Fios do tempo. Carta aos amigos conservadores em tempos de Bolsonaro – por André Magnelli

Jair Messias Bolsonaro foi eleito em 2018 por 57,8 milhões de votos, motivados pelas mais distintas razões. Uma parte do seu apoio esteve dentre pessoas conservadoras e liberais, que acreditavam ter em Bolsonaro não apenas um candidato a derrotar o PT, mas também alguém que representava seus valores mais queridos: tradição, liberdade, moral, família etc. Em meio a muita fumaça eleitoral, várias pessoas podiam acreditar sinceramente nisso. Por esta razão, cinco dias antes do 2o turno das eleições de 2018, publiquei uma pequena carta aos amigos conservadores no Jornal do Brasil, tentando explicitar a natureza da pessoa que estavam por eleger. Hoje, após 1 ano e 4 meses de presidência, parece-me que não há mais como se deixar enganar sobre as reais intenções de Jair Bolsonaro.

Infelizmente, portanto, minha carta se mostrou validada pelo tempo. Diante de mais uma manifestação contra o confinamento e a favor da intervenção militar, consideramos assim um bom momento para relembrar esta carta postando-a pela primeira vez em nosso site, sem qualquer alteração (exceto no título). E esperamos que, o mais rápido possível, todas as forças lúcidas e democratas do Brasil (conservadores, liberais, social-democratas e socialistas, civis e militares) se unam contra Bolsonaro e sua vontade de dar um “autogolpe” (ou, na falta desta possibilidade, de desconstruir as instituições e semear fogo e caos no país). Somente assim poderemos preservar nossa democracia e defender nossas instituições, essas tão frágeis e complexas obras de nossa tradição, que foram conquistadas a duras e longas penas.

A. M.
19 de abril de 2020




Carta aos amigos conservadores
em tempos de Bolsonaro

Jornal do Brasil, 24 de outubro de 2018

Meu amigo conservador, digo-lhe, antes de tudo, que prezo sua visão de mundo e adoro conversar com a sábia prudência conservadora. Por causa disso, escrevo esta carta para alertá-lo de que o bom e velho conservadorismo moral e político parece estar se desviando de seus fins. Embebendo-me do melhor deste pensamento e prática, explico-me.

Mesmo sendo contrário e crítico ao que se tornou o Partido dos Trabalhadores, considero que votar em Bolsonaro é uma péssima alternativa. De acordo, estamos em uma sinuca de bico imposta pela irresponsável estratégia eleitoral do PT. Mas não vejo qualquer possibilidade de que vistamos o candidato Bolsonaro como um defensor de nossas liberdades contra os supostos perigos existentes. Para mim, meu amigo, ele é a negação de quaisquer marcos civilizatórios aceitáveis pelo conservadorismo.

Basta prestarmos atenção em quem ele é. Alguns dizem que os críticos exageram sobre seus perigos, que agiriam de má-fé buscando vídeos de décadas atrás. Não, não é preciso ir tão longe. Em um contexto eleitoral, ele está sendo preparado para dar consistência a seu discurso, racionalidade e moderação; por isso é conveniente não nos deixar levar por discursos prontos e cenas feitas, em ambientes de protocolo controlado. Portanto, sente e busque vídeos de um pouco antes das eleições, falando em programas de comédia, em entrevistas etc; ou, então, os de comícios eleitorais, quando ele está espontâneo. Escute o candidato suspendendo os seus afetos políticos e ligando o seu sinal de alerta moral em prol da vida, da dignidade humana, da integridade, da tradição e da civilização. Evite se levar de pronto pela lógica do “contra quem” (“contra-PT”, “contra-comunistas” etc.). Preste atenção no que há de afirmativo nas palavras e nas ações. Não se deixe levar apenas por palavras (“união”, “paz”, “vida”, “família” etc.); faça uma leitura mais atenta da postura, das propostas e, principalmente, da contradição entre o que ele fala e o que ele faz. Para simplificar, faça a mesma coisa que você faria com os “petistas”: ponha-o sob suspeita.

