Fios do Tempo. A porta de Marielle, por Elton Luiz Leite de Souza

No Fios do tempo: análises do presente publicamos hoje artigo de Elton Luiz Leite de Souza, colaborador periódico desta tribuna. Nele, o autor se pergunta sobre qual mensagem porta a porta de Marielle, deslocada de seu gabinete para a exposição do Museu da Maré. Ao aproximar a porta do gabinete daquela do mito de Hermes, Elton Leite interpreta o símbolo expresso neste objeto aparentemente trivial,  que expressa o ser de Marielle e, na mesma medida, simboliza um modo humano de fazer a travessia neste mundo; e que não pode ser esquecido.

Pela ação de Marielle, aquela porta continha uma potencialidade de sentidos. E “potencialidade de sentidos” é o outro nome pelo qual atende a poesia enquanto prática de ressignificar as coisas e o mundo. Pois poesia não é só versos: poesia também é produção de sentidos que podem transformar uma simples porta em um agente coletivo de enunciação.


A porta de Marielle

Rio de Janeiro, 26 de outubro de 2019

No Museu da Maré há um espaço  dedicado a Marielle Franco. Na exposição que leva seu nome, foi escolhido um objeto singular para nos fazer lembrar a vereadora: nada mais nada menos do que a porta do seu gabinete. Enquanto era parte de seu gabinete, a referida porta era muito diferente de uma porta habitual, pois Marielle costumava colar mensagens nela, além de sempre mantê-la aberta àqueles que vinham procurar por sua ajuda. 

Pela ação de Marielle, aquela porta continha uma potencialidade de sentidos. E “potencialidade de sentidos” é o outro nome pelo qual atende a poesia enquanto prática de ressignificar as coisas e o mundo. Pois poesia não é só versos: poesia também é produção de sentidos que podem transformar uma simples porta em um agente coletivo de enunciação. Quando um objeto é parte da produção de sentidos, ele deixa de ser coisa inerte e se torna expressão de um mundo, ao mesmo tempo objetivo e subjetivo, tangível e intangível. Transportada então para o interior do Museu da Maré, aquela porta se tornou um símbolo-mensagem do próprio ser de Marielle: porta aberta, receptiva, como seu sorriso. 

Não por acaso, na mitologia era sob uma porta aberta, espaço de travessias, que se manifestava Hermes, a divindade associada à comunicação das mensagens que requerem a prática da interpretação. Em grego, “interpretação” se escreve “hermenêutica”: “atividade relativa a Hermes”. Mensagem não é a mesma coisa que informação. “A capital do Brasil é Brasília”, “dois mais dois é igual a quatro”, tais coisas não são mensagens. Mensagem é tudo aquilo cujo sentido requer a atividade de interpretação: “A palavra abriu o roupão para mim: ela quer que eu a seja”, este verso de Manoel de Barros não é informação, é mensagem. “O homem é um animal político”, outra mensagem. Mensagem não é para se decorar ou reproduzir, mensagem é para despertar nosso pensar e nosso sentir para aprendermos a ler mais do que frases ou palavras, e assim lermos também o mundo. Nem sempre mensagens se vestem com palavras, às vezes as mensagens vêm inscritas nas coisas ou são as próprias coisas portando sentidos a serem interpretados. Enquanto objeto exposto, a porta de Marielle é mensagem que simboliza o sentido da travessia e da abertura ao outro, sobretudo ao outro que é marginalizado, injustiçado, explorado, perseguido. 

Os Museus Casa são espaços que já foram residência, quase sempre palácios e mansões, em geral de gente oriunda da elite. O museu Casa de Rui Barbosa, por exemplo, foi a casa de verdade de Rui Barbosa. Mas pessoas do povo como Cartola, Nelson Sargento, Lima Barreto, Maria Carolina de Jesus,  e tantos outros, não tiveram casa para ser patrimônio musealizado. A casa deles é a favela, a cultura popular, a resistência, a criatividade e a inventividade do povo que luta. A porta de Marielle é parte de uma casa assim: uma casa plural, aberta, heterogênea.

Os assassinos de Marielle obstruíram covardemente seus passos. Mas a porta que ela simboliza, enquanto abertura à justiça, à educação e à cultura, esta porta nós não podemos deixar fechar.

Elton Luiz Leite de Souza
Professor da UNIRIO e da FSB-RJ


Fios do Tempo

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