Cadernos do Ateliê. “Outra Ciência é possível!” Uma apelo à Slow Science, por Isabelle Stengers

O Ateliê de Humanidades é uma iniciativa que parte de um diagnóstico sobre as crises de nosso tempo, incluindo a do pensamento, da cultura e das universidades; nossa instituição de livre estudo e pesquisa é fundada em ideias e valores fortes, vistos como um norte e uma resposta às crises. Neste sentido, nosso Plano de convergência Entre humanismo, pragmatismo e complexidade: educação, cultura e trabalho no século XXI nos é central, pois oferece uma autorreflexão constante sobre onde estamos, o que somos, o que queremos e para onde temos que ir.

Lançamos agora nos Cadernos do Ateliê uma primeira série que traz textos, traduzidos e inéditos, que permitam diagnosticar nosso tempo, ao mesmo tempo que refletir sobre o Ateliê e seus valores. No primeiro fascículo, iniciamos com a proposta, à qual nos vinculamos, de uma slow science. Após termos publicado no nosso site uma tradução do Manifesto por uma slow science, trazemos agora o texto da filósofa e historiadora da ciência Isabelle Stengers, “’Outra Ciência é possível!’: Um apelo à Slow Science”, com tradução e apresentação de Maryalua Meyer e André Magnelli.

Aproveitamos para agradecer à Isabelle Stengers e à editora La Découverte por terem gentilmente nos autorizado a publicação deste ensaio

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‘Outra Ciência é possível!’ Um apelo à Slow Science

Isabelle Stengers[1]

Há alguns anos, muitas dissertações acadêmicas foram escritas sobre os direitos das futuras gerações em relação ao caráter insustentável do que chamamos de desenvolvimento. Mas agora percebemos que o futuro está vindo em nossa direção a toda velocidade. Pode-se dizer que nós, que estamos aqui, estamos na posição de imaginar como responderemos àqueles que não estão aqui, mas que, no entanto, já existem. O que diremos às crianças nascidas neste século quando perguntarem: “Você sabia tudo o que precisava saber; o que você fez? Qualquer adulto hoje pode imaginar ser perguntado sobre essa questão. No entanto, como acadêmicos, eu diria que estamos em uma posição especial.

Pode acontecer de fato que algumas pessoas, fora da academia, estejam confiantes de que nós, que somos selecionados, treinados e pagos para pensar, imaginar, antever e propor, estamos de fato fazendo isso em relação ao futuro que encaramos. E também pode haver jovens entrando na universidade com a estranha esperança de obter uma melhor compreensão do mundo ameaçador em que vivemos.

Podemos consentir com essa confiança e permitir que o poder nos afete? Ou responderemos com o triste conto de que estamos, ou estivemos, muito ocupados com as exigências implacáveis a que agora temos que nos conformar para sobreviver?

Não estou falando aqui apenas da economia do conhecimento e do imperativo de produzir conhecimento que interessa aos competitivos jogos de guerra do mundo corporativo. Mesmo os campos acadêmicos que não produzem patentes agora foram submetidos ao imperativo geral da avaliação de benchmark. Eles têm que aceitar o julgamento de um pseudo-mercado acadêmico governado pela concorrência cega.

Em resumo, devemos admitir que fomos compelidos com sucesso a entregar uma grande parte de nossa liberdade de nos engajarmos em dissensos. Agora, temos que dizer aos nossos alunos para escolherem assuntos que levarão à publicação rápida em revistas de alto nível, especializadas em questões profissionalmente reconhecidas – questões que, em geral, não interessam a ninguém, exceto outros colegas de publicação rápida. Temos que lhes dizer que, se quiserem sobreviver, precisam aprender a se conformar aos quadros normativos impostos por essas publicações.

Então, meu primeiro ponto é: seja qual for o futuro, as instituições de pesquisa não estão preparadas para formulá-lo, ou mesmo vislumbrá-lo, de uma maneira que satisfaça a confiança que algumas pessoas ainda possam ser ingênuas o suficiente para colocar em nós.

Mas também sabemos que, em todos os lugares, os mesmos processos de desempoderamento estão em ação. Em todos os lugares, um corte semelhante é introduzido, separando pessoas e coletivos de sua capacidade de vislumbrar, sentir, pensar ou imaginar. Em todos os lugares, o mesmo tipo de ataque foi lançado, o que pode ser caracterizado como uma forma de feitiçaria que obstinada, furtiva e perversamente paralisa nossa capacidade de resistir.

É por isso que, diante de nossa falta de resistência, não falarei de culpa. Prefiro falar em vergonha, lembrando a observação de Gilles Deleuze de que “o sentimento de vergonha é um dos motivos mais poderosos da filosofia”.[2] Tal motivo pode ser estendido muito além da filosofia, para todos nós que sentimos essa vergonha.

Afirmaria que o tipo de futuro que enfrentamos cria o que William James chamou de “opção genuína”[3], uma opção que não pode ser evitada porque não há lugar para ficar fora das alternativas de consentir ou recusar o desafio que ela oferece.

O processo de destruição da academia não é, em si mesmo, suficiente para criar tal opção. Há dez anos, eu estava pronta para admitir que ela era uma instituição moribunda, merecendo fortemente seu destino. Hoje, no entanto, essa destruição pode ser vista, juntamente com inúmeras outras destruições, como uma erradicação sistemática de recursos que poderiam se dirigir ao futuro, cortando sistematicamente nossa capacidade de pensar, ou seja, de escapar do desespero e do cinismo. De um jeito ou de outro, muito do que está sendo destruído pode ser caracterizado, como a academia, como merecedora de seu destino, mas o significado de tal caracterização mudou. Tornou-se uma maneira de recusar o desafio pelo qual somos confrontados.

Eu nomearia esse desafio de “barbárie”, como o resultado mais provável do que está acontecendo hoje.[4] Já sabemos o sabor dessa barbárie, nas medidas ditas “difíceis mas infelizmente necessárias”, que autoridades de todos os tipos demandam que aceitemos, com consequências que teriam julgado impensáveis ontem. Tais consequências, que já sabemos muito bem, só se multiplicarão e se intensificarão no futuro. Isso está apenas começando.

Aceitar que se deve pensar, sentir e imaginar a necessidade de enfrentar a barbárie significa recusar a ideia de que outras figuras mais merecedoras cheguem para virar a mesa. Hoje, as perspectivas messiânicas são tentadoras, até mesmo na moda, mas esperar a salvação de algum Grande Outro [Great Outside] só nos joga nas mãos da barbárie, evitando o desafio que nos é endereçado agora.

