Fios do tempo. Solidariedade e confiança são os melhores recursos para lidar com a crise – por Felipe Maia

Na série de debate sobre coronavírus no Fios do tempo, publicamos hoje artigo de Felipe Maia, que faz uma análise sociológica e política sobre a crise desencadeada pela pandemia de coronavírus. Neste excelente texto, Felipe Maia reflete sobre questões centrais: como a atual crise muda nossa forma de pensar a sociedade e agir coletivamente? Como ela impacta nossa conjuntura política e quais são as jogadas na mesa do atual governo (e também aquelas que se tornaram menos eficazes)? E principalmente, quais são os recursos disponíveis para que possamos lidar com esta pandemia, em busca de novos controles democráticos sobre nossa vida em comum que estejam à altura dos desafios de nosso tempo e de nossa sociedade?

Desejamos uma excelente leitura, ou escuta!

Fios do tempo, 23 de março de 2020
A. M.




Solidariedade e confiança são os melhores recursos para
lidar com a crise

Juiz de Fora, 21 de março de 2020

A pandemia do COVID-19 desafia nossas capacidades de compreensão do mundo. As melhores teorias nas ciências sociais têm enfatizado a conexão entre problemas de controle (uma realidade material que existe independente da interpretação humana) e a percepção sócio-cultural desses problemas. Nesta pandemia, autoridades políticas como Trump e Bolsonaro imaginaram que seria possível contornar os problemas de contágio do vírus com uma manipulação das “narrativas” que enquadram a percepção social, artifício em que vinham se provando mestres até aqui. Agora não mais, diante de um problema que se impõe, a liberdade de manipulação das narrativas se reduz, recua o poder da fraude, não há “guerra cultural” que vença o vírus.

No entanto, se problemas de controle de aspectos básicos da vida em comum se impõem, o modo como são percebidos e compreendidos define as possibilidades de resposta das sociedades humanas; no plano da linguagem são jogados os lances que procuram definir os problemas em categorias de interpretação que articulam a percepção social a formas de coordenar ações para sua “solução”, configurando novas (ou velhas) práticas sociais. E não sejamos ingênuos, esse esforço não é puramente cultural, a política e ainda mais “a força da lei” são mobilizadas para garantir senão a validade, ao menos a faticidade, enquanto realização das categorias de interpretação do mundo.

Isso porque o modo como vivemos e o modo como vemos o mundo já não são e não poderão ser os mesmos – proposição que a esta altura do campeonato, com milhões de seres humanos “em quarentena”, é senso comum, e não observação que justifique um artigo escrito. Melhor é apontar, ainda que de modo sumário e imperfeito, um pouco do que muda e que conflitos podem advir daí, a partir de uma observação teoricamente informada, com a esperança de ensejar o diálogo e o debate com outros e, quem sabe, alguma consciência pública dos problemas que vivemos e que estão por vir.

Antropoceno e neoliberalismo

Por certo, a relação entre natureza e sociedade mudou. A imagem de uma sociedade dos humanos autônoma e independente de uma natureza exterior, capaz de fundar suas próprias regras, que embalou o modernismo, desmancha no ar. A consciência do Antropoceno implica em outra postura, inclusive (ou a começar) pelos cientistas sociais, usualmente pouco afeitos a levar em conta o que não se define pelo “social”. O desafio do vírus, para aqueles que sobreviverem, é um presságio de outras irrupções de Gaia que não se submetem às tecnologias de controle até aqui desenvolvidas. A imprevisibilidade, como uma incerteza existencial, retorna em campo que já se imaginava controlado e solapa pressupostos fortes, ontológicos, da compreensão científica e leiga do mundo. Será preciso uma nova postura, mais humilde e conhecedora dos limites da ciência, pois se é com ela que podemos contar para evitar o pior, não se pode esperar da ciência, nem dos dispositivos tecnológicos disponíveis uma capacidade de controle pleno.

Os comandos de Donald Trump, notório “cortador” de recursos para pesquisas e desdenhoso de argumentos científicos bem estabelecidos, para que se produzisse imediatamente vacinas, ou suas tentativas de comprar a descoberta da vacina para usar apenas para os americanos são exemplos da catatonia cognitiva diante da mudança, uma passagem imediata do estado de negação para o desejo de restabelecer a ordem como “business as usual”.

Sintomática também é a condição dos economistas neoliberais que passaram anos acreditando que o interesse econômico era a mola única do movimento do mundo, sintetizado no vulgar e vulgarizado bordão “é a economia, estúpido!”, agora sem sentido, como bem notou Adam Tooze. Diante da pandemia, nenhum dos pressupostos da teoria neoclássica pode ser sequer cogitado, pois como pode o todo poderoso mercado exercer as funções de coordenação das ações humanas diante do vírus? O que se revela aqui é apenas a fragilidade e a artificialidade das “sociedades de mercado”, em completo desacordo com os textos clássicos da economia política que as justificavam como simplesmente “naturais”. Ao que parece é da natureza do vírus expor a artificialidade dos mercados.

Crise e coordenação da ação

Para a sociedade dos humanos a questão decisiva é a da coordenação das ações humanas de modo a evitar a catástrofe. E se já não se pode recorrer a uma tecnologia imediatamente disponível de controle da natureza, nem ao mecanismo pretensamente natural da “mão invisível”, que fazer? A resposta está longe de ser óbvia e é aqui que se dará o conflito mais importante. Durante e após a pandemia, haverá sem dúvida uma corrida para o Estado, o mecanismo de coordenação de recursos coletivos mais importante à disposição, mas há muitas formas de lidar com o Estado. E aqui, a posição alcançada por líderes autoritários no mundo contemporâneo potencializa os riscos. 

A crise no pensamento autoritário, quando não é de todo fictícia, é politicamente ficcionalizada para se constituir como uma ante-sala do estado de exceção. Bolsonaro, por exemplo, já não esconde suas intenções e cogita entre os seus pedir um “estado de sítio”, como se depreende de sua maliciosa afirmação de que “por enquanto” não pediria a excepcionalidade que, na Constituição brasileira, só poderia ser feita com a hoje improvável autorização do Congresso. A rigor, Bolsonaro nunca reconheceu outro mecanismo de coordenação de ações que não a força e a fraude. Um estado de sítio seria a fraude necessária para concentrar todos recursos de força no comando do poder Executivo. A saúde pública seria aí mera embalagem de um desejo de poder, até porque a força e a fraude nada podem diante do vírus. Pois o vírus não reconhece a fraude, como vimos com o contágio de boa parte da comitiva presidencial, talvez até do próprio presidente e dos fanáticos que apertaram sua mão no último 15 de março. Também a força, quando empregada de forma autoritária, pode pouco em sociedades complexas, plurais e individualizadas. Assim, como se não bastassem os problemas diretamente causados pela pandemia, ressurge um fantasma que imaginávamos ter exorcizado.

Mas, há decerto outros saberes sociais mais eficazes e menos lesivos para lidar com a pandemia e a crise, que dependem de outros recursos, notadamente a confiança e a solidariedade. Para tanto, o fundamental é a transparência e a disseminação de informações que possibilitem a compreensão da extensão do problema e da estreita interdependência entre saúde coletiva e saúde individual. É a isso que tem se dedicado um conjunto de profissionais, a despeito de comandos governamentais, que esclarecem a população leiga a respeito dos riscos pessoais e de estratégias de proteção individual e comunitária, estabelecendo redes de confiança diante da incerteza. Não é à toa que boa parte das medidas de distanciamento social tem sido voluntária, havendo inclusive protestos dos grupos de trabalhadores forçados a trabalhar em atividades não essenciais, como foi o caso de operadores de telemarketing.

Além disso, a pandemia revela que a saúde coletiva e individual depende materialmente de uma infraestrutura que não pode ser constituída senão de modo solidário. Estarão muito mais protegidos, independente de sua riqueza pessoal, os cidadãos de sociedades que construíram redes de saúde pública alargadas e eficazes que aqueles habitam sociedades que ignoram a dimensão coletiva dos problemas de saúde. No mesmo sentido, sairão menos dilaceradas da pandemia as sociedades que constituíram redes de proteção para lidar com o desemprego que aquelas que deixam os indivíduos por sua própria conta. Esses foram alguns dos aprendizados sociais e das conquistas institucionais mais relevantes que as democracias modernas, por mais imperfeitas que sejam, produziram. É com eles que podemos contar para atravessar este deserto e em momento mais favorável encontrar soluções mais duradouras para nosso modo de vida.


Felipe Maia é Professor e pesquisador da Universidade Federal de Juiz de Fora. É doutor em Sociologia pelo IESP – UERJ (2014), com pós-doutorado no CPDOC-FGV (2015). É coordenador do projeto de pesquisa “Crises e críticas: intelectuais, teoria e processos sociais” e do Grupo de Estudos em Teoria Social (UFJF). É também co-coordenador do Cartografias da Crítica: entre crítica, crise e reconstrução.


Fontes das imagens – imagem de capa: nome não identificado, pintura de Dieudonné Moukala (nascido em Linzolo, República democrática do Congo); imagem 1: Foto cartonizada e manipulada de Bolsonaro ao lado de Olavo de Carvalho em jantar nos Estados Unidos em Washington (17 de março de 2019) imagem 2: foto Aly Song/Reuters.


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