Manifesto por uma Slow Science

Quando tudo parece necessário e inevitável, sempre surgem aqueles que nos lembram que somos, antes de tudo, seres capazes de agir e de (nos) renovar.

Por um tempo cadenciado do pensamento

Vivemos em uma era de aceleração de todos os aspectos de nossa existência; dentre eles, a vida intelectual e universitária. Os estudos e pesquisas são dirigidos por índices de produtividade e de rendimento que desencadeiam uma produção acelerada, quase frenética, de publicações científicas. Esse fato é sentido como se fosse uma necessidade incontornável, imposta pelo avanço da ciência, pela urgência dos problemas a resolver ou, simplesmente, pela busca de sobrevivência em um mundo de concorrência aberta e globalizada. Em uma vida de fast food, nada seria mais normal do que hasty thoughts and fast sciences.

Contudo, percebendo seus efeitos negativos na vida cultural, intelectual e universitária, o Ateliê de Humanidades se constitui na contramão de tal tendência, defendendo, como nosso valor, o tempo cadenciado do estudo, da pesquisa e da formação. Temos o intuito de contribuir para revivescer e proteger o tempo próprio à ciência, ao filosofar e à cultura, constituindo-nos em um espaço disponível para uma reapropriação do tempo próprio à vocação intelectual. Afinal, a ciência e o pensamento necessitam de tempo: tempo para pensar, tempo para ler, tempo para digerir e refletir, tempo para acertar, errar e arriscar.

Manifestações em defesa do tempo próprio

Sempre que possível, o Ateliê fará circular, difundir e repercutir importantes manifestações culturais e intelectuais feitas em defesa do tempo próprio.

De partida, trazemos uma tradução do importante Manifesto da Slow Science, publicado em 2010 pela Slow Science Academy, situada em Berlim, Alemanha. A ela se segue a tradução de uma cartinha precursora do movimento, escrita por Lisa Alleva em 2006, na revista Nature, com o delicioso nome Tomando tempo para saborear as recompensas da ciência lenta. Essas duas intervenções intelectuais fazem parte de um movimento muito mais amplo de reação ao aceleracionismo: os slow movements.

Na verdade, preferimos falar mais em tempo cadenciado do que em tempo lento; porque importa muito menos fixar o ritmo em rápido ou lento do que defender a cadência quase dançante do pensamento, dos estudos e das pesquisas. Estando esta ideia presente nas entrelinhas do manifesto, só podemos lhe dar nosso pleno apoio e desejamos a você um bom desfrute de sua leitura!


O Manifesto por uma Slow Science

Nós somos cientistas. Não blogamos. Não twittamos. Nós assumimos nosso tempo.

Não nos entenda errado. Nós dizemos sim para a ciência acelerada do início do século XXI. Nós dizemos sim para o fluxo constante de publicações de revistas de revisão por pares e seu impacto; nós dizemos sim para os blogs de ciência e as necessidades de mídia e de relações públicas; nós dizemos sim para a especialização crescente e a diversificação em todas as disciplinas. Nós também dizemos sim para que a pesquisa retorne e fomente os cuidados de saúde e a prosperidade futura. Nós estamos neste jogo, também.

Entretanto, nós sustentamos que isso não pode ser tudo. A ciência necessita de tempo para pensar. A ciência necessita de tempo para ler, e tempo para errar. A ciência nem sempre sabe o que pode ser correto agora. A ciência se desenvolve instavelmente, com movimentos bruscos e saltos à frente imprevisíveis — ao mesmo tempo, contudo, ela se arrasta numa escala de tempo muito lenta, para a qual deve haver espaço e pela qual a justiça deve ser feita.