Minha intervenção toma “slow science” como um nome para o desafio que é endereçado a nós como acadêmicos. Um nome que inclui também uma armadilha à que temos que resistir; ou seja, o clamor de um acordo “para voltar ao passado”, conforme expresso pelo The Slow Science Manifesto, discutido no capítulo anterior.[5] Como vimos lá, ele conclui pedindo a uma audiência não especificada que deixe os cientistas em paz: “Não podemos dizer continuamente o que nossa ciência significa e à qual bem ela serve, porque simplesmente não sabemos ainda. A ciência precisa de tempo. — Fique com a gente, enquanto nós pensamos”.[6]

Resistir ao consenso sempre nos expõe a risos[7], mas vou expor minha posição ainda mais, ousando defender a definição da tarefa da universidade dada pelo matemático e filósofo Alfred North Whitehead em 1935:

A tarefa de uma universidade é a criação do futuro, na medida em que o pensamento racional e os modos civilizados de apreciação possam afetar o assunto. O futuro é grande com todas as possibilidades de conquistas e tragédias.[8]

Podemos rir, na verdade, porque é fácil demais desconstruir a ideia de que as universidades já tiveram essa tarefa. Mas este é precisamente o significado da noção de William James de uma opção genuína. Como observei anteriormente, a destruição da academia não é em si mesma suficiente para criar essa opção. Aqueles acadêmicos que apenas pedem tempo para pensar – que não nomeiam quem os pressiona, preferem abordar a “sociedade” e pedir proteção – não sentem que existe uma opção em absoluto. Eles apenas sonham com um passado onde eles, e o chamado conhecimento desinteressado que eles produziram, eram respeitados. A opção de “nos expor a zombadores” exige que aceitemos que nós, acadêmicos, somos, entre muitos outros, convocados a nosso papel na criação do futuro. Não podemos evitar esse apelo alegando que não merecemos desempenhar esse papel.

Além disso, o que acho interessante na proposta aparentemente inócua de Whitehead é que ela não associa o futuro nem ao avanço do conhecimento nem ao progresso, mas sim à incerteza radical. Não sabemos o que será o nosso futuro, nem sabemos se, ou em que medida, o que ele chama de pensamento racional e modos civilizados de apreciação podem afetar o assunto. Mas é por isso que sua proposta é relevante hoje, mais do que nunca.

Primeiramente, enfatizarei que, já em 1935, a proposta de Whitehead era algo como um apelo. De fato, o que o transformou do matemático que era para o filósofo em que ele se tornou não pode ser desvinculado de seu profundo sentimento de ansiedade sobre os efeitos do que ele caracterizou como uma descoberta importante que marcou o século XIX:

a descoberta do método de treinamento de profissionais, que se especializam em determinadas regiões do pensamento e, assim, progressivamente adicionam à soma do conhecimento dentro de suas respectivas limitações de assunto.[9]

Deixe-me esclarecer, desde o início, que o ponto não é criticar a especialização ou a abstração. Whitehead era um matemático e, para ele, você simplesmente “não pode pensar sem abstrações”. Ele nunca teria criticado o modo como as ciências abstraem o que importa para cada uma delas de um mundo sempre emaranhado. No entanto, para ele, a racionalidade não era a capacidade de abstração, mas sim a capacidade de ser vigilante sobre as abstrações de alguém, de não ser cegamente conduzido por elas. Como devemos lembrar, uma boa artesã não sabe apenas como usar suas ferramentas, e não olhará para uma situação em termos das exigências da ferramenta específica a que está acostumada. Em vez disso, ela julgará a adequação da ferramenta para a situação. Para Whitehead, é o mesmo com o exercício do pensamento – você precisa estar atento aos seus modos de abstração. Essa vigilância é precisamente o que falta entre aqueles que Whitehead caracteriza como profissionais, com suas “mentes em um ritmo”:

Cada profissão progride, mas é progresso em seu próprio ritmo… O ritmo evita a dispersão pelo país, e a abstração abstrai de algo para o qual nenhuma atenção adicional é dada… Claro, ninguém é meramente um matemático ou apenas um advogado. As pessoas têm vidas fora de suas profissões ou seus negócios. Mas o ponto é a restrição do pensamento sério dentro de um ritmo. O restante da vida é tratado superficialmente, com as categorias imperfeitas de pensamento derivadas de uma profissão.[10]

Como tal, os profissionais, pessoas fixadas com deveres fixados, não são novidade no mundo. No entanto, continua Whitehead:

no passado, os profissionais formaram castas não progressivas. A questão é que o profissionalismo agora está associado ao progresso. O mundo agora se depara com um sistema de auto-evolução, que não pode parar.[11]

Não se pode parar os relógios, como Pascal Lamy[12] uma vez observou.

Embora Whitehead não se oponha à especialização dos profissionais, ele os caracteriza como “falta de equilíbrio” [lacking balance]. Seu treinamento, enquanto negligencia “fortalecer os hábitos de apreciação concreta dos fatos individuais em sua interação plena de valores emergentes”[13], deixa-os presos ao poder de um conjunto particular de abstrações, promovendo um valor particular. Prefiro a formulação da “falta de equilíbrio”, por sua afinidade com a imagem do “sonâmbulo”, que acompanhou a invenção do método de formação de cientistas e profissionais durante o século XIX, no momento em que estava sendo inventada o que chamo de “fast science”. O apelo de Whitehead a respeito da tarefa das universidades visava também a um “abrandamento” da ciência[14], que é a condição necessária para pensar com abstrações em vez de obedecê-las.

Volto agora para a invenção desse tipo de treinamento, que se tornou o modelo geral em nossas universidades. É notavelmente ilustrado pela redefinição radical de Justus von Liebig do que é ser um químico.

No verbete “química” da Enciclopédia de Diderot e d’Alembert, o químico Gabriel François Venel caracterizava a química como uma paixão “louca” [madman passion]. Demorou uma vida inteira, ele escreveu, para adquirir o conhecimento prático e a capacidade de dominar a grande variedade de operações químicas sutis, complexas e muitas vezes perigosas pertencentes às muitas artes ou ofícios da química, desde a dos perfumistas até a dos metalúrgicos ou os farmacêuticos. No laboratório de Liebig, por outro lado, um estudante obteria seu doutorado após quatro anos de treinamento intensivo. No entanto, ele não aprenderia nada sobre esses muitos ofícios tradicionais e suas operações. Ele usaria apenas reagentes purificados e bem identificados, e protocolos padronizados, e aprenderia apenas os mais recentes métodos e técnicas instrumentais. Liebig foi nomeado o ‘criador químico’, devido às centenas de estudantes que foram treinados em seu laboratório em Giessen entre 1824 e 1851. Muitos fundaram laboratórios universitários similares, enquanto outros desempenharam um papel crucial na criação do laboratório da nova indústria química. A invenção de Liebig daquilo que podemos chamar de “química rápida” implicou um corte que dividiu não a química pura e aplicada, mas sim todo o continente de artesanato químico de um lado e, de outro, a pesquisa acadêmica e a nova rede de química industrial, os dois entretendo uma nova relação simbiótica, como cada um precisava e alimentava o outro.

