Fios do tempo. Vírus, um rizoma: ou quando a natureza de Deus e os bosques do Hino nada têm a dizer – por Aldo Tavares

Após publicarmos uma sequência de artigos sociológicos em nossa série sobre a pandemia de coronavírus, publicamos hoje um artigo mais filosófico sobre as questões suscitadas pelo nosso tempo. Em diálogo com Gilles Deleuze, Félix Guattari, Henri Bergson, dentre outros, Aldo Tavares nos brinda com uma reflexão sobre a natureza rizomática do vírus e como ela nos conduz a uma “ontologia do vago”. E, a partir disso, ele nos traz não apenas a proposta de uma filosofia, política e ética do “Entre”, mas também uma interpretação crítica dos processos religiosos e políticos em curso.

Desejo uma boa leitura, ou escuta!

A. M.
Fios do tempo, 27 de março de 2020




Vírus, um rizoma:
ou quando a natureza de Deus e os bosques do Hino nada têm a dizer

Rio de Janeiro, 24 de março de 2020

1. Vírus, uma multiplicidade

Embora Louis Pasteur (1822-1895) tenha proposto a teoria microbiana das doenças, baseada em um “tipo de vida diminuta”, foi o holandês Martinus Beijerinck (1851-1931), ao ter usado o nome “vírus” para indicar o agente causal de uma doença, marcou o início da “virologia”. Em 1898, identificaram o primeiro agente filtrável de animais, o vírus da febre aftosa (Aphtovírus). Em 1901, identificou-se o primeiro vírus humano, o da febre amarela (Flavírus), responsável, até o ano de 2000, por dez doenças. Em 1908, surge o vírus da leucose aviária. Em 1911, o do sarcoma de Rous.
  Saltando para tempos hodiernos, a família Coronaviridae, assim como outras famílias de vírus, tem vários desdobramentos, chamados pelos infectologistas de cepas. Até o momento, existem sete cepas conhecidas de coronavírus humano, e todas surgiram de outros animais.

A primeira cepa descoberta dessa família foi em meados de 1960, quando recebeu a identidade H-Co-V-229E. Esse coronavírus-229E filtrou-se no humano porque, antes da junção de elementos entre si ou do contágio, uma das mutações virais, ocorrida na circulação sanguínea da alpaca, possibilitou a passagem viral desse animal para o humano. Nessa passagem, o vírus transferiu material genético da alpaca e, após entrar na célula humana para aderir à parede celular, injetou seu material genético com material da alpaca, isso quando a célula não engole o vírus como fosse fagocitose. A segunda cepa, em 1986, foi quando o coronavírus de morcego, em uma de suas mutações na corrente sanguínea quiróptera, realizou a passagem entre espécies dessemelhantes para depois injetar na célula humana uma genética misturada com material de vírus e de morcego, e, só depois de 16 anos, em 2002, a ciência descobriu o coronavírus humano, identificando-o como cepa Sars-CoV. Após 17 anos, em 2019, outra mutação da mesma família viral, surgiu a cepa Sars-Cov-2, sendo desconhecido ainda o animal onde o coronavírus em uma de suas mutações contagiou o humano.

A mutação da cepa HCoV-299E, da família Coronaviridae, responsável por resfriado comum, fê-lo agressivo, sendo identificado como Sars-CoV, responsável pela Síndrome Respiratória Aguda Grave. Dez anos depois, em 2012, identifica-se outra mutação dos coronas, a cepa Mers-CoV, causando, além dos sintomas respiratórios, forma grave de pneumonia e complicações renais. Em 2015, outro surto de Mers-CoV. Em meados de janeiro de 2020, a Sars-CoV-2, mutação do mesmo vírus, dissemina a Síndrome Respiratória Aguda Grave-2. 

Segundo infectologistas, existem 1,7 milhão de vírus ainda não identificados que habitam tranquilamente alguns animais, sem contar os que habitam tranquilamente plantas e bactérias. O vírus é a maior diversidade biológica do planeta, podendo infectar seres vivos de todos os domínios, isso ocorre pela única razão de o vírus ser multiplicidade, signo que, segundo Gilles Deleuze, diferente do múltiplo, não se reduz ao uno, ao centro, à identidade, ao controle, que dizer, tal qual O Sofista, de Platão, o vírus é fuga sobre fuga. Quando identificado como CoViD-19, o devir-vírus já é outro sem deixar de ser ele mesmo. Até a metade do século 20, mais de 2 mil vírus foram descobertos em animais, em plantas e em bactérias. Dois mil descobertos: muito pouco diante do que permanece coberto e, quando descoberto, quando recebe a identidade de uma cepa, ele é outro sem deixar de ser ele mesmo. A identidade é o nome do fenômeno vírus; entretanto, por causa ou de cepas sobre cepas, ou de dobras sobre dobras, ou de cópias sobre cópias, podemos ainda afirmar identidade diante da diferença do mesmo? Quando o vírus recebe a sua identidade como cepa, já não é o mesmo vírus embora seja o mesmo vírus.

