Robôs que criam arte!? – Ateliê de Humanidades para o Jornal do Brasil

Por: Liz Gomes Ribeiro*

Em outubro de 2018 foi leiloada na galeria Christie’s, em Nova Iorque, a pintura “Portrait of Edmond De Belamy” por 432 mil dólares. Este evento, por si só, não representa nada de novo para o mundo da arte, afinal obras são leiloadas diariamente em galerias pelo mundo inteiro. No entanto, ao observar o canto inferior direito do quadro, pode-se ler uma assinatura relativamente incomum: uma fórmula algorítmica. O retrato de Edmond De Belamy foi o primeiro quadro leiloado que foi produzido inteiramente por uma inteligência artificial (IA). Apesar deste feito, quadros criados com o auxílio de uma IA não são uma grande novidade. Desde 1973, o artista e professor da Universidade da Califórnia, Harold Cohen, participa do programa AARON, um robô que produz suas obras autonomamente há mais de duas décadas. Além dele, temos “The Painting Fool”, criado por Simon Colton, que se utiliza, em outros meios, de artigos e notícias de jornal para gerar suas ‘pinturas’ desde 2013.

Por trás da obra leiloada na galeria Christie’s e diversas outras que empregam tecnologia semelhante está o coletivo Obvious, composto por Hugo Caselles-Dupré, Pierre Fautrel e Gauthier Vernier. O Obvious, com base em Paris, tem como propósito ampliar as possibilidades de criação artística com inteligência artificial e machine learning. O projeto que deu origem à “família De Belamy” teve início a partir da descoberta dos Generative Adversarial Networks (GAN), que são algoritmos de machine learning utilizados na geração de imagens. O sistema foi ‘abastecido’ com 15 mil retratos clássicos dos séculos XV ao XX. A partir desse banco de dados, dois algoritmos trabalham numa espécie de competição: o “generativo” cria as imagens e o “discriminativo” descarta aquelas claramente feitas por uma IA. O resultado final é uma imagem pintada com jato de tinta sobre uma tela, criada pelo algoritmo que conseguiu ‘enganar’ o discriminativo, sendo depois emoldurada e assinada com a fórmula que lhe deu origem. Com esta técnica, seria o uso de GAN na arte capaz de reproduzir a “essência” da criatividade humana e produzir sempre obras únicas?

A criatividade é um dos elementos centrais na arte moderna, estando diretamente ligada às noções de “dom”, “inspiração” ou “iluminação”. É evidente, no entanto, que ao longo do tempo houve inúmeras desconstruções, revoluções e ressignificações desse conceito, bem como dos conceitos de belo, de obra de arte e de artista. A arte contemporânea, por sua vez, está o tempo todo alargando as fronteiras ontológicas e axiológicas da produção artística. A utilização de algoritmos como os GAN na criação de obras representa exatamente essa radicalização, principalmente do que se entende por criatividade humana.

Através do machine learning, as redes generativas do GAN ficam progressivamente melhores na geração de imagens mais parecidas com o conjunto de dados que recebem, pois sua função é modelar a distribuição de obras legítimas. Simultaneamente, as redes discriminativas ficam mais eficientes em selecionar imagens mais parecidas com este conjunto ao aprenderem o limite entre a classe de imagens artificiais e a classe de obras reais. É importante perceber que (1) a rede generativa é alimentada por um ruído aleatório, desconhecido para a rede e a partir dele gera uma “novidade”, que vai se tornar a imagem; e (2) que o conjunto de treinamento é determinado por humanos. Isso significa que, mesmo tendo um resultado aleatório, as possibilidades da imagem estarão sempre dentro deste conjunto específico. A criatividade, desta forma, estaria na aleatoriedade e na entrada dela na rede generativa. O algoritmo não está fazendo um quadro do zero, mas sim gerando a partir de um conjunto de dados uma imagem mais parecida com as que estão nele.

Neste sentido, a produção artística por/com robôs nos faz reavaliar a todo momento as limitações tanto da máquina quanto do humano. Percebe-se que as possibilidades de criação do GAN, apesar de extremamente amplas, ainda estão limitadas pelo conjunto de dados de que o algoritmo dispõe. Por sua vez, ele pode ser capaz de gerar muito mais obras e mais distintas entre si do que a capacidade física do humano. Ficamos, com isso, a pensar se os próprios conceitos do que é o humano e a máquina irão se borrar, em um futuro próximo, com a emergência de robôs que realmente criam arte.

*É livre-pesquisadora do Ateliê de Humanidades e mestranda em antropologia e sociologia (IFCS-UFRJ)

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