Traição, atração e contorsão: quando o brincar desnuda o poder

por Aldo Tavares*

Denunciada por uma enfermeira por causa da posse de um livro marxista, Nise da Silveira, em 1936, aos 31 anos, foi levada ao presídio Frei Caneca, permanecendo durante 18 meses. De 1936 a 1944, ficou afastada do serviço público. Uma vez reintegrada, ela volta a trabalhar no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Engenho de Dentro, Rio de Janeiro.

O diretor Roberto Berliner filmou o momento desse retorno no belo filme Nise, o coração da loucura. Com a câmara posta atrás da protagonista, representada por Gloria Pires, Nise é filmada como se o seu olhar penetrasse no hospital para enfrentá-lo. Conduzida por uma enfermeira, Nise atravessa um corredor obstruído por dois portões de grade de ferro. Quando elas passam pelo último, a enfermeira para e observa: “Aqui é o pátio que a senhora já conhece. A gente solta os pacientes conforme estados nos horários diferentes. Quando um dos mais violentos está solto, ninguém entra. Vamos, doutora”. Mas, antes de Nice entrar na sala onde estão seus colegas, a câmera passa o olhar sobre o pátio: todos perambulam; vagam fechados neles mesmos. Mais tarde, no mesmo pátio, a doutora tirará a meia de sua perna e a preencherá com pano a fim de formar uma bola de futebol para “a gente brincar um pouquinho”, diz a Lúcio, um dos “loucos”. E a que esse brincar irá conduzir? A uma situação de riso e, com ele, a uma situação de descontrole.

Se antes estavam todos isolados e fechados neles mesmos ou se antes estavam sob controle do centro psiquiátrico e bem-postos conforme a séria razão médica, a doutora Nise da Silveira, por meio do brincar, ofertou a seus corpos o excesso de movimentos que os (ex)pôs, retirando-os da posição anterior de corpos bem-postos ou de corpos disciplinados. Por sua natureza imprevisível, o ato estético de brincar deixou no pátio do Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II as marcas da desordem – e tudo começou quando Nise retirou Lúcio da solitária para brincar um pouquinho com ele no pátio.

Nesse sentido, os considerados loucos pela razão médico-cartesiana viveram, por causa de Nise da Silveira, suas loucuras por meio de outro brincar, qual seja, o da arte, no sentido não de cópia da realidade, mas no sentido original de falso. Entre os pacientes que pintavam, Fernando Diniz e Emygdio de Barros foram premiados por causa da potência do falso em suas telas, onde a arte emerge enquanto força que, por ser irreal, brinca. A natureza do irreal é também esta: brincar.

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Sem título (1956), pintura de Fernando Diniz (1918-1999), antigo paciente do Centro Psiquiátrico Pedro II (atual Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira), Engenho de Dentro, Rio de Janeiro. Lápis cera sobre papel – 1976 (33 x 48 cm)

Ainda no filme do diretor Roberto Berliner, o olhar da câmera vê os loucos como foliões de uma festa junina, onde dançam, se alegram, riem, brincam, pois a festa é o ambiente natural de outro louco, ele: avatar de criança gorda e recém-nascida, seu corpo desobedece ao governante após ter recebido a chave da pólis, enfim, ele: filho da Noite, cujo nome, segundo Junito de Souza Brandão, “talvez se relacione com o verbo mokân, mokâ-sthai, ridicularizar, chasquear, zombar”, sendo personificação do Sarcasmo, sim, já ia esquecendo, seu nome, este: que, pelos fins do século XVI, documenta-se com sentido de farsa satírica, o que lhe daria o título de rei, a saber, ele: Momo.

Na mitologia grega, Momo é um deus sempre inconformado com os deuses do Olimpo, por isso suas palavras “jogam-se” contra eles, por isso sua e-missão desmascara aqueles que governam os mortais. Criança desejante que renova a vida contra aquele que mente da forma mais séria para dominar, Momo sabe que esse poder sério possui a natureza de não se ver no mundo, visto que quem governa para si mesmo não se flexiona diante do outro e nem reflete sobre sua própria imagem. O exemplo mais clássico foi escrito por Hans Christian Andersen, A roupa nova do rei, onde a criança diz ao regente o que ele não quer ouvir sobre sua aparência: “O rei está nu”. Para quem conhece a narrativa política desse conto de fadas, sabe que a criança, ao enganar dois vigaristas que se passavam de tecelões, assume a condição tola de dizer ao rei a verdade, mostrando-lhe o quanto Sua Majestade, com toda postura séria de “não tolo”, enganou-se ao ter dito ver sua roupa nova, que não existia nem como roupa. O invisível visto pelo rei foi o próprio real, que ele, porém, não via. Por ser governante, ele não pode se ver como é, por isso no conto de Andersen o rei se vê como não-é. O poder não se enxerga. A criança, por sua vez, ao gritar à multidão que “o rei está nu”, viu no rei o que não pode ser visto pelo reino, pois o reino não pode ver o que o rei é ou o que o poder é. A criança não viu no rei, portanto, o que era visto por todos do reino, quer dizer, a verdade do reino, que é a verdade do rei. Entretanto, como tola, a criança viu no rei o que é real, ou seja, a inocência viu a mentira que o reino é incapaz de ver, já que, para o reino, afinal, a verdade é ver o rei como ele não-é, mesmo porque o rei é o reino. Como evidência de que o poder não se vê no mundo, Sua Majestade, mesmo após a criança ter gritado e o povo ter repetido alto que “o rei está nu”, pensou: “O desfile tem de continuar!!!”, e os camaristas continuaram a segurar a sua cauda irreal.