2. Compreende-se o vírus pela ontologia do vago 

Onto e logia: este afixo significa “razão” – e opto pela razão no sentido heraclitiano –; e aquele, “o ser”. Ontologia, a parte da metafísica que pensa a natureza, a realidade e a existência dos entes. E vago? Uma das marcas do vírus é sua mutação. Ora, como se trata de um ser inconstante, que sempre está em fuga, sua natureza passa bem mais veloz de A para B, mas a passagem, que não é A e nem B, é movimento entre A e B. A passagem é o que está entre A e B, e não o que é entre A e B, porque o espaço intermediário, onde flui o puro movimento, a ciência (melhor, a episteme) não consegue capturar a partícula a fim de nomeá-la, ou seja, entre A e B, a indeterminação é que passa. O vago é o império do que ainda não é; pois, no entre, o que está – e não o que é – não pode ser nomeado, quer dizer, não pode ser identificado pela episteme. O vago, portanto, isto: espaço onde nada se fixa e, com efeito, nada tem identidade, não podendo nem mesmo receber o nome semelhante a. Platão deixa isso evidente nas páginas de Timeu ao pensar o objeto errante no espaço intermediário.

Longe de ser estranho à natureza, o vírus é a própria natureza, e ela não é dicotômica como vê e fala o senso comum ou cientistas que equiparam a natureza à razão mecanicista, à razão finalista, porque a natureza viral obvém à ideia de que a natureza existe com lógos. No acontecimento da mutação viral, o Entre é o que existe sem razão, sem episteme, sem lógos. Não se pode encontrar razão onde não existe essência. O vírus só é uma atualização do caos que ocorre no vago.               

Beijerinck propôs uma teoria de fluido vivo contagioso ou filtrável e, somente em 1931, com a invenção do microscópio eletrônico, esse fluido, o vírus, foi visto pela primeira vez, não havendo na natureza organismo que flua mais do que o vírus, nome cuja origem latina significa primeiro “sumo” e, na sequência, “semente; aroma, perfume; droga, poção, beberagem; peçonha, veneno; mau cheiro, exalações pestilentas, fedor; amargo”.

Porquanto Martinus Beijerinck chamou o fenômeno de vírus, seu primeiro significado em latim (sumo) corresponde mais ao objeto pesquisado e nomeado pelo microbiólogo e botânico holandês. Vírus, portanto, é fluidez e, ao compreendê-lo como fluidez, sabe-se: expande-se de forma espontânea, quer dizer, se faz por si mesmo sem ser determinado por outrem, considerado por infectologistas como a estrutura visível mais imprevisível da natureza.

Vírus é natureza. Em grego, phýsis significa “movimento”, e o latim traduziu do grego como “natureza”. O movimento da natureza, porém, não se assemelha ao movimento dos objetos, que é kínesis, traduzido em latim como motus, “mover”, estando relacionado a motor ou ao que é posto em movimento. Phýsis jamais foi posta em movimento, ela é o signo a que Henri Bergson se refere como duração ou espírito, podendo só ser pensada por meio da metafísica, a mesma que a cultura romana excluiu de motus. Nas páginas de A Evolução Criadora, a metafísica bergsoniana pensa o “elã vital”, o movimento da vida. Henri Bergson pensa phýsis como duração

Crítico de uma ciência mecanicista, finalista, cuja razão acredita dominar phýsis por meio da razão, Bergson sabe, pela metafísica imanente, que a natureza não para de (se) criar. “É necessário reconhecer que, na natureza, nem tudo é coerente”, escreve o filósofo francês na página 122 de A Evolução Criadora. Desde sempre, o vírus nunca para de se criar, sendo, pois, ele mesmo, criação sobre criação, um despropósito da natureza, não havendo, enfim, nenhum princípio teleológico. O vírus, portanto, tem este sentido: invenção perene sem síntese, força da natureza que escapa à linguagem finalista, devir a que chamamos potência criadora de multiplicidades: rizoma.

3. A natureza viral é rizomática

Termo retirado da botânica, rizoma é caule subterrâneo rico em reservas, comum em plantas vivazes, caracterizadas como muito fortes e resistentes. Órgão vegetal subterrâneo ou aéreo, o bulbo ou bolbo é rizomático. Da família Cyperaceae e do gênero Cyperus, a Cyperus rotundus, por ser de difícil controle no campo por meio mecânico e por herbicida, assemelha-se a um vírus, só que agindo no solo. Escrevem Gilles Deleuze e Félix Guattari na página 30 de Mil Platôs, capitalismo e esquizofrenia (vol. 1): “a erva existe exclusivamente entre os grandes espaços não cultivados”, palavras retomadas anos depois em Diálogos, onde há o encontro entre Deleuze e Claire Parnet: “Henry Miller: ‘a erva só existe entre os grandes espaços não cultivados. Ela preenche os vazios. Cresce entre – no meio das outras coisas. A flor é bela, a couve é útil, a papoila branca põe-nos loucos. Mas a erva é extravasamento, é uma lição de moral”. Assim como a erva, o vírus não tem nenhum enraizamento, extravasamento que é uma lição de moral.

