Manifesto por uma disciplina inútil, a ciência do homem, por André Leroi-Gourhan

Apresentação

O texto aqui publicado é um manifesto pela “ciência do homem”, em defesa da importância humana de sua “inutilidade” e “gratuidade”. Publicado em 1974 no jornal Le Monde, este texto do etnólogo e pré-historiador André Leroi-Gourhan mostra toda sua atualidade ao abordar temas como a crise das universidades, as consequências da mundialização e a crise ambiental global.

No contexto em que teremos a conferência de Paulo Henrique Martins no Ciclo de Humanidades (25/04) (Cartografias do dom) dedicada ao Movimento anti-utilitarista em ciências sociais (M. A. U. S. S.) e uma publicação dos Cadernos do Ateliê com texto do próprio Leroi-Gourhan, este pequeno artigo conecta alguns fios de nossas preocupações:

  • a crítica às tendências autodestrutivas de um ciclo vicioso entre ciência, técnica, indústria e economia que esteja desconectado de valores socioculturais e seja gerador de desequilíbrios ecológicos;
  • a defesa das humanidades (ou ciências do homem) como fundamentais para o homem e a democracia;
  • a reivindicação de uma conexão das ciências humanas com os saberes etnológicos, arqueológicos e pré-históricos;
  • a busca cognitiva, ética, política e existencial de superação do paradigma utilitarista em direção à defesa das dimensões não-utilitárias do humano;
  • o apelo à preservação da diversidade, na história e na memória, opondo-se às tendências de exclusão da diferença ou de homogeneização cultural;
  • e a preocupação com os desafios ecológicos (e potenciais catástrofes) em curso na era do Antropoceno.

Desejamos uma excelente leitura!


Manifesto por uma disciplina inútil, a ciência do homem

Por André Leroi-Gourhan

É cada vez mais difícil praticar a pesquisa no domínio das ciências onde o homem é apreendido como elemento fundamental da humanidade. No entanto, o pós-guerra havia deixado crescer as esperanças; os anos 1945 até 1960 tinham visto se estabelecer, em particular no Centro Nacional da Pesquisa Científica (CNRS), modestos quadros de pesquisa nas disciplinas etnológicas, antropológicas e pré-históricas. Estes quadros de pesquisa iniciais têm desencadeado um crescimento das necessidades em pesquisas e em meios de pesquisa que comandam legitimamente as perspectivas abertas sobre um mundo tradicional: aquele em que o homem viveu a maior parte de sua existência, no curso de longos milênios, um mundo no qual as sociedades de escala humana foram lentamente modeladas.

O interesse das ciências humanas é admitido, mas a responsabilidade a seu respeito  é apenas muito incompletamente assumido. A sociedade moderna, através da psicologia e da sociologia, pegou as receitas suscetíveis de uma adaptação imediata nas técnicas de manipulação das massas, jogando na penumbra honorífica da pesquisa fundamental o estudo do homem total, cuja aventura começa há três milhões de anos e se estende das regiões árticas até o fundo das florestas equatoriais.

O tamanho da audiência atual das disciplinas do homem corresponde a seu valor em relação a um esquema de produção e de consumo que, ainda mais uma vez, ninguém teria pensado em pôr em causa, na medida em que parecia claramente que somente podia haver o homem ocidental ou ocidentalizado. Preocupa-se ainda quase exclusivamente com a sociedade e o menos possível com o homem, dedica-se a considerar as massas humanas como plataformas sócio-econômicas, e não os grupos humanos como fórmulas de equilíbrio bio-econômico. Esta atitude não é a marca de um meio étnico determinado, ela afeta em graus variados, de modo indistinto, todas as sociedades industriais encadeadas no ciclo de uma produção sempre crescente de bens destinados a responder às necessidades de multidões em estado de proliferação descontrolada. Ela afeta também as outras sociedades, com o sonho de um ideal de progresso. Há alguns anos, podia-se ainda ignorar, com boa fé, a verdadeira face das sociedades industriais; sabe-se hoje que o afastamento entre super-desenvolvidos e sub-desenvolvidos não tem nenhuma razão para ser superada espontaneamente e que, além disso, uma simples questão de combustível pode pôr em causa, de modo imediato, os equilíbrios econômicos mais estabelecidos.

Chegou-se recentemente a esta constatação de que o mundo vivo está intoxicado até o fundo dos oceanos, que a existência de uma humanidade levada à multiplicação exponencial tornar-se-á rapidamente incompatível com a sobrevivência do universo vivo e mineral que lhe serve de suporte.

Não está em questão pôr em causa o progresso técnico, mas deveria ser uma forte questão buscar servir-se dele para uma gestão senão racional, ao menos razoável do capital terrestre, do capital humano e do capital natural. Ainda que não se possa separar o natural do humano, já que o desvio das relações entre um e outro está na origem da doença das civilizações, é urgente atrair a atenção sobre o que a fração aparentemente menos utilitária das ciências humanas poderia trazer para a elaboração prática de um plano de gestão coerente da pequenina poeira cósmica que nos serve de pedestal.

Uma tal atitude pareceria ambiciosa se não fosse ditada pela extrema urgência que há em intervir num processo que conduz a catástrofes irreversíveis. O progresso das ciências mostra claramente que somente após muitos séculos, e talvez jamais, a humanidade achará planeta de substituição. Em todo caso, ele mostra que não será em várias gerações que os problemas vitais se porão, mas sim que, em alguns poucos anos, já será demasiado tarde para recuperar um equilíbrio total.

É bastante banal dizer que a humanidade não está mais na dimensão do homem, é muito menos dizer que nós provocamos o colapso e o desaparecimento de numerosas civilizações que, cada uma de sua forma, possuíam um equilíbrio que desprezamos, porque estávamos convencidos da superioridade global de nossa civilização. Era difícil há cem anos dissociar nossos valores morais ou estéticos de nossos meios técnicos, assim como renunciar a nosso etnocentrismo nos domínios em que teríamos tido mais a aprender do que ensinar. É possível, hoje, conservar a mesma atitude? É possível, diante do número crescente de indivíduos que pertencem às nações ricas em busca de meios aproximados de recuperar um mundo nas proporções reais do homem, continuar a considerar como menores as disciplinas cujo objetivo é precisamente de tornar evidente as fórmulas de equilíbrio nas sociedades que não eram reduzidas ainda à sujeição pela máquina? Temos o direito, enquanto que é urgente fazê-lo, de deixar se diluir, em uma cultura mundial que representa crescentemente o triunfo da monotonia, grupos humanos dos quais seria benéfico, para nós mesmos, salvaguardar no mínimo a imagem?

Não sabemos para quê pode servir o aborígene australiano, nem o interesse que pode oferecer o conhecimento íntimo do homem de Neandertal. Mas, diante dos resultados frequentemente desencorajadores de nossa própria evolução, diante do fracasso do contato entre nossa civilização e a civilização das grandes massas cujo desenvolvimento era ainda recentemente estranho ao nosso, podemos nos perguntar se não nos faltam os instrumentos de uma compreensão autêntica da qualidade humana. Podemos nos perguntar se não chegou o tempo de tomar consciência do fato de que as ciências humanas mais gratuitas de todas serão consideradas provavelmente, em uma geração, como sendo as que teriam sido mais úteis a desenvolver. Pesada será, então, nossa responsabilidade de ter compreendido muito tarde que o homem deveria ser estudado antes de tudo como ser humano e não, prioritariamente, como um cliente possível.

Publicado no Le Monde em 27 março de 1974

Tradução de André Magnelli

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