Se você fizer esse exercício e recordar o que constitui uma visão conservadora de mundo, tenho certeza de que se sentirá constrangido e, mesmo, de estômago embrulhado. Por quê? Porque Bolsonaro e os seus seguidores transmitem o que há de pior nela e marginalizam o que há de melhor. Explico-me.

O melhor do conservadorismo, aquilo que podemos chamar de “conservadorismo autêntico”, notabiliza-se, a meu ver, pelos seguintes traços:

1- valorização da tradição e do tempo lento e longo, com conhecimento aprofundado da história do país, da religião e dos costumes; 

2- moderação e polidez nas atitudes, com respeito pelo outro, autocontrole e civilidade; 

3- noção da importância de boas elites para uma boa sociedade, o que envolve a valorização da educação e do trabalho intelectual, com uma concepção humanista de cultura; 

4- noção de que não existe liberdade sem autoridade bem compreendida, assim como não existe autoridade sem liberdade exercida; 

5- percepção de que as liberdades só se efetivam quando se tornam usos, costumes e sentimentos, recusando com isso qualquer tentação de usar da força ou violência para impor sua própria vontade; 

e 6- uma visão de que a realidade e o humano são complexos, o que instrui uma regra de sabedoria conservadora: só se muda gradual e imperfeitamente, sendo impossível suprimir o mal e redimir o humano de seus pecados. Ou seja, qualquer proposta de limpeza geral, solução final, redenção da corrupção pela tomada de poder etc. é incogitável.

Tudo isso, infelizmente, encontra-se, em grande medida, ausente em Bolsonaro e no bolsonarismo. E o que é então que se encontra verdadeiramente presente, em geral, em Bolsonaro?

O pior do conservadorismo, o que podemos chamar de “conservadorismo inautêntico”:

1- intolerância e preconceitos irracionais em relação ao diferente; 

2- anti-intelectualismo e aversão à cultura e ao cultivo da alma; 

3- autoritarismo (que é diferente de defesa de autoridade); 

4- militarismo (que é diferente de valorização das Forças Armadas) e apelo a soluções violentas e voluntariosas; 

5- desprezo pelos direitos e dignidades e incivilidade no comportamento; 

e 6- simplificação da realidade e vontade de imposição por força, sem noção da complexidade das coisas.

Ora, curiosamente, quando pensamos de forma autenticamente conservadora, conforme os ideais acima enumerados, tanto Bolsonaro quanto o bolsonarismo parecem-me imensamente distantes de corresponder ao melhor deste horizonte de mundo; e ironicamente, aproximam-se, pelo contrário, de certas concepções revolucionárias contra as quais ele se debate. Um exemplo basta.

Desde o início de 1990, Bolsonaro desmerece as instituições, descrendo a possibilidade de uma mudança lenta da sociedade. Ele prefere propor golpes, fazer apelo à violência e exprimir anseios de fuzilamentos. Ora, um autêntico conservador faz o inteiro contrário disso. Ele diz que a sociedade é muito complexa para ser mudada com atos de força e que a democracia é um tecido frágil constituído progressivamente e com muita prudência, cabendo-nos portanto cultivá-la e zelá-la fazendo uso do que há de melhor em nossa tradição.

Portanto, nada mais distante, em Bolsonaro, do que um conservadorismo autêntico. Se você quer continuar com ele, digo-lhe com sinceridade: você flerta com algo muito mais parecido com seu inimigo do que imagina!


André Magnelli é fundador, livre-pesquisador e diretor do Ateliê de Humanidades. É doutor e pós-doutor em sociologia pelo IESP-UERJ.