A ciência lenta era praticamente a única ciência concebível por centenas de anos; nós defendemos, hoje, que ela merece renascer e precisa de proteção. A sociedade deveria dar aos cientistas o tempo que eles precisam, mas, mais importante, os cientistas devem assumir seu próprio tempo. Nós precisamos de tempo para pensar. Nós precisamos de tempo para digerir. Nós precisamos de tempo para nos desentender uns com os outros, especialmente quando promovemos o diálogo perdido entre as humanidades e as ciências naturais. Não podemos dizer continuamente o que nossa ciência significa e à qual bem ela serve, porque simplesmente não sabemos ainda. A ciência precisa de tempo.

Fique com a gente, enquanto nós pensamos.

A Academia da Ciência Lenta

Seguindo os pensamentos expressos neste manifesto acima, acreditamos que tal tempo para pensar e perseguir um diálogo e uma disputa face-a-face deveria ser disponibilizado para a atual geração de cientistas ativos de alto nível. Nós sustentamos que a ciência, assim como a sociedade como um todo que está financiando nossa ciência, será beneficiada grandemente a (muito) longo prazo, se for encorajada e mantida viva uma cultura de pensamento sustentável e integrativa, de tempo-real / off line.

As academias foram o lar exclusivo da ciência por um tempo muito longo — muito antes de serem introduzidas as revistas científicas, que viraram o jogo. Atualmente, as academias de pesquisa dificilmente desempenham mais algum papel; de qualquer modo, onde elas existem a filiação é uma meta de carreira e um incentivo para eminentes cientistas seniores e outras honrarias, antes que como um espaço de retiro que acompanha a carreira.

A “Slow Science Academy”, fundada na Alemanha em 2010, oferecerá tal frequentemente desacreditada, mas totalmente necessária, torre de marfim. Ela reunirá grupos de pesquisadores básicos ao lado de cérebros seletos vindos da ciência e áreas afins, oferecendo-lhes espaço, tempo, e — finalmente —, recursos para fazer o seu trabalho principal: discutir, espantar-se, pensar.

Fonte: Slow Science Academy, Berlim, Alemanha (http://slow-science.org/).

Contato: academy@slow-science.org.


Tomando tempo para saborear as recompensas da ciência lenta

Lisa Alleva

Nature, volume 443, page 271, 21 September 2006

Senhor,

Como uma colega de pós-doutorado mais velha, experimentada, em meio período, observei uma tendência entre meus colegas mais jovens e mais vigorosos a experimentar a si mesmos no esquecimento. Seguindo o exemplo do movimento “slow food”, sugiro que adotemos uma filosofia da “ciência lenta” para abordar essa questão, que, acredito, está prejudicando a própria base da investigação científica.

Minha escolha pessoal foi aceitar o aqui e agora — estou aqui, fazendo história, então por que não aproveitar esta jornada? Eu posso não estar aqui em seis meses, doze meses, dois anos, mas não vou trabalhar 100 horas por semana para tentar alcançar as metas ilusórias da minha própria concessão, meu próprio laboratório, talvez até de posse.

Ao me desfazer da ambição de meus pares, descobri um segredo: a ciência, a ciência lenta, é talvez o passatempo mais gratificante e prazeroso que se poderia esperar. O laboratório do meu supervisor é pequeno — apenas dois pós-docs, sem responsabilidades de ensino. Somos livres para ler a literatura, formular ideias e planejar cuidadosamente nossos experimentos, assim como para executar estratégias ponderadas. Nós não atravessamos os genomas na esperança de descobrir algo interessante; nós formulamos uma teoria e depois a testamos.

Talvez estejamos antiquados, mas sinto que minha educação como cientista se beneficiou muito mais dos meus cinco anos de ciência lenta do que dos cinco anos anteriores de ciência rápida. Além do mais, estamos à beira de algo grande, emocionante e maravilhoso, que estimula minha ciência lenta para sempre.


Imagem: Salvador Dali, Melting Watch, 1954.

2 comentários em “Manifesto por uma Slow Science

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  1. Concordo plenamente. A pesquisa tanto no âmbito das ciências humanas e naturais como no da filosofia não pode, em hipótese alguma, submeter-se às regras do mercado. Viva , portanto, a ciência lenta, a verdadeira ciência.

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