Pontos de leitura: recomendação de “Solidariedade e organização: pensar uma outra gestão”, livro de Philippe Eynaud e Genauto Carvalho de França Filho

No jornal francês Le Monde, no último dia 28 de fevereiro, saiu o  artigo de Margherita Nasi sobre o excelente livro Solidarité et organisation: penser une autre gestion, escrito por Genauto Carvalho de França Filho (Escola de Administração da UFBA) e Philippe Eynaud (IAE Paris-Sorbonne Business School), publicado recentemente na França pela Éditions erès (2019).

Traduzimos e disponibilizamos aqui, nos Pontos de Leitura, o artigo publicado no Le Monde.  Quando a versão brasileira sair pela EdUfba (em breve), teremos o prazer de realizar uma recomendação especial do próprio Ateliê. Para quem lê em francês, sugerimos desde já a leitura.


Restabelecer a solidariedade nas nossas organizações

Dois professores em ciências da gestão convidam a repensar a administração em uma perspectiva solidária, liberando-se do peso do modelo anglo-saxônico.

Por Margherita Nasi

Solidarité et organisation: penser une autre gestion [Solidariedade e organização: pensar uma outra gestão], de Philippe Eynaud e Genauto Carvalho de França Filho. Editora Erès, 252 páginas, 25 euros.

Nosso modelo econômico é duplamente insustentável, por causa de seu impacto mais amplo sobre o aquecimento global, e também devido ao aumento das desigualdades que fragiliza os fundamentos de nossas democracias. Face a tais perigos, uma solução se impõe aos olhos de Philippe Eynaud e Genauto Carvalho de França Filho: a solidariedade. Como organizar esta solidariedade de modo mais próximo dos atores e de sua atividade econômica? Esta é a proposta desenvolvida pelos dois professores em ciências da gestão em seu ensaio Solidarité et organisation: penser une autre gestion (editora Erès).

A solidariedade permanece ainda amplamente ausente das reflexões sobre os modelos organizacionais e sobre sua sustentabilidade. A incapacidade que a administração tem de se transformar de modo profundo segundo uma perspectiva solidária tornou-a perigosa para os numerosos campos não mercantis, onde ela investe sem se reformar. O Estado não escapou disso: sob o disfarce de pragmatismo, as técnicas de gestão concebidas para o mundo mercantil se expandiram no espaço público, nas administrações e nos ministérios, pervertendo os modos de regulação construídos inicialmente em torno do interesse geral. Sob o disfarce da profissionalização, as associações adotaram também esses métodos de gestão e de avaliação das empresas.

Um outro imaginário

Todavia, poderíamos esperar uma outra coisa do desenvolvimento das administração. “Ela teria podido se construir em torno do questionamento das incompletudes do capitalismo. Este encontro ausente do passado não é incompatível, contudo, com uma reorientação para o futuro. Com efeito, as aporias do modelo capitalista deixaram um campo livre para o reforço das organizações da economia social e solidária”, avaliam os autores, que reivindicam o desenvolvimento de um outro imaginário, em ruptura com a ideologia dominante da competição e da performance financeira. Os gestores têm, a respeito disso, um papel determinante a desempenhar: se existe uma economia solidária, existe igualmente uma gestão a ela relacionada.

Através de um retorno sobre a história do pensamento, a obra mostra que, se a administração não soube manter a solidariedade como um princípio diretor, essa última sempre foi, contudo, subjacente à conceitualização gestionária: “No entanto, o peso do modelo anglo-saxônico sobre a disciplina tornou invisível, de alguma forma, até um período recente, tudo o que não se enquadrava nos princípios de uma economia de mercado”; e gerações de estudantes aprenderam que a gestão tem por objetivo a performance organizacional, em uma perspectiva de maximização do lucro.

Ora, “a exemplo da permacultura, que articula agricultura e permanência, é preciso construir uma permadministração, que associa administração e sustentabilidade”, escrevem os autores. Para abordar as condições necessárias para a organização da solidariedade, eles apoiam suas reflexões sobre os trabalhos da escola de pensamento brasileiro sobre a gestão de tipo solidário e sobre os trabalhos da escola de Olstrom.


Sobre os autores

Genauto Carvalho de França Filho

É professor da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia, especialista em economia solidária e associado ao Mouvement anti-utilitariste en sciences sociales (M.A.U.S.S.). Atua principalmente nos seguintes temas: economia solidária, estudos organizacionais, associativismo, terceiro setor, economia popular e novas formas de solidariedade. Dentre outros livros, publicou: com Sylvain Dzimira, Don et économie solidaire – esquisse d’une théorie économique de l’économie solidaire (Paris: MAUSS/CRIDA); e com Jean Louis Laville e outros, Economia solidária – uma abordagem internacional (EDUFRGS) e Action Publique et Economie Solidaire – Une Perspective Internationale (Éditions érès)

Philippe Eynaud

É professor da IAE Paris-Sorbonne Business School. Trabalha sobre as contribuições das tecnologias de informação no setor associativo e cooperativo e sobre as novas formas de governança que dela derivam. Seus temas de pesquisa são: administração dos sistemas de informação; administração e governança das associações; organização da sociedade civil; organização em rede e web 2.0; alianças e redes cooperativas.

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