MAGNELLI, André (2020), Carta aos amigos conservadores em tempos de Bolsonaro, Fios do Tempo (Ateliê de Humanidades), 19 de abril (publicado originalmente em 24 de outubro de 2018). Disponível em: https://ateliedehumanidades.com/2020/04/19/fios-do-tempo-carta-aos-amigos-conservadores-em-tempos-de-bolsonaro/


eBook. Sociologia das tecnociências contemporâneas

Sociologia das tecnociências contemporâneas:ensaios de teoria social portuguesa organizado por Marcos Lacerda & André Magnelli Apresentação O presente livro é um apanhado significativo do que de melhor tem sido feito em Portugal a respeito da sociologia do tempo presente, através da visada de um dos mais estimulantes sociólogos portugueses: o investigador e professor do Instituto… Continuar Lendo →

Fios do Tempo. Já é possível visualizar as consequências da covid-19 – por Elimar P. do Nascimento

O Fios do tempo continua hoje com a análise prospectiva sobre o porvir. Após o belo texto de Abram de Swaan publicado ontem, trazemos agora mais um ótima análise do presente feita pelo sociólogo Elimar Pinheiro do Nascimento. Neste artigo, são analisadas, em boa e acessível prosa, as possíveis consequências da covid-19 em várias vias:… Continuar Lendo →

Fios do Tempo. O platô, por Felipe Maia

Hoje, no Fios do Tempo, retornamos à análise de conjuntura política com mais um excelente artigo de Felipe Maia (UFJF). Explorando a metáfora do platô para além do seu significado epidemiológico, Maia nos convida a refletir sobre algumas indagações: o que nos levou a um pĺatô político? Por que nos mantemos persistentemente nele? Quanto isso… Continuar Lendo →

Revista Piezas. Dossiê Alain Caillé (com entrevista do autor e textos de A. Magnelli, P. H. Martins e Torres Guillén)

A Revista Piezas: en diálogo filosofía y ciencias humanas, uma publicação mexicana com direção editorial do sociólogo Jaime Torres Guillén, acabou de publicar um número com Dossiê sobre Alain Caillé, que contém uma entrevista inédita de Alain Caillé, uma introdução ao autor e à sua obra por André Magnelli, um ensaio de Paulo Henrique Martins… Continuar Lendo →

Podcast. Vila Morena (2): Uma obra de fortuna e um fado de loucura

Há mais culturas entre franceses e alemães do que pode crer nossa tradição intelectual. Neste espírito de difusão de novos autores, pensamentos e culturais intelectuais, começamos nossa introdução ao debate de ideias em Portugal, com nossas atividades em podcasts/vídeos do Vila Morena: o debate de ideias em Portugal, no República de Ideias. Ela consistirá em exposições… Continuar Lendo →

Ciclo de Humanidades. Quando a raça importa?!

Apresentação No próximo dia 30 de julho, o Ciclo de Humanidades: ideias e debates em filosofia e ciências sociais realizará, em parceria com a editora UBU, o quarto encontro com o tema Quando a raça importa?!. Neste dia, refletiremos sobre o racismo em nossas sociedades, tratando de suas origens históricas e de seus distintos modos… Continuar Lendo →

Fios do tempo. Raça, poder e nação: encruzilhadas coloniais no século XXI

Publicamos agora no Fios do tempo, após nossa live sobre “As mil faces do racismo” e como preparativo do Ciclo de Humanidades “Quando a raça importa?!“, o artigo de Paulo Henrique Martins sobre as encruzilhadas neocolonais hoje existentes entre raça, poder e nação. Tal como o belo artigo de Adrián Scribano, “Não consigo respirar: o… Continuar Lendo →

Podcast – Vila Morena (I): Pitadas de Martins, temperadas com o amanhecer de Lisboa

Há mais culturas entre franceses e alemães do que pode crer nossa tradição intelectual. Neste espírito de difusão de novos autores, pensamentos e culturais intelectuais, começamos nossa introdução ao debate de ideias em Portugal, com nossas atividades em podcasts/vídeos do Vila Morena: o debate de ideias em Portugal, no República de Ideias. Ela consistirá em… Continuar Lendo →

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Site no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: