Declaração de Lima, ALAS (2019): Rumo a um novo horizonte de sentido histórico de uma civilização de vida

Publicamos, como forma de circulação de informação, a tradução para o português da Declaração da presidência do XXXII Congresso Internacional da Associação Latino-Americana de Sociologia (ALAS) – “Rumo a um novo horizonte de sentido histórico de uma civilização de vida”, que ocorreu no Perú entre 1 e 6 de dezembro.


Declaração da Presidência do
XXXII Congresso Internacional ALAS Perú 2019

Rumo a um novo horizonte de sentido histórico
de uma civilização de vida

Lima, Perú,
Q
uinta, 5 de dezembro de 2019

Vivemos uma etapa caracterizada pela crise de horizonte de sentido do sistema mundo capitalista moderno/colonial. A crise climática, ambiental, social e individual unida ao impacto devastador do modelo e política neoliberal aprofundam as desigualdades e exclusões. As formas mais perversas do capitalismo financeiro nos interpelam em nossas individuações, sociabilidades e identidade(s). Novas assimetrias. unidas ao impacto da revolução científico-tecnológica na vida, criam novas formas de organização. Diante destas mudanças, os sistemas se imobilizam, reformam ou transformam. É um momento histórico decisivo para toda a humanidade que exige urgentemente que se construa um novo horizonte histórico de sentido de uma civilização de vida.

A financeirização do capital, com seus traços globais e locais, unem ética, científica e socialmente os humanos. O paradigma neoliberal claudica por todo lugar, estabelecendo a exigência de imaginar uma nova concepção e modelo de desenvolvimento para a humanidade com políticas transversais de vida. Os movimentos sociais no mundo atual, como, por exemplo, o dos coletes amarelos na França, o movimento indígena do Equador, as insurreições no Haiti, o movimento social das classes médias, dos jovens e dos mapuches no Chile, a greve geral de ontem na Colômbia, exigem mínimas condições para poder viver.

A concentração e centralização financeira, que concentra a riqueza como nunca antes na história, unida ao desemprego estrutural que é produto da automatização, aprofunda as novas desigualdades e exclusões. Em um mundo onde “tudo o que é sólido se desmancha no ar”, as individuações e as sociabilidades, em seus corpos e emoções, anseiam por uma melhor qualidade de vida ou sofrem, em sua manipulação midiática, novos transtornos psicossociais em movimentos vitais entre a exaltação e/ou as violências destrutivas. É a modernidade líquida (Bauman) ou a crise da identidade do self (Touraine), que destrói todo o imaginário e a prática coletiva de vida, fragmentando-a de modo a só restar como mercadorias descartáveis.

O paradigma racionalista colapsa pois não permite dar sentido à vida, portanto, não permite compreender e explicar sociologicamente o mundo que vivemos. Nosso XXXII Congresso nos reuniu precisamente para imaginar, diante desta crise radical, um horizonte de sentido histórico de ser, saber e poder a partir de nossas diversidades e experiências. Visamos construir uma sociologia que não se contente pragmaticamente em se converter apenas em uma engenharia social que manipula friamente indicadores empíricos de acordo com determinados interesses, mas sim que vive, reflete, compreende e explica as profundas mudanças e transformações presentes, unindo ciência, tecnologia e técnica a serviço da vida. Uma nova cultura de vida científica que, ao não divinizar a natureza, nem tampouco instrumentalizá-la, valora e mede os riscos de suas descobertas e aplicações organizando a vida com a melhor qualidade de vida para nossos povos e sociedades.

As sociologias da modernidade clássica, contemporânea e atual voltam a se repensar à luz das novas situações e problemáticas e, prospectivamente, constroem novas teorias. Modelos que, em sua complexidade e simplicidade, não se deixam subordinar a sistemas inteligentes de poder que perpetuem a exploração e a subordinação, mas buscam seguir descobrindo as causas estruturais e cotidianas da vida social em toda sua objetividade, subjetividade e mundos simbólicos. Uma nova institucionalização da sociologia como ciência e vocação é uma permanente mudança e inovação.

Uma sociologia transcultural que, desde nossas próprias experiências da América Latina e do Caribe, e estreitamente unidas às outras experiências do mundo, apostem na construção de uma ciência social como política global de vida. Um nós que, como escrevera José Carlos Mariátegui em seu tempo, seja “criação heróica” que, “sem decalque nem cópia”, continue com a tarefa da “vontade de criar um Perú novo dentro de um mundo novo”; ou, nas admiráveis palavras de Aníbal Quijano: “Estamos, por isso, andando na emergência de uma identidade histórica nova, histórico/estruturalmente heterogênea como todas as demais, mas cujo desenvolvimento poderia produzir uma nova existência social liberada de dominação/exploração/violência, a qual está no coração mesmo da demanda do Foro Social Mundial: Outro mundo é possível” (Quijano, 2014)

Jaime Ríos Burgos
Presidente do XXXII Congresso ALAS

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