A simbiose, no entanto, é um equilíbrio que deve ser mantido. É impressionante que Liebig, que desempenhou um papel muito importante no desenvolvimento da química industrial, também se tornou, desde 1863, um promotor apaixonado da necessidade de pesquisa acadêmica pura e autônoma. Ele é o pai do que hoje chamamos de “modelo linear”, junto com o famoso argumento do “ganso que colocou o ovo de ouro”: é de seu interesse que a indústria mantenha distância da pesquisa acadêmica, deixando a comunidade científica livre para determinar suas próprias questões, porque somente os cientistas podem dizer, a cada passo, quais questões serão frutíferas, o que levará a um rápido desenvolvimento cumulativo e que resultará apenas em alguma reunião empírica de fatos que não levem a parte alguma. Para a indústria ditar suas próprias questões, seria como matar o ganso e perder os ovos.

Ouvimos múltiplas variáveis do mesmo argumento, como um lema para o arranjo que muitos cientistas associam à Idade de Ouro, quando a ciência foi reconhecida como uma fonte gratuita de novidades que levariam à inovação industrial, beneficiando em última análise toda a humanidade. No entanto, alguns aspectos do argumento raramente são desenvolvidos. O primeiro é a divisão, uma verdadeira divisão de classes, entre cientistas que trabalham em território acadêmico protegido e aqueles que, ao vender sua força de trabalho à indústria, geralmente têm negadas a autonomia e a liberdade de contribuir para o conhecimento público. O segundo é que o ganso com a metáfora do ovo de ouro esconde um aspecto importante do papel que o cientista treinado desempenha agora como um profissional rápido da ciência.

A história oficial é que o ganso põe seus ovos e fica feliz em saber que alguns deles ficaram dourados, em termos de desenvolvimento industrial. Ela espera que isso acabe resultando em benefícios para a humanidade, porém não pode ser responsabilizada por qualquer abuso. Ela insiste que sua única lealdade é, e deve ser, para o avanço do conhecimento e, assim, escreveu Whitehead, ela tem o direito de tratar o restante “superficialmente, com as categorias imperfeitas de pensamento derivadas da [sua] profissão”. Isso corresponde à imagem da “torre de marfim” da ciência acadêmica, e é reforçada pela outra imagem atual da criatividade científica, a do sonâmbulo caminhando em um cume estreito, sem medo ou vertigem, porque ele é cego para o perigo. Pedir aos cientistas criativos que se preocupem ativamente com as consequências de seu trabalho seria o equivalente a despertar os sonâmbulos, conscientizando-os de que o mundo está longe de obedecer às suas categorias. Atingidos pela dúvida, eles cairiam do cume para o pântano de opiniões turvas. Isto é, eles estariam perdidos para a ciência. Essa imagem da criatividade científica como, nos termos de Whitehead, intrinsecamente sem equilíbrio, está profundamente enraizada na educação científica rápida. De um modo ou de outro, explicitamente ou não, os cientistas aprendem que as questões que dizem respeito ao mundo mais amplo, o mundo onde os ovos de ouro farão a diferença, devem ser globalmente definidas como “não-científicas”, mesmo que tais questões sejam objeto de muito trabalho científico em outros departamentos que lidam com problemas culturais, sociais ou econômicos. O interesse no mundo em que vivemos se torna uma forma de tentação de que os pesquisadores que “foram eleitos”[15] sejam capazes de resistir.

A fast science não se refere tanto a uma questão de velocidade, mas ao imperativo de não desacelerar, de não perder tempo, ou então…. Pode ser tentador associar a esse “outro”, que evoca a perspectiva de uma queda, com as exigências nobres de uma vocação, que os cientistas trairiam se não dedicassem toda a sua vida ao seu cumprimento. No entanto, a forma como essa tão chamada devoção é obtida e mantida, através de um treinamento que canaliza atenção e ansiedade ao mesmo tempo que restringe a imaginação, não tem nada de nobre nisso. O que Whitehead chamou de “treinamento de profissionais” refere-se, antes, ao tipo de anestesia induzida, gerada por um exército mobilizado em movimento, onde o imperativo é ir o mais rápido possível. Tal exército não vagueia nem se surpreende. O imperativo significa que a paisagem por onde ele passa não será de interesse algum, apenas os obstáculos que ele tem para se movimentar. Aqueles no exército que se queixam do dano que o seu avanço causa (destruir colheitas, roubar mercadorias, estuprar mulheres…) certamente não têm as coisas certas. Essas coisas não devem retardar o avanço. Os soldados devem esquecer seus apegos às suas próprias colheitas, bens e esposas. Da mesma forma, os cientistas descartam uma questão como “não científica”.

Deste ponto de vista, os biólogos que defendem os OGMs [organismos geneticamente modificados], por exemplo, podem se sentir justificados em afirmar ter encontrado uma solução racional para o problema de alimentar os famintos, ignorando silenciosamente as causas sociais e econômicas da fome no mundo. Eles apenas se mostram como verdadeiros cientistas, ignorando tudo o que poderia atrasá-los ou colocar obstáculos no caminho do progresso possibilitado por seus ovos de ouro.

Mas este último exemplo é também suficiente para revelar o que a história oficial escondeu. Nunca houve uma torre de marfim para o ganso com os ovos de ouro. A valorização de seu trabalho, o elo com aqueles capazes de transformar seus ovos em ouro, sempre fez parte da atividade de cientistas acadêmicos, ainda que, como Pasteur ou Marie Curie[16], seu nome esteja associado à pesquisa desinteressada. O ganso é também um estrategista empreendedor. Ela está à procura daqueles que podem tirar consequências douradas do que ela estabeleceu. O que caracteriza a fast science não é isolamento, mas trabalhar em um ambiente muito rarefeito, um ambiente dividido em aliados que importam e aqueles que, sejam quais forem suas preocupações e protestos, precisam reconhecer que são os destinatários finais dos benefícios dourados e, portanto, não devem perturbar o progresso da ciência. Já quando fez o corte entre as artes e ofícios da química e a química-em-atividade, Liebig eliminou também das preocupações sociais e práticas em que essas artes e ofícios estavam incorporadas[17] e às quais respondiam. Os únicos verdadeiros interlocutores para os novos químicos acadêmicos, os únicos que entendiam sua linguagem, eram agora aqueles que habitavam o mundo industrializado, também em formação.

E isso ainda corresponde ao equipamento intelectual que o treinamento em fast science contemporânea fornece aos cientistas. Eles irão facilmente dividir uma situação em suas dimensões supostamente objetivas ou racionais e o que seria simplesmente uma questão de complicações contingentes e arbitrárias. E as dimensões que correspondem às categorias da fast science são mais naturalmente aquelas que são relevantes para o desenvolvimento industrial, já que ambas concordam em ignorar o mesmo tipo de complicações. Nenhuma mobilização direta por parte dos interesses industriais é necessária aqui; somente esta relação simbiótica entre dois modos de abstração.

Mas hoje, até isso não é mais suficiente para os antigos aliados da fast science. A economia do conhecimento está agora destruindo a casa em que o ganso dos ovos estava protegido. A relativa autonomia da pesquisa científica, assegurada por Liebig e seus colegas, pertence ao passado. Alguns podem ser tentados a afirmar que nunca existiu, dada a íntima conexão entre a ciência acadêmica acelerada e a indústria. Eu discordo, e afirmo que o que está em processo de destruição é o próprio “tecido social” da confiabilidade científica. No futuro, poderemos ver cientistas trabalhando em todos os lugares, produzindo fatos na velocidade que nossos novos instrumentos sofisticados possibilitam; mas a forma como esses fatos serão interpretados estará, em grande parte, de acordo com a paisagem dos interesses investidos.

Como todos os cientistas que trabalham sabem, se uma afirmação científica pode ser verdadeira como confiável, não é porque os cientistas são objetivos, mas sim porque a alegação foi exposta às exigentes objeções de colegas competentes, preocupados com sua confiabilidade. E é essa preocupação compartilhada que pode muito bem ser destruída se esses colegas forem ligados principalmente a interesses industriais, isto é, limitados pela necessidade de manter as promessas que atraem seus parceiros industriais.

A máxima que pode bem prevalecer, então, é que você não corte o ramo em que está sentado junto com todos os outros. Ninguém se oporá muito se as objeções à fraqueza de uma reivindicação particular levarem a um enfraquecimento geral das promessas de um campo. Vozes dissidentes serão então desclassificadas como visões de minorias que não precisam ser levadas em conta, pois representam problemas desnecessários. O que acontecerá, então, já tem um nome: a “economia prometida”, na qual o que une os protagonistas não é mais um ovo científico confiável que pode se tornar ouro para a indústria, mas possibilidades cintilantes cuja força ninguém está interessado em avaliar por mais tempo. Em outras palavras, sob o disfarce da “economia do conhecimento”, a economia especulativa, a economia da bolha e do colapso, conseguiu recrutar a produção de conhecimento científico.

É por isso que podemos simpatizar com o sonho do Manifesto da Slow Science de um retorno à Idade de Ouro, quando a autonomia da pesquisa científica era respeitada. Porém temos que lembrar que, embora a autonomia da fast science possa ter protegido a confiabilidade das afirmações científicas, nunca garantiu a confiabilidade de um modo de desenvolvimento que agora somos vergonhosamente forçados a reconhecer como tendo sido, e ainda sendo, radicalmente insustentável. Isto não é de forma alguma um acidente. A confiabilidade dos resultados da fast science é relativa a experimentos de laboratório purificados e bem controlados. E as objeções competentes são competentes apenas em relação a tais ambientes controlados. O que significa que a confiabilidade científica está situada, ligada às restrições de sua produção. O que significa também que, quando os ovos deixam seu ambiente nativo e se tornam dourados, eles terão deixado para trás essa confiabilidade e robustez específicas. A pergunta sobre qual é a confiabilidade que eles têm agora não é mais apenas uma questão de julgamento científico, mas sim uma questão social e política.

Por exemplo, os aviões são seguros o suficiente por causa da existência de um consenso sobre a necessidade de evitar colisões a todo custo. Em contraste, a preocupação com a sustentabilidade de nosso modo de desenvolvimento, que está longe de ser nova, até recentemente foi tudo, menos consensual. As pessoas que se opunham a essas razões nem sequer foram ouvidas, mas foram atacadas e ridicularizadas como se elas quisessem nos mandar de volta para a caverna! Não há dúvida de que o serviço prestado foi pago ao fato de que algumas inovações podem ter consequências indesejadas, mas, acrescentou-se, o progresso tecnocientífico está fadado a encontrar uma maneira de consertar o dano. Duvidar disso é duvidar do progresso! E, como sabemos, essa dúvida é blasfêmia. Aqui, podemos reconhecer um eco do ponto de vista de Whitehead sobre o pensamento profissional ser preso em um ritmo, enquanto que o restante da vida é tratado superficialmente. E a resposta de vários cientistas é muito superficial quando afirmam que não têm culpa pela sustentabilidade não ser uma preocupação pública, pois eles não poderiam ser responsabilizados pela maneira como a “sociedade” decide usar o que eles produzem. Essa é a resposta típica do ganso. Como de costume, ignora o fato de que o alegado uso irresponsável de seus produtos nunca impediu cientistas acadêmicos de associar o progresso científico ao progresso social; de juntar-se aos insultos “de volta à caverna”; de apresentar sua ciência como oferecendo, enfim, soluções racionais para problemas de interesse geral; ou de formular objeções em termos de uma simples oposição entre ciência e valor – como se todos os aspectos de uma situação concreta com a qual eles não estivessem preparados pudessem ser reduzidos a uma questão de valor! Para colocar de forma educada, não temos memória de um clamor coletivo de cientistas escandalizados, denunciando publicamente um de seus colegas por se entregar a tais pretextos.

Mas a slow science não é – enfaticamente não – sobre o ganso se tornar uma inteligência onisciente, capaz de visualizar as consequências das inovações que sua ciência torna possível. Pelo contrário, coincide com a definição, aparentemente modesta, dada por Whitehead a respeito do que as universidades deveriam promover: o pensamento racional e os modos civilizados de apreciação. Pensamento racional significaria estar ativamente lúcido sobre o que é realmente conhecido, evitando qualquer confusão entre as questões que podem ser respondidas em um ambiente purificado ou restrito e aquelas que inevitavelmente surgirão no ambiente mais amplo e confuso. Um modo de apreciação civilizado implicaria nunca identificar o que é bem controlado e limpo com alguma verdade que transcende a confusão. O que é confuso do ponto de vista da fast science nada mais é do que a interação irredutível e sempre incorporada de processos, práticas, experiências e formas de conhecer e valorizar que compõem o nosso mundo comum.

Esse pode ser o desafio que a slow science deve responder, permitindo aos cientistas aceitar que o que é confuso não é defeituoso, mas sim aquilo que temos simplesmente de aprender a viver e a pensar. A simbiose entre fast science e indústria tem privilegiado o conhecimento desincorporado; e as estratégias de desincorporamento tem sido abstraídas das complicações confusas deste mundo. Porém, ao ignorar a confusão e sonhar com sua erradicação, descobrimos que confundimos o mundo. Então, eu caracterizaria a slow science como a operação exigente que reativa[18] a arte de lidar com o que os cientistas muitas vezes consideram confuso, ou seja, de lidar com o que escapa das categorias gerais, chamadas de objetivas.

O termo “reativar”, como usado por ativistas dos EUA, refere-se a operações de cura que reapropriariam aquilo do qual nos separamos, recuperando [recovering] ou reinventando o que essa separação destruiu. Reativar sempre começa aceitando que estamos doentes em vez de culpados, e entendendo como nosso ambiente nos deixa doentes. A partir dessa perspectiva, poderíamos considerar a maneira pela qual nossas universidades, tão orgulhosas de sua autonomia, têm aceitado em nome do mercado o imperativo da competição e da avaliação do benchmarking. Da mesma forma, [poderíamos considerar] a maneira pela qual os pesquisadores aceitaram sem muita resistência a redefinição da pesquisa pela economia do conhecimento. Quaisquer que sejam as explicações que possamos oferecer, todas elas atestam a profunda vulnerabilidade daquilo do qual uma vez nos orgulhamos tanto – o arranjo que promoveu a fast science, a ciência desincorporada, como modelo para a pesquisa científica, deixou-nos doentes demais para defendê-la. Jogando o ganso, os pesquisadores aceitaram um papel que os obrigava a ignorar o fato de que conquistar, destruir e objetivar cegamente nunca teve a necessidade de conhecimento confiável. Agora, no entanto, eles entendem que a competição é geralmente indiferente a conquistas, tais como a produção coletiva de conhecimento confiável; o que se requer, em vez disso, é a “flexibilidade”: isto é, cientistas que aceitem que o conhecimento produzido por eles só é bom o suficiente desde que leve a patentes e satisfaça às partes interessadas.

Pode ser que, se tivéssemos que contar o conto de como cientistas e acadêmicos foram incapazes de defender as condições que lhes permitem existir, teríamos que relatar como eles foram finalmente vítimas da mentira que os tornou modernos, permitindo-lhes reivindicar uma autoridade geral, ao passo que a especificidade de sua prática recuou em segundo plano. As operações de reativação nunca são fáceis. Se recuperar a pesquisa científica significa reincorporar as ciências em um mundo confuso, não é apenas uma questão de aceitar esse mundo como tal, mas de apreciá-lo positivamente, de aprender como cultivar e fortalecer, nas palavras de Whitehead, “os hábitos de valorização concreta dos fatos individuais em sua plena interação de valores emergentes”.[19] Isso, como já enfatizei, não implica evitar a especialização e a abstração, que têm um óbvio valor próprio. Mas a apreciação concreta não significa apenas abster-se de tratar como um mero remanescente, independentemente do que nossas abstrações foram abstraídas, ou de abster-se de julgá-las. Precisamos aprender também como situar ativamente nossas abstrações no que Whitehead chama de “interação de valores emergentes”. Reativar nunca é apenas uma questão de boa vontade, do beijo da paz transformando o sapo decepcionante em um príncipe simpático, educado e construtivo. O aprendizado é necessário para se interessar pelo próprio sapo, isto é, pela confusão em que todos, incluindo os cientistas, são participantes.

Aqui, novamente, tocamos no conhecimento radicalmente assimétrico desenvolvido sob o modelo da fast science. Sabemos muito sobre o desenvolvimento de materiais (e sobre as tão chamadas tecnologias imateriais), mas quando se trata de técnicas muito mais antigas – o tipo de técnica necessária no momento em que as pessoas estão divididas sobre um assunto e têm que aprender umas com as outras através de seus desacordos –, não somos muito bons em tudo, pois perdemos aquilo que uma vez conhecemos, isso que outros povos chamariam de “civilização”. Basta pensar na tecnologia presente no PowerPoint, que está se tornando um imperativo de comunicação, vendo o modo como permite que alguém faça uma observação de maneira marcante, autoritária e esquematizada. Em “balas”, nada menos do que isso (apenas ouça essa palavra…). Pense também no tédio ao qual todos estão acostumados quando, silenciosa e pacientemente, meio que ouvimos um querido colega falando por uma hora. Temos nossos departamentos de psicologia, psicologia social, pedagogia e assim por diante, mas não aprendemos nem mesmo uma fração do que os ativistas que estão envolvidos em operações de recuperação precisam aprender quando querem trabalhar em conjunto com os outros sem afirmar sua autoridade. De fato, eles aprenderam a considerar cada encontro como o que, segundo Whitehead, eu chamaria de “fato individual”, ou seja, como sendo dependente da interação de valores emergentes; valores que podem surgir apenas porque os participantes aprenderam como permitir que se torne importante a questão que está presente no coração de seu encontro com o poder, o poder de conectar todos os presentes.

Produzir conhecimento sobre tais fatos individuais, sem dúvida, exige uma abordagem que não esteja de acordo com o modelo da fast science. Momentos em que os valores emergem não podem ser desincorporados e submetidos a categorias gerais; por exemplo, o momento em que alguém se sente transformado por ter entendido a perspectiva de outra pessoa; ou o encontro que descobre o poder transformador de seus participantes pensando juntos; ou a experiência de que algo que até agora parecia insignificante pode de fato importar. Tais momentos foram tratados superficialmente, com categorias inadequadas derivadas do imperativo da reprodutibilidade. Eles têm sido julgados impróprios para o conhecimento, ou pior, relegados ao irracional e, portanto, considerados indignos de nossa atenção. Mas pode ser que a abordagem da qual eles precisam seja apenas um pouco diferente, que o que precisamos aprender não é como defini-los, mas sim como cultivá-los. Precisamos descobrir o que os apoia e sustenta, e o que os frustra ou envenena: ganhar algo como o conhecimento lento do jardineiro, em oposição ao rápido conhecimento da agricultura industrial “racionalizada”. A esse respeito, o tipo de conhecimento produzido em nossas universidades é, de fato, radicalmente desprovido de equilíbrio, e todos nós estamos pagando o preço por isso.