Segundo o biólogo François Jacob, citado por Gilles Deleuze-Félix Guattari em Mil Platôs, capitalismo e esquizofrenia, vol. 1, p. 20, o vírus intermedeia as transferências de material genético de dois dessemelhantes ou entremeia as fusões de células saídas de espécies diferentes. Nesse movimento entre espécies desiguais, o vírus não tem começo nem fim, mas sempre um entre ou um meio pelo qual ele cresce e transborda. “Um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas”, escreve Deleuze-Guattari na página 37 do mesmo livro. Por movimentar-se entre o homem e o animal, acontece o devir-vírus da célula, que não é mais vírus, que não é mais célula, mas traça uma linha de fuga que, de alguma forma, desterritorializa o organismo conforme a composição corporal ou conforme a estrutura física entre dois seres: o humano e o vírus.

O rizoma não se manifesta na natureza, ele é natureza em estado de errância, podendo ser só pensado e compreendido por meio da ontologia do vago, parte da metafísica imanente, onde o ato de pensar sabe que as multiplicidades são rizomáticas, visto que as multiplicidades irrompem não em A e não em B, e sim na passagem entre A e B.

4. Natureza de Deus e política pública

Caso andemos em avenidas, em ruas e em ruelas, o Brasil tem muito mais igrejas do que escolas e universidades e, em cultos e em missas, dissemina –se a ideia de que é “a natureza de Deus”, por exemplo: por causa da natureza de Deus, só existem O homem e A mulher, sendo inadmissível um entre, isto é, nem é homem nem é mulher. A natureza de Deus, portanto, fixa e, porque fixa, a natureza, que é phýsis ou movimento, é o movimento que se fixou. Mas quem criou phýsis? Segundo os religiosos, Deus. Assim, como Deus criou phýsis, a natureza é O homem e A mulher, não existindo na natureza o Entre, ou seja, por não haver entre, a natureza de Deus não é movimento, mas a vida é movimento, “elã vital”. Ora, se é movimento, há mutações, e mutação viral, por exemplo, é um entre. 

Se somos semelhantes a Deus, somos semelhantes ao ser enquanto ser, o que implica dizer que as igrejas educam com a ideia de que, a partir da natureza de Deus, a moral humana não pode contrariar a verdade, que vocifera: “o homossexualismo não pertence à natureza de Deus, porque o homossexual é um erro”. Seguindo as trilhas dessa fé, as igrejas, então, propagam que o vírus não é coisa de Deus, e sim do diabo, pois é o mal que dissemina a desordem, o caos. Como a Filosofia é insignificante diante desse discurso religioso, permanece na sociedade a ideia deformada, em nome da fé, do que é natureza; e, por causa da extensão discursiva das igrejas em nossa sociedade, o signo natureza é problema polí-tico.

Por falar em política, as políticas públicas de saneamento neste “berço esplêndido”, depois dessa natureza viral, que atinge ricos e pobres, que paralisa o grande capital e o ambulante, que agride brancos e negros, igrejas e terreiros, devem servir bem mais a locais onde o ser humano tem esgoto à beira da janela; onde a natureza reage à poluição das lagoas, por exemplo, de Jacarepaguá e da Barra da Tijuca; onde brasileiros, humilhados e enganados por políticos corruptos, morrem por causa da natureza de outros vírus, por causa da natureza de bactérias, com a diferença de que tais vírus e tais bactérias, porque infectam mais pobres e negros, jamais receberam a fama social da Sars-CoV-2, que atravessou as protetivas barreiras sociais de brancos, da classe média e dos ricos. Se políticos brasileiros gostam de cantar o Hino Nacional às cegas perante problemas sociais gravíssimos, sendo que a característica de nosso hino é exaltar a pátria como quem exalta a natureza – “se em teu formoso céu, risonho e límpido/ a imagem do Cruzeiro resplandece” ou “nossos bosques têm mais vida” –, continuem a cantá-lo; com a certeza, porém, de que, só no Hino Nacional, a natureza não é rizomática. 

Aldo Tavares é livre-pesquisador do Ateliê de Humanidades, professor de filosofia e pesquisador na pós-graduação em filosofia da UERJ, onde pesquisa sobre a criança em Platão e em Nietzsche.


Como citar este artigo?
TAVARES, Aldo (2020), Vírus, um rizoma: ou quando a natureza de Deus e os bosques do Hino nada têm a dizer, Fios do Tempo (Ateliê de Humanidades), 27 de março. Disponível em: https://ateliedehumanidades.com/2020/03/27/fios-do-tempo-virus-um-rizoma-ou-quando-a-natureza-de-deus-e-os-bosques-do-hino-nada-tem-a-dizer-por-aldo-tavares/


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