discriminação
sempre matam

Buenos Aires, 18 de agosto de 2020

Duas práticas de sentimento unem racismo e discriminação: estigma e desprezo. A história humana pode ser contada em e através das consequências equivalentes das práticas mencionadas. Nesta direção, James Baldwin percebeu:

Todas as posições racistas me desconcertam e me horrorizam. Nenhum de nós é diferente um do outro, nem muito melhor nem muito pior. Além disso, quando se toma uma posição, deve-se tentar ver aonde essa posição inexoravelmente leva. É preciso perguntar a si mesmo, se alguém decide que negros ou brancos ou judeus devem ser desprezados, se ele está disposto a assassinar um bebê branco ou negro ou judeu: porque é a isso que essa posição leva (Baldwin, 1984:747).

Do outro lado da cerca da discriminação está a oportunidade para o genocídio, a escravidão e a violência. Os muros mentais das cidades, países e regiões que se distanciam dos outros são muitas vezes os trampolins da tanato política.

A luta contra o racismo e a discriminação tem como pilar básico a advertência de não produzir mais racismo e discriminação, pois não se pode apagar o fogo com combustível, não se pode seguir a espiral de violência que isso nos impõe. A este respeito, disse Martin Luther King:

O Poder Negro tem uma crença implícita e muitas vezes explícita no separatismo negro. Note que eu não lhe chamo racismo negro. É impreciso referir-se ao Poder Negro como racismo inverso, como alguns têm feito recentemente. O racismo é uma doutrina da inferioridade congênita e da inutilidade de um povo. Enquanto alguns defensores irados do Poder Negro, em momentos de amargura, fizeram declarações selvagens que se aproximam deste tipo de racismo, os principais defensores do Poder Negro nunca sustentaram que o homem branco é inatamente inútil
(King, M. L. jr. 2010:49).

Não é possível comer-se como canibal. A prática do ódio não é eliminada por mais ódio. Ver o outro como próximo é o único caminho de fazer justiça sem esquecer a ofensa. Somente saindo do círculo vicioso do ódio, o racismo e a discriminação serão eliminados; não sem justiça, não sem igualdade, não sem autonomia, não sem emancipação, mas sim sem o ódio como um efeito multiplicador da morte. Como disse Marcus Garvey:

Em nenhum momento nos últimos quinhentos anos um único exemplo do homem negro pode ser apontado como uma raça de odiadores. O negro amou mesmo sob a punição mais severa. (…) Não somos uma raça de odiadores, mas amantes da causa da humanidade
(Jacques-Garvey 2009:11). 

É por isso que, nestes meses turbulentos, de ansiedade e medo planetários, é urgente opor-se a todas as formas de racismo e discriminação, retornando aos caminhos do amor e da esperança.

Referências 

Baldwin, J.   (1984)  Collected Essays.  The Library of  America. USA.

Jacques-Garvey,  Amy (edit) (2009) Philosophy and Opinions of Marcus Garvey, edited by  The Journal of Pan African Studies 2009 eBook

King, M. L. jr.  (2010) Where Do We Go from Here Chaos or Community?. Beacon Press. Boston. USA


Adrián Scribano é diretor do Centro de Investigaciones y Estudios Sociológicos (CIES) / professor da Universidade de Buenos Aires. É Director of the Latin American Journal of Studies on Bodies, Emotions and Society e  do Grupo de Estudo em Sociologia das Emoções e dos Corpos, no Instituto de Investigaciones Gino Germani.


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