Novamente, reativar significa, antes de mais nada, reconhecer que estamos doentes e precisamos nos curar. A slow science não fornece uma resposta pronta; não é uma pílula. É o nome para um movimento no qual podem se juntar muitos caminhos rumo à recuperação [to recovery]. Quanto a nós acadêmicos, que tal introduzir reuniões lentas, isto é, reuniões organizadas de tal maneira que a participação não seja apenas formal? Que tal conversas lentas, não apenas convidando pessoas que alguém realmente deseja ouvir, mas também lendo e discutindo de antemão, para que a reunião não seja reduzida ao ritual de assistir a uma palestra preparada que termina com algumas perguntas banais? Que tal exigir que, quando os colegas falam ou escrevem sobre questões que estão além de sua área de especialização, eles apresentem as informações, o aprendizado e as colaborações que lhes permitiram fazê-lo? Que tal assegurar, quando é necessária especialização numa questão de interesse comum, que os co-especialistas estejam presentes e sejam capazes de representar eficazmente as muitas dimensões relevantes para a questão? Do ponto de vista dos cientistas rápidos, todas essas propostas têm um defeito comum. Todos eles envolvem perder tempo, ou pior, romper com a relação simbiótica que liga o “verdadeiro progresso” à inovação industrial.

Estas são apenas sugestões, e devo admitir que passei muito mais tempo falando sobre a fast science do que sobre o que seria a slow science. Acompanhando aqueles que hoje insistem que “outra ciência é possível”, meu trabalho, como filósofa, é tentar ativar a imaginação, que envolve ir além da questão da atual mobilização da pesquisa tão chamada “economia do conhecimento” para examinar as consequências da mobilização mais antiga. A poderosa apreensão dessas consequências em nossos recursos imaginativos tem que ser desafiada.

Tentei confrontar o que tem sido chamado de “autonomia”, vendo isso como um presente venenoso. O nome do veneno é progresso, mobilização para o avanço do conhecimento como um fim em si mesmo, e sua consequência é o extraordinário contraste entre, de um lado, a cooperação imaginativa e exigente entre colegas para quem a confiabilidade é o valor primordial e, de outro, a maneira fácil e arrogante pela qual esses mesmos colegas descartam ou ignoram o mundo, que é reduzido a um campo de operação para o progresso racional.

A mobilização desafiadora – que é o que separa os cientistas de seu poder de pensar, imaginar e conectar, definindo qualquer coisa que a atrapalhe como sendo necessariamente secundária, pois o que seria desacelerado é progresso – implica repensar e reinventar instituições científicas. Mas quero abordar agora a questão de outro ângulo, sem me antecipar a essa reinvenção, que não é minha tarefa como filósofa, mas sim ativando outra imaginação complementar, que diz respeito àqueles campos acadêmicos sem quaisquer ovos de ouro, a saber, as humanidades.

De fato, ouvi dizer com certa frequência que o que falta aos cientistas dos ovos de ouro é a reflexividade, especificamente a reflexividade crítica cultivada pelas humanidades. Eu até ouvi dizer que, se as humanidades estão hoje drasticamente sub-financiadas, é porque essa reflexividade crítica deve ser mantida à distância, uma vez que representa uma ameaça à mobilização. Minha alegação, no entanto, é que essa reflexividade pode também ter de ser recuperada como parte do problema, e não da solução, ao menos na medida em que isso também se define como algo que falta a “outros”, garantindo assim às humanidades o autoproclamado ponto de vista privilegiado: eles acreditam, mas sabemos melhor; e melhor e melhor a cada nova virada teórica.

Minha posição não deve ser confundida com “acrítica”.[20] Mas pretendo, certamente, dar voz à minha profunda frustração com a relação quase constitutiva entre reflexividade crítica e suspeita, em que desmascarar ou desconstruir aparecem como realizações em si mesmas. Isso fala para mim de uma mobilização de sua própria espécie, implicando que uma distância deve ser mantida em relação ao que os outros apresentam como realmente importante para eles.

Whitehead, como citei acima, definiu a tarefa da universidade como a criação do futuro, na medida em que o pensamento racional e os modos civilizados de apreciação podem afetar a questão. A reflexividade crítica, para resumir, não me parece estar envolvida com a questão de como suas próprias intervenções são passíveis de “afetar a questão”. Na verdade, parece ser muitas vezes uma tentativa de obrigar os outros – por exemplo, aqueles que levantam questões relativas à criação de um futuro que vale a pena viver – a reconhecer que eles estão uma ou muitas viradas teóricas atrasados demais. Não é a luta de Vandana Shiva[21] contra o patenteamento ou a industrialização da vida, ignorando a virada antiessencialista? No entanto, observei que hoje em dia a assustadora questão da mudança climática se tornou um tópico popular para os pensadores críticos, sob o tema do “Antropoceno”. Muitas viradas teóricas rivais estão em gestação, caçando novos bodes expiatórios, incluindo quaisquer colegas que possam estar associados ao “antropocentrismo” por terem ignorado o desafio teórico de lidar com a nossa espécie como uma “força geológica”. Pode ser bem que tais pensadores críticos considerem as lutas ambientais, políticas e sociais de muitos ativistas como irremediavelmente “antropocêntricas”.

Recuperar o pensamento racional em relação à mobilização, e recuperar os modos civilizados de apreciação em relação à sua tentação de contrastar a si mesmos com os outros que necessitam de esclarecimento (qualquer luz que um campo acadêmico alega prover), claramente não é suficiente. Também temos que recuperar o desconhecido que figura na definição de Whitehead: “na medida em que [o que assim reativamos] pode afetar a questão”, isto é, pode afetar outras lutas que visam a criação de um futuro digno de ser vivido. Isso, eu argumentaria, não é uma questão de reflexividade. Em vez disso, ela exige o que eu chamaria de uma “ecologia de conexões parciais”, que requer aprender com os outros, ser transformado pelo que é aprendido e reconhecer nossa dívida para com essa experiência transformadora enquanto exploramos seus impactos problematizantes em nossos próprios termos.

Fazer conexões parciais significa antes de tudo aceitar estar situado. As operações de recuperação, sejam elas realizadas por ativistas, acadêmicos, camponeses indianos, feministas ou outros, são sempre particulares e parciais, porque estão sempre situadas, começando exatamente no ponto em que fomos humilhados, isto é, separados de nosso poder para pensar, sentir, imaginar e agir. E esta é a principal razão pela qual os participantes precisam uns dos outros e podem se conectar uns com os outros; ou melhor, precisam aprender como se conectar uns com os outros para aprender e tirar novas consequências da experiência um do outro.