Momo, rei inocente; e, em seu brincante reinado, todas as crianças gritam “o rei está nu”, no caso de tempos hodiernos, é o prefeito quem está nu, após entregar a chave da cidade à criança, que governará a alegria por três dias. Ora, dizer que o prefeito está nu tem o sentido de rebaixar a maior autoridade municipal à condição de um igual a todos, pois, contra as injustiças de governantes tão sérios, o sarcasmo, a que pertence a natureza momesca, extrai toda e qualquer aparência que domina em nome de uma verdade que fixa, que centraliza. Para Momo, a aparência ou a aparência séria do governante sempre oculta uma traição.

Atrair. Trair. O traidor nunca se encontra (ex)posto por estar, na superfície natural da face, muito bem-posto. Se podemos chamá-lo de mascarado, sua máscara, o rosto; e, por sua condição natural, a traição se retrai nos traços faciais muito bem-postos. Se o traidor está no rosto e não está no rosto, é porque o lugar do rosto é estar “entre” o ser e o não-ser. A emboscada, sabemos, surge de repente, do inesperado, pois o ocultado, o traidor, emerge da natural imagem, o próprio rosto. O que nos espanta, na verdade, não é a emboscada, mas de onde ela se rompe: que é o próprio real rompido. O inesperado… ele: o real, o rosto. O que nos trai é a face em estado natural, quer dizer, o traidor é aquele com quem nos identificamos. Em Humano, demasiado humano I (aforismo 51), escreve Nietzsche: “Aquele que sempre usa a máscara do rosto amável terá, enfim, poder sobre os ânimos benévolos, sem os quais não pode ser obtida a expressão de amabilidade – e estes por fim adquirem poder sobre ele, ele é benévolo.”  

Entretanto, à medida que brinca, Momo não se identifica com a face natural ou não se reconhece no real. É o caso, por exemplo, de Hamlet, que brinca com o rei Cláudio, seu tio e assassino de seu pai, quando fica transfigurado como personagem na peça O Assassinato de Gonzaga, onde o rosto natural do rei Cláudio foi extraído pelo excesso ou pela sobra da força plástica do teatro cômico. Uma vez no palco da comicidade, existe algo além do natural: a face regente perde a condição real de máscara à proporção que a potência do falso mascara o rosto do rei. Na plateia, por sua vez, o monarca assiste à sua sombra, à sua fantasia, podendo agora, no espaço do irreal, o seu rosto ser risível.

A criança ri quando a face da autoridade paterna se contorce, entorta-se; ri quando a face se mexe e se remexe como se cada parte fixada segundo a natureza se movesse para ficar em outro lugar do rosto. A criança ri da face que se dobra porque ela, a face, se brinca; porque ela se quer plástica. Pois bem, ri-se do rei irreal por o motivo de seu rosto não mais ser natural, e nem poderia sê-lo visto que o rei foi transfigurado pela potência do falso, ou seja, por ser e por não ser rei no teatro cômico, no brincar, o rei Cláudio, na condição de espectador, se vê como não é e não se vê com é no palco, quer dizer, ele vê a sua sombra ou o que o vago criou. A criança, quando brinca, vaga. Brincar é vagar – “zona ‘livre e vazia’ na qual a vida é capturada e abandonada em uma zona de exceção”, escreve Giorgio Agamben no belo livro O Aberto.

Sentado ao lado do sobrinho assistindo a O Assassinato de Gonzaga, o rei da Dinamarca pergunta a Hamlet: “Conheces bem o enredo?  Nada existe nele de ofensivo?”. O príncipe responde: “Não, não. Tudo é pura diversão; veneno de brinquedo. Não há nada de ofensivo”.  No reino de Momo, todos bebem veneno de brinquedo – brincam com o rei sério e riem do rei injusto.

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Barca do Sol, de Carlos Pertuis (1910-1977), antigo paciente do Centro Psiquiátrico Pedro II, Engenho de Dentro, Rio de Janeiro. Lápis cera sobre papel – 1976 (33 x 48 cm)

 

LIVROS

AGAMBEN, Giorgio. Infância e história: destruição da experiência e origem da história. Traduzido por Henrique Buriho. Belo Horizonte: UFMG, 2005.

____. Profanações. Traduzido por Selvino José. São Paulo: Boitempo, 2007.

HUIZINGA, Johan. Homo ludens. Traduzido por João Paulo Monteiro. São Paulo: Perspectiva, 2008.

MINOIS, Georges. História do riso e do escárnio. Traduzido por Maria Elena O. Ortiz Assumpção. São Paulo: Unesp, 2003.


* É livre-pesquisador do Ateliê de Humanidades e professor de filosofia


Imagem em destaque: Foto de Fernando Diniz pintando – antigo paciente do Centro Psiquiátrico Pedro II (atual Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira), Engenho de Dentro, Rio de Janeiro.

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