Fios do tempo. Sobre os fios – por Elton Luiz Leite de Souza

O Fios do tempo: análises do presente publica, neste sábado, artigo de Elton Luiz Leite de Souza, que estreia como colaborador periódico de nossa tribuna. Com toda sua cultura filosófica e mitopoética, Elton Leite nos nodela em uma reflexão sobre a imagem de pensamento que norteia este espaço de análises: o que são os fios? Como eles se nodelam em nossa experiência? O que significa nos fiar nos fios de nosso tempo?

Desejamos um intensa experiência de leitura desta bela peça literária.


Sobre os fios

Rio de Janeiro, 31 de agosto de 2019

Pensamos em novelo.

Maria Gabriela Llansol

Há uma rica simbologia acerca da ideia de “fio”. Em primeiro lugar, não se deve confundir um fio com uma linha que se traça com réguas, sobretudo se for uma linha reta. Como diz o poeta Manoel de Barros, “uma linha reta é uma curva que não sonha”. Linhas traçadas com régua partem de um ponto, o seu início, e terminam em outro ponto dito final. Entre esses dois pontos, encontra-se uma quantidade indefinida de pontos , todos exteriores uns aos outros. A linha é feita de descontinuidades.

mesmo não acontece com um fio. Todo fio possui uma extremidade visível, tangível, assim chamada de “ponta”, ao passo que a outra extremidade do fio se encontra enrolada em um novelo do qual puxamos o fio. Todo novelo é uma virtualidade que se desdobra em fio. Não importa se é o fio de um cabelo, o fio de uma narrativa, o fio do tempo ou o fio de uma vida: todo fio nasce de um novelo-fonte, de um novelo-nascente, tal como os rios que nascem de um minadouro ou os fios de luz que se desprendem do sol. Ao contrário da linha traçada com régua, cujo ponto inicial é precedido por nada, todo fio permanece sempre ligado “à origem que renova”(Manoel de Barros) , de tal modo que seu desdobrar nunca acaba.

Um fio não é feito de pontos descontínuos , mas de uma força ou potência contínua que persevera brotando de si mesma. Na mitologia, o “Fio de Ariadne” é o símbolo arquetípico de todo fio. Em grego, “Ariadne” significa “Aranha”. Assim como a aranha puxa o fio de seda de dentro de si mesma, o fio de Ariadne , fio do afeto, é puxado do seu ventre sempre fértil. O fio de Ariadne é necessário para aqueles que precisam vencer labirintos e produzir “linhas de fuga”, como diz Deleuze. O fio de Ariadne também é o fio do sentido que liga uma palavra à outra, para assim narrar mundos. Um fio parece pouco, quase nada, mas às vezes é ele que nos salva quando estamos perdidos, com régua na mão.

Há casos em que o fio se encontra escondido, sendo preciso redescobri-lo. Arthur Bispo do Rosário, enquanto interno de um hospital psiquiátrico, era vestido com uniformes homogêneos. Mas certa vez ele desfez a forma dos uniformes até achar o fio de que eles eram feitos. Com esse fio primordial e ancestral, Arthur Bispo do Rosário bordou sua história, conseguindo expressar o que tinha de singular e vivo. Cada bordadura reatava o fio de sua existência ao novelo da experiência humana, e assim Arthur emendava o fio que a loucura e o poder cortaram.

“Novelo” significa “novo elo”. Esta é a razão de ser dos fios, sobretudo “os fios do tempo”: possibilitar novos elos, novos agenciamentos e alianças, para assim irmos além da descontinuidade solitária, ensimesmada, dos pontos-egos.

Elton Luiz Leite de Souza

Professor da Unirio e da FSB-R

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