É por isso que, citando os Mil Platôs de Deleuze & Guattari, eu diria que as operações de reativação nos falam de “um povo ambulante de retransmissão, em vez de uma sociedade modelo”.[22] Referindo a William James, eu diria que sua lógica é a de fazer um pluriverso, ou, nos termos de Mario Blaser[23], [é a lógica da] tecelagem do que sempre será mais do que um, mas menos do que muitos.

O teste, aqui, poderia muito bem existir se pudermos recuperar, para aquelas ideias que nos fazem sentir e pensar, a capacidade de “adicionar” algo à realidade, ao invés de considerar ideias e conhecimento em termos de verdade, explicação ou objetividade. Retransmitir nunca é “refletir sobre”, mas sempre “adicionar”, e assim comunicar com o que William James definiu como a “ótima questão” associada a um pluriverso em formação: o que fez com o que nós transmitimos “com nossas adições, suba ou desça de valor? As adições são dignas ou indignas?”.[24]

A transmissão é apenas um exemplo. Indo além disso, estou convencida de que reativar, para nós acadêmicos, exige que nós aprendamos coletivamente como pensar, a partir da pergunta do James: o que nossas ideias acrescentam ao que elas intervêm (ou presidem)? Longe de lutar para manter nossos antigos privilégios, devemos nos atrever a pensar na possibilidade de podermos fazer valiosos acréscimos à tecelagem de situações que nos capacitarão a resistir à barbárie vindoura. E esta pode muito bem ser a versão mais exigente do que chamei, com James, uma “opção genuína”, o desafio de consentir ou fugir. Eu descrevi a definição de Whitehead da tarefa da universidade como sendo exposta à zombaria. Aqui, temos que encarar e sentir o risinho dentro de nós, a voz triste que sussurra: ”quem vocês pensam que são?”. E essa é uma voz que facilmente assume o tom da reflexividade crítica.

A pergunta de James é um teste; e consentir com isso significa antes de tudo levar a questão a sério, sabendo que nenhuma teoria ditará ou autenticará a resposta, e que não é tarefa de ninguém fazê-la. O valor de aquisição, ou mesmo a possibilidade de atribuir qualquer valor à aquisição como tal, não é, contudo, uma questão de fé cega. E a questão não é silenciar a voz crítica com algum retumbante obamiano: “Sim, nós podemos!”.[25] Consentir ao teste significa antes de tudo medir o quanto temos que aprender para escapar dessa alternativa infernal: ou sentindo-se autorizado ou confiando na fé cega.

Ativistas podem realmente nos ajudar. Estou pensando aqui, por exemplo, nas operações de reativação de ativistas neopagãos e nos rituais que eles experimentam para se tornarem capazes de fazer o que chamam de “obra da deusa”. Mas podemos pensar também nos rituais dos Quakers. Os Quakers não se abalaram diante de seu Deus, mas sim antes do perigo de silenciar a experiência que revelaria o que lhes estava sendo pedido em uma situação particular, antes do perigo de responder à essa situação em termos de crenças e convicções predeterminadas. O ponto crucial em ambos os casos não é, parece-me, a crença em alguma inspiração sobrenatural a que podemos nos sentir livres para rir. O ponto é a eficácia do ritual, um aspecto estético, reforçando o que Whitehead chamou de “apreciação concreta dos fatos individuais em sua interação plena com valores emergentes”; ou a valorização dessa situação, sempre concreta, acompanhada do halo do que poderia se tornar possível.

Podemos entender essa eficácia em termos do que Deleuze e Guattari chamaram de “agenciamento” [agencement][26], lembrando que, para eles, a maneira de pensar e sentir nossa existência é nossa própria participação em agenciamentos. O canto ritual das bruxas em reativação – “Ela muda tudo o que ela toca, e tudo o que Ela toca muda” – poderia ser, certamente, comentado em termos de agenciamentos criados artesanalmente para resistir à atribuição desmembradora da agência. A mudança pertenceu à deusa como “agente” ou àquela que muda quando tocada? Mas a primeira eficácia do refrão está no “Ela toca”. Resistir ao desmembramento não é conceitual. É parte de uma experiência que afirma que o poder de mudar NÃO deve ser atribuído a nós mesmos, nem ser reduzido a algo “natural” ou “cultural”. Faz parte de uma experiência que honra a mudança como criação. Além disso, o ponto não é comentar. O refrão deve ser cantado; é parte e parcela da prática da adoração.

O ponto, portanto, não é teorizar os agenciamentos, mas sim aceitar que nós mesmos fazemos parte dos agenciamentos acadêmicos que nos induzem e nos permitem comentar e dissecar criticamente. Levar a sério a pergunta de William James pode muito bem exigir que aprendamos a viver sem a proteção desses agenciamentos e a criar artesanalmente outros diferentes: atraindo agenciamentos, atraindo-nos para o que Whitehead chamou de “apreciação concreta”. Como um ato de desafio, pode ser que devamos, ao falar da eficácia de tais agenciamentos, ousar usar a palavra que as próprias bruxas reativadoras usam: magia [magic].

Mas nós, que não somos bruxas, não precisamos imitar seu ofício. O que eles exploram não é uma via rápida a ser entusiasticamente apressada, como mais um desses famosos turnos acadêmicos. Qualquer que seja o modo como podemos reivindicar a capacidade de honrar a mudança, ela deve resistir à pressão de dentro da academia: a de nossos queridos colegas que objetarão que não estamos sendo suficientemente objetivos ou críticos, ou de periódicos que insistem na necessidade de respeitar suas normas, a necessidade de começar expondo “Materiais e Métodos” (ou a Revisão da Literatura!). Assim, eu reivindicaria que, se nós, acadêmicos, desejamos recuperar nossas práticas como dignas, precisamos também nos tornar ativistas reivindicadores à nossa própria maneira, inventando nossas próprias maneiras de responder à barbárie que ganha terreno toda vez que nos curvamos diante da necessidade, incluindo a necessidade de aceitar as regras do jogo ou de ser excluído dele.

Mais uma vez, reconhecer que estamos infectados e que podemos estar espalhando a infecção não é uma questão de culpa a ser expiada, mas sim de aprender como criar meios de proteção. Temos que aprender, tal como fizeram as bruxas, como fazer círculos que nos protejam de nosso meio insalubre e infeccioso, sem nos isolar do trabalho a ser feito, das situações concretas que precisam ser enfrentadas. Nossa preocupação pragmática e empírica exigiria então cultivar, junto com aqueles em quem confiamos, uma arte informada de deslealdade, a arte de desmantelar discretamente hábitos acadêmicos, de confundir o olhar dos inquisidores, de formas regeneradoras de honrar o que nos faz pensar e sentir e imaginar. Como enfatizei, cada operação de reativação é particular. Ou seja, cada um tem que inventar seus próprios meios, criar seus próprios interstícios, seus próprios meios de se proteger e fazer os outros sentirem que a resistência é possível. Isso pode ser o que devemos inventar com colegas de confiança e ensinar aos nossos alunos ou aos alunos em quem confiamos. É também, a propósito, que movimentos de resistência no terreno aprenderam a fazer durante a Segunda Guerra Mundial na Europa. Isso, no mínimo, é o tipo de conto que poderíamos contar às crianças nascidas neste século, quando perguntam: “Você sabia o que você fez?”.

Notas

[1] Este texto é uma tradução de: STENGERS, Isabelle. ‘Another Science is Possible!’ A Plea for Slow Science. In: STENGERS, I. (2018) Another science is possible! A manifesto for slow science. Cambridge: Polity Press. p. 106-132. A primeira versão, menos desenvolvida e mais contextualizada, é encontrada em: STENGERS, Isabelle. (2013) Une autre science est possible!: manifeste pour un ralentissement des sciences. Paris: Les Empêcheurs de Penser en Rond/La Découverte. p. 83-112. A presente tradução foi feita por Maryalua Meyer e revisada por André Magnelli. Aproveitamos para agradecer à Isabelle Stengers e à editora La Découverte por terem gentilmente nos autorizado a publicação deste ensaio.

[2] DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. What is Philosophy?, trans. Graham Burchell and Hugh Tomlinson, London: Verso, 2003, p. 108.

[3] N.T. JAMES, William.(1896) A vontade de crer. Tradução Cecília Camargo Bartalotti. – São Paulo: Loyola, 2001.

[4] Ver STENGERS, Isabelle. (2009) In Catastrophic Times: Resisting the Coming Barbarism, Open Humanities Press/Meson Press, 2015. (tradução para o português: STENGERS, Isabelle. No tempo das catástrofes. São Paulo: UBU, 2015).

[5] N.T.: A autora remete ao capítulo anterior do livro: Ludwik Fleck, Thomas Kuhn and the Challenge of Slowing Down the Sciences. p. 83-105.

[6] N.T. Cf. Slow Science Academy, Berlim, Alemanha, 2010 (http://slow-science.org/). Publicado em Manifesto por uma Slow Science. Ateliê de Humanidades, janeiro de 2018.

[7] N.T. A tradução do termo snigger é ambigua por ser uma expressão de uso informal na língua inglesa, remete a um riso de deboche, a uma zombaria. Optamos por traduzir como riso, risinho ou mesmo zombadores, de acordo com a construção do texto.

[8] WHITEHEAD, A. N. Modes of Thought, New York: The Free Press, 1968, p. 171.

[9] WHITEHEAD, A. N. (1925) Science and the Modern World. New York: The Free Press, 1968. p. 196.

[10] WHITEHEAD, A. N. (1925) Science and the Modern World. op. cit. p. 197.

[11] ibid. p. 205.

[12]N. T. Pascal Lamy é um político francês e ex-Diretor-Geral da OMC.

[13] WHITEHEAD, A. N. (1925) Science and the Modern World. op. cit. p. 198.

[14] NT. Traduzimos aqui por “abrandamento” a ideia de “ralentissement” da ciência e do pensamento, que é defendida por Stengers em várias partes de sua obra. Esta noção é aquela que fundamenta sua reivindicação por uma slow science. Isso fica claro quando vemos que se, na versão inglesa do livro do qual é extraído o presente texto, o subtítulo é “a Manifesto for Slow Science”, na versão original lê-se: “manifeste pour un ralentissement des sciences”.

[15] N.T. O termo “The right stuff” é de difícil tradução, em relação ao texto podemos remeter à obra de mesmo nome escrita por Tom Wolfe, que foi traduzida como “os eleitos”.

[16]N.T. Louis Pasteur foi um cientista francês, que fez importantes contribuições para química e medicina; Marie Curie foi uma cientista polonesa de naturalização francesa que conduziu pesquisas pioneiras no ramo da radioatividade, sendo a primeira pessoa e única mulher a ganhar o prêmio Nobel duas vezes.

[17] Ao longo do texto, a autora utiliza um contraste entre dois tipos de ciência, conhecimento e estratégias: embedded/desimbedded. Apesar do termo ter uma tradução consolidada para o português, a partir da obra de Karl Polanyi, para o contraste incrustrado/ desincrustrado, optamos por traduzir como incorporado/ desincorporado, sentido mais próximo do uso da autora.

[18] N.T. A respeito do verbo reclaim e seus derivados reclaiming/reclaimed, optamos pela mesma tradução que foi utilizada no texto STENGERS, Isabelle. Reativar o animismo. In. Caderno de Leituras, n.62, 2017 (ver: nota 2, p. 8 do texto). Como explicitado pela tradutora Jamille Pinheiro Dias, podemos compreender o verbo reclaim em ao menos três sentidos: como reativar, recuperar ou reclamar. Optaremos por um ou outro sentido conforme o emprego. Nas únicas ocorrências em que houver recuperar/recuperando/recuperado sem ser tradução de reclaim/reclaiming/reclaimed, indicaremos qual é o termo do qual se trata colocando-o entre colchetes.

[19] WHITEHEAD, A. N. (1925) Science and the Modern World. op. cit. p. 246.

[20] Em “Experimenting with Refrains: Subjectivity and the Challenge of Escaping Modern Dualism”, Subjectivity, 22 (2008). p. 38–59, propus uma distinção entre crítica e discriminação, duas palavras com a mesma raiz etimológica.

[21] N.T. Vandana Shiva é uma estudiosa indiana, física, ecofeminista e ativista ambiental e anti-globalização.

[22] DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. A Thousand Plateaus, trans. Brian Massumi, Minneapolis: University of Minnesota Press, 1987, p. 377.

[23] Mario Blaser é associate Professor Tier II Canada Research Chair in Aboriginal Studies. Academics. Ph.D. McMaster University, 2003

[24] JAMES, William. (1907) Pragmatism: A New Name for Some Old Ways of Thinking. New York: Longman Green and Co. p. 98.

[25] N.T.: com a expressão “obamiano”, a autora alude ao ex-Presidente dos EUA Barack Obama e seu slogan de campanha presidencial.

[26] NT: O termo assemblage

Imagem: Die Schattenseite unserer Gesellschaft, por Igor